sexta-feira, 27 de março de 2026

Guairacã 15



                                    Amaralina - BA


15  Um pescador tem dois amor

 

Quem se arriscaria, sem planos, sem corpo estrutural, personagens aqui e ali, um chefe de excursão radicado, um crime duplo, três freiras sem hábito, um gerente de pousada marcado pelas horas, portador da chave do vilarejo. Uma cachoeira, um réptil milenar  sob um vaso na sala, um saco de diamantes protegido por flecha envenenada. Literatura de cordel fechada em uma cristaleira, um lenço de vidrilhos, a mãe e uma faca de cozinha a fatiar o pernil, um féretro. 

 

Onde a Jica Lisberta batia os lençóis, Adele se arriscou. A artista instalou o cânhamo muito bem esticado, sobre tabuinhas envernizadas, escolheu paleta forte, primária e pintou um aborto violento, qual lisianto que brota numa enchente. Um radinho de pilha, pura chiadeira, tocava História de pescadores[1] completo. 

 

Em que contexto o senhor Dorival Caymmi teria versado um pescador tem dois amor. Gente, de todas as galáxias, até os que gritam nos desmanches de automóveis, os que dormem após a farra e todos, até quem matou, na madrugada, truculentamente, ou espancou seu filho adolescente ou correu atrás de um Espírito munido de um porrete, estando a dormir. Toda gente pergunta: em que contexto, cantor do mar, tu, que não foste espartano, escreveste um pescador tem dois amor. Eu penso na moira, anotava Aurélio muito agitado, ela a dividir o único olho, diante da roca, diante do mar. Eu penso na águia que refaz seu bico aos poucos, mas essa é outra arenga, resmungava Eurico, sentado à soleira da cozinha. A agulha me espeta o dedo, eu que sigo varada, a cerzir meias invisíveis, inventariava Fátima, a lisboeta, a ler um conto de Hugo Mãe[2].  Em que contexto o senhor Caymmi teria cantado os trabalhadores do mar, além do mar, além daquele horizonte gris que meus olhos não podem alcançar. Fatima atravessou o oceano, sentia saudades de Helena, de Matilde. Ah, Gattai[3], por que eu te convocaria para tais areias, perguntava de si para si Jordano, incomodado com tamanha estática e com a janela do quarto emperrada. Pior, por qual universo andará o senhor Caymmi, que eu não posso escutar? E Nana, o seu canto triste? Danilo, seu silvo bom? Dory e toda solidão? E a família das águas? De marés que enchem, que vazam e eu ali, a enovelar o fio sempre embaraçoso? Eu não sou ninguém, homem comum, qualquer um... no mar tem areia, sou grão. Guairacã se balançava em sua cadeira próxima ao fogão e murmurava, tonto de velhice. Eu penso, para não parar de o fazer, eu escrevo o menino que foi visitar o pai preso político por entre os arames, arames como os de conter galinhas de quintal. Assim olhava o sol com a mão em concha o Jorge Inocente, Farol do Cabo Branco.  E me vem mais uma história, daquele andarilho de histórias que queria porque queria subir a cinco mil metros o Himalaia, não teve autorização, teimou, subiu um tanto, perdeu os dedos de pés bonitos, pôs em risco a própria vida e a vida da equipe de filmagem. Assim tagarelava o dono do catajeca ao amigo carpinteiro, coçava a cabeça do Repolhinho e encolhia os ombros, entre uma fungada e outra. 

 

Ah, senhor Caymmi, o senhor Galeano[4], a senhora Wierzchowski[5] sabem como cantar. É o mar, é o mar, é o mar. Queria eu não parar de contar, sorriu Juanita, dando adeus a Letícia e a Carlito na estação do trem. 

 

Eu bem que queria, senhoras e senhores leitores, ter mais flagrantes, convivências de jornada. Letícia me vem, de nuvem pensamento, ilumina meu claustro. Eu, que de inocente nada trago, mas não é minha esta narrativa, nem eu deveria estar aqui. A mais quieta das meninas freiras, quase não se ouviam as matinas por sua voz. Quando cantava, belo fio, teia de tarântula de dedos rosa, a prece multiplicava mata adentro, certeza de bons serviços. Ninguém se interessou em informar arquidiocese alguma, sobre o paradeiro de três jovens sem hábito, sem rosário e da família dessas aranhas acima citadas. Como já esboçamos nos começos desse relato, Letícia andou pela ala psiquiátrica de um hospital. E foi ali que conheceu aquele homem belo. Ele repousava na maca, mais magro que vara pau, vítima de excesso de pílulas para dormir e mais alguma coisa que não apareceu no hemograma. 

 

Juvenal sofria tanto em sua docência, os colegas não entendiam por que ele não ia ser contador de histórias, seu mérito. Em segundos, o professor de literatura comparada armava as mais lindas imagens do Rio Grande virgem, de sua cidade natal, um tempo já distante, de rondas redondas e quartos de ronda, imagens de povo, imagens de nação Pampiano. Juvenal tivera a chance de falar com Veríssimo pai tantas vezes em sonho. Não podia, contudo, deixar vir à tona tal experiência, a família lhe andava ao encalço, temia um louco em suas fileiras, já que todos eram isso e sequer suspeitavam. Então Juvenal sofria calado. E quando Oliveira Flores cruzou seu caminho, o calvário se fez Guaíba a encher sem parar. Até que, numa manhã, o professor Gaudêncio o encontrou em prantos, agachado no banheiro do primeiro andar da Faculdade de Letras. Era um jovem professor de gramática latina, amante das línguas mortas. Desse encontro nasceu um relacionamento notável, afivelado e normativo.

 

Leticia e Carlito se aprumaram no vagão de passageiros muito simples, com bancos de madeira, um a amparar o outro sem o saber. O rapaz olhava a janela, vez ou outra, desesperançado. Não tinha compreensão dos fatos que o separariam do pai por dois longos anos. Não entendeu por que sumiu sua companheira de banho de cachoeira, tão de repente. Não entendeu por que aquela mulher loura, de olhos esbugalhados, correu atrás dele aos gritos, ameaçando lhe cortar a genitália. Que confusão aquela, que bom ir embora para longe da assombração que entraria nos seus sonhos, Carlito o soube logo. A moça ao seu lado no vagão era doce, murmurava uma arenga sem parar que hipnotizava. Com esta menina não haveria banhos nem beijos roubados. O rezo lhe trazia alguma calma e permitia cochilar, até a faca brilhar novamente. Carlito nunca havia saído do Riacho. Para Letícia, um brilho majestoso no olhar. A freira tinha, enfim, autorização para cumprir missão. 

 

Eu perco o chão

Esvaziam-se as palavras

O filho vai, o trilho

A faca, a louca, a luz

 



[1] Do álbum Caymmi e o Mar, 1957

[2] Referência ao escritor Valter Hugo Mãe

[3] Referência à escritora Zélia Gattai

[4] Referência ao escritor Eduardo Galeano

[5] Referência à escritora Letícia Wierzchowski