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domingo, 23 de abril de 2017

Ideias revisitadas

Boa tarde.
São mais de trinta anos convivendo com pessoas que cantam, profissionais e leigos (a maioria dos convivas). Desses encontros surgiram muitas ideias, dentre elas fazer um trabalho socorrista (e hoje há cursos especializados de ótima qualidade nessa área - Arteterapia, Musicoterapia e outros espaços na Medicina, Psiquiatria, Homeopatia e tantas correntes), que auxiliasse os praticantes e seu público e atingir  bem estar e consciência.
Ao escrevermos este post, não tínhamos a intenção de anunciar uma técnica, escola. Apenas registrar um dos momentos que vivemos, dentro dos liames do ensino acadêmico. Àqueles cujo assunto remeter a outras pesquisas, experimentações e atuações melhor conceituadas, agradecemos antecipadamente links, comentários e outras direções.
Tomamos, como recurso para realizar a presente preparação vocal socorrista, a improvisação.
Em uma improvisação vocal, muitas práticas vão emergindo com naturalidade: o cantor leigo vai se habituando à escuta do timbre e variações, sente a estabilidade das vibrações, controla a duração dos tons, combina-os criativamente e permite-se expressar ideias espontâneas e ao mesmo tempo raciocinadas; os embaraços orgânicos apresentam-se em proporções tangíveis nas células rítmicas e melódicas, para serem soçobrados na medida da propriocepção – trabalhamos para equilibrar tais perdas; os movimentos psíquicos antecedem essa percepção, revelando-se em esboços ou mesmo temas musicais consolidados, que podem ser analisados durante e após o experimento (que resolvemos, a partir do segundo semestre de 2016, gravar e postar no Youtube - SegundaSabado).
O trabalho individual – esperado no processo, se torna mais promissor quando outras pessoas partilham a experiência em tempo real. A improvisação vocal em conjunto é base, então, para estudos em casa. A escuta imparcial do outro, a possibilidade de análise e síntese de tais estímulos, enquadrando-os à própria produção envolve refinamento, aproximação, entendimento, distanciamento, esperas, renúncias. Em um primeiro momento, as vibrações combinadas devem atender lacunas humanas – limitações técnicas como dificuldades de afinação, de memória, de estabelecer pulso, figura e fundo em música, domínio de tons, intervalos musicais, arpejos, formação de acordes, uso de escalas, domínio de formas e gêneros musicais, de rupturas com a forma, porém atenção ao conteúdo dela.
Cada experiência leva, em média, trinta minutos e é realizada uma vez na semana. Duas improvisações por sessão são suficientes. O ponto de partida pode ser um bordão com lábios fechados, acrescentando-se ao bordão grupetos com vogais e sílabas. Silêncios e variações de dinâmica são vitais no processo. O trabalho pode ser realizado com as pessoas sentadas, de preferência em círculo.
Como o sentido do tato evidencia a aproximação, prescrevemos na presente sessão a técnica do jin shin jyutsu, conhecida como arte de liberação das tensões. A nutrição celular (e a abertura dos campos sutis, dos centros de criação) depende do desbloqueio das zonas de energia estagnada, viabilizando, dentre outras coisas, o fluxo criativo. o tocar o outro quer duas coisas: mover o colega da zona de conforto; dar conforto através da presença, da emanação sutil de bons fluidos. Cada um só poderá ofertar aquilo que tem. O final do exercício determinará a impermanência das coisas. 
Um dos participantes toma a mão do outro e segura um dedo por vez, com seus dedos fechados sobre ele com leve pressão, por alguns instantes. Para uma compreensão básica, cada dedo concentra um estado psíquico – preferimos, nesta abordagem, apontar aspectos positivos relacionados ao toque – 1- interesse, equilíbrio da primeira profundidade; superfície da pele, recepção e processamento dos alimentos – estomago e baço (polegar); equilíbrio da segunda profundidade; derme; alento da vida – pulmões e intestino (anular); equilíbrio da terceira profundidade, essência do sangue; fígado e vesícula biliar (médio); equilíbrio da quarta profundidade; sistema muscular, circulação sanguínea; rins e bexiga (indicador); sistema esquelético, intuição; coração e intestino delgado (mínimo); o centro da mão – fonte da vida, diafragma e plexo solar.
Na aplicação da técnica, acrescentamos a emissão contínua de um tom, produzida pelos participantes e modificada a cada troca de toque; esse tom é produzido com os fonemas M, N e L. Escutar a nota emitida pelo outro e produzir um intervalo coerente é exercício instigante, que gera concentração.
O plano de fundo, formado pelas harmonia dos tons sustentados sugere a expressão de canções já conhecidas e pertencentes à história de vida de cada cantante ou mesmo a criação de versos, quadras, glosas. Um dos participantes vai então cantar, oferecendo ao outro palavras, gestos vocais, versos. O outro responde. As duplas formadas procuram escutar o entorno, gerando coesão. 

Na sessão seguinte, sugerimos iniciar os trabalhos com a escuta da gravação e análise do material – pontos positivos, técnicas vocais observadas, aprimoramento da execução, coesão, caos. E após esse exercício, partir para a próxima improvisação.











segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Resultado de imagem para amas de leite Tarsila do Amaral

Olá.
Tenho essa intuição de ir visitar os escritos de velhas famílias
das 3 Américas.
A cisma que tenho é que lá vou encontrar o canto salvador.
Aquele canto que mandava os que precisavam ir para a morte
aquele canto que minimizava o grito de sal das feridas de chibata
aquele canto sem letra, que lembrava as conexões atemporais
dias de dentes muito brancos em cara muito muito muito risonha
mesmo estando o coração  moído os pés na brasa facão em punho
cana, café, caqui, fubá e xenhenhên
Tenho a intuição de ir visitar as lonjuras intrincadas
dos lugares onde há trilhos e não há trens
E se os há, são dos vales da assombração
são os ossos de incontáveis humanos
com e sem mortalha, cremados ou postos a secar ao som das ondas
direto dos braços de Lânia e Lisíope
Foz, rio, correnteza braba, mansa
nascidos das águas de chuva vermelho terra
os cantos de socorristas
Tenho essa intuição de ir ao encontro
de canções migradas, misturadas
das bocas da mães sem filhos
ninando as crias dos outros
em terras de ninguém
depois ensinando a fazer menino
É assim o enrosco
de índole higienista
Pra que vou atrás dessas histórias mortas?
Requiem aeternam, Dona eis, Domine.
Quem vai querer comprar minhas canções de saudade?
Tenho essa intuição, Alguém...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Cartas a minha professora de canto 2



Querida Sira.

Estou mergulhada nesta experiência do Terra Sonora, que troca “música” com o músico Paulo Santos, moço aí do estado irmão, mineiro.
O moço já viajou o mundo – você sabe, Sira, tocando canos de pvc e outras bugigangas, de um jeito tão engenhoso que fiquei intrigada, se era piada ou algo sagrado acontecendo ali “nas minhas barbas” – certamente as duas verves, que caminham juntas.
Uma pitada de ironia e respeito foi o que percebi a principio. E um desejo grande de equilibrar a autoestima, eu, cantorinha curitibana diante de viajado músico.
Lembrei-me de uma aula nossa, em que você citou o encontro entre Einstein e Rohden, tanto tempo passado em silêncio, fruindo energia, estranha energia.
Músicos não deveriam falar. Deveriam apenas tocar.
Lembrei-me de você me falando sobre as limitações das pessoas, a dificuldade delas em “aguentar” estes encontros. Sobre a necessidade de disciplina, e disciplina, e disciplina, para aguentar esses encontros.
Lembrei-me da forma como você me abriu para a fruição de Rohden, ajudando-me a fazer um intercambio entre a experiência “vivida e saboreada” e “pensada e inteligida”.
Fui fazer o exercício, enquanto a tarde passava ali na Belas Artes, de ver além das aparências, ouvir além das reticências, dos malestares neste meu primeiro encontro com o “alienígena” Paulo Santos.  Tive algum tempo silencioso para meditar sobre essas coisas, sem concluir nada, apenas “parar tudo” e observar, respirar. E tentar aprender.
Tenho certeza, somente um músico ali era capaz de entender o “alienígena” de imediato. Os outros estavam pasmos, “nervosos”. Incomodados. Deslocados.
Eu não estive no primeiro – nem no segundo – encontro entre o Terra e o Paulo Santos, então não ficarei aqui falando de impressões externas, dos outros.  Vou voltar o espelho para meu recuo diante do mundo, vendo de dentro para fora.
Eu já me apartei do mundo, Sira (talvez cedo demais, se pensar em tua experiência, em pleno vigor aos 50 anos). Volto ao mundo somente quando alguém me provoca muito, pelo afeto.
Fiquei tentada a ir almoçar com o grupo no dia de hoje, mas “passei”. Um caldo verde e silêncio me farão melhor. E eu, vibrando melhor, farei melhor pelo grupo, é o que sinto. Perco a oportunidade, desse modo, de ver o mundo como ele se apresenta, cheio de “feijões” e talheres tilintando nos pratos, regado a histórias de viagem que não partilharei... não sentirei culpa, nem pena, nem saudade. Uso a hora do almoço para falar contigo.
Fiquei olhando aquele “alienígena”, de discurso etéreo e sem trama definida. Sua fala ia adquirindo significado para mim aos poucos, como quando tentamos nos comunicar com alguém num idioma diferente. O Paulo Santos passava de um “caco” a outro, coisas como tocar com o UAKTI na Acrópole, usar microfones de baixa qualidade para dar qualidade aos objetos sonoros que ele constrói com os parceiros. O Paulo Santos contou da experiência que anda tendo com uma criança autista, dando-lhe aulas de música. A criança não fala, faz apenas ruídos sem contorno dos lábios e  aprendeu com ele a fazer o “fffffffff”, passando então, feliz da vida, a produzir sons mais balbuciados. E vai se comunicar melhor, certamente, pois o universo musical e creativo está à disposição dela em cada peça que o Paulo Santos usa para construir seus instrumentos, que “viram” musicais nas mãos dele. Há um violão “horroroso”, que uma pessoa menos sensível transformaria em lenha. Foram estendidas três cordas de outro instrumento (cello?) no pinho pintado rusticamente de preto. A técnica de tocar varia – percussão com uma vareta de madeira e uso de arco de violino. A afinação usada é Mi. Três cordas em Mi, oitavas distintas. O que gerou o “Trimi”. Que ‘canta’ potente feito um leão. Bonito de doer. Não tem como não se encantar com uma coisa dessas. E ficar quieto, muito quieto. A palavra, nessas hora, polui, limita.
Uma das "primeiras falas" que ouvi do músico Paulo Santos foi: 'somos basicamente memória. E as memórias boas vão se filtrando, gravadas num “chip”. E a natureza descola este chip, para colar em novo corpo físico, que vai ampliar tais memórias, preserva-las talvez'.
·   Outra vez lembrei-me de você. Das memórias bonitas que você já dividiu comigo, vivências férteis que teve, como professora, como pessoa. E pensei: às vezes as pessoas transferem suas memórias – pois vão esquecer delas, esvaziar-se delas, abrindo caminho para arquivos mais primorosos.
Há muito o que dizer ainda. Hoje tenho o segundo encontro com o músico em questão. E ele vai transferir memórias para um público incógnito. E vai dividir sonoridades ímpares com o Terra Sonora, que lhe responde sóbrio, “ensaiado”, mantendo-se em trilhos conquistados em vários encontros de trabalho. Experiência em que é preciso se deter.  Valorizar.
Porque ela abre discussão sobre novo tema: a dificuldade que as pessoas apresentam para “estudar” – quantas vezes você trouxe esta preocupação para as nossas aulas?
Deixei muitas pontas de novelo soltas neste novo relato.
Não fui visita-la em sua nova casinha como eu queria. Não liguei para você, tenho “fobia” de telefone. Agora perdi meu celular. Se eu morrer hoje, vão ter dificuldade em descobrir para quem devem ligar... sou irresponsável e negligente, aparentemente não me importo os outros. Mas é desapego. Eu estaria bem meditando sob uma árvore, acredite. Ou caminhando, sem parar.
Ainda não sabemos usar a telepatia. O que é uma pena. Porque estou sempre contigo. Em minhas preces, em minhas ações diárias, estou sempre contigo.
Espero te encontrar em paz. Que o silêncio e a solitude lhe permitam ouvir as vozes “do lado de lá” – parece ser mais fácil falar com os mortos, é o que sinto e faço, sem rancores com a dificuldade de comunicação que enfrento com os encarnados, a quem desejo abraçar mais.
Saiba que me encontro em situação análoga à sua. Acredito ter buscado paz na solitude. O contato com o Evangelho, os ensinamentos de Buda, Rohden e as leituras (dos romances históricos às coisas acadêmicas) preenchem qualquer perspectiva de solidão.
Fiquei pensando se você gostaria de “ouvir” algum livro que já tenha lido. Se isso te agradaria de alguma maneira. Posso gravar leituras para você, se quiser.
Mais tarde te escrevo mais, contando sobre a experiência da EMBAP na tarde e noite de hoje.
O que você vai encontrar nestes relatos que te ofereço de meu mausoléu é “uma ligeira indigitação, como certas flechas ou outros marcos à beira da estrada e nas encruzilhadas dos caminhos.“
Que possamos nos encontrar em voo um dia desses.

Sinto na palma a textura curiosa
e nos ouvidos os suspiros do vento
das brujas, diriam eles
Sinto no coração a geleira a me chamar, distante
Tenho cumprido a missão, minha mãe
Tenho cumprido a missão

Sinto no lago dos meus dias infinita saudade
e no encontro entre água e foz
as minhas feitiçarias
Sinto, e a lava é premente, lodosa
Tenho cumprido a missão, meu avô
Tenho cumprido a missão

Pai, eu falo com os mortos
e te deixo sem saber de mim por meses
Sinto que está bem assim
Fui moldada pelas erupções
e hoje me torno cinza

Não extingui a chama porque a memória
das coisas boas
está sofrendo mutações
para trocar de corpo em breve

Não tenho dó, às vezes sinto a rudeza do apego.
Os vulcões do mundo aguardam meu voo solitário.
Entretanto já não vou só.

E assim, sem disposição para sanar as palavras
Consinto por cumprir o poema
Que seja leve, que seja beijo, que seja teu.
Tu que não me deixas escolha.
                                           
Liane Guariente

Meu amor para você.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cartas a minha professora de canto



Querida Sira.

Duas palavras ficam dançando sob a caneta antes que eu as anote neste começo de narrativa: monjolo e realejo. O que digo? Penso na função destes dois objetos.
Eu torno análogos, o trabalho delicado de cantar e o bater do monjolo. Lá vem a “voz”, vazando da calha, brotada da chuva. Ela faz erguer o madeirame. E pimba, soca-se a canção. Assim aprendo os temas que canto no Grupo Terra Sonora. Como se eu morasse na beira de um rio, generoso, a fornecer água em força suficiente para erigir a mó. A voz me vem, deslizante, frouxa, como riso, como brisa, sem resistência, num fluxo ritmado e fresco. E vou, e canto. Se não me dói a brutez, o rude trejeito de mulher das docas, saias puídas, nodoadas, a gritar o peixe e as frutas no cais? Se não me dói a lágrima engolida às pressas, do sofrer das mãos da roça, das mãos das fábricas? Dói, que às vezes quisera eu ser Aida ou Norma ou Manon, para agradar meu ego frágil. Eu não dissocio tais madonas de belas e fartas coxas, longilínea panturrilha e olhos imensos. Então esqueço, não tenho perfil.
Mais caprichoso, o repeteco do realejo é o dia a dia de preparação vocal. Vão pululando, um a um, exercícios já consagrados, inventados, vocalizados, murmurados. E formata-se a canção. Eu, moradora de cidade inconstante, urbe farta de variações climáticas, cheia de poluentes e pouco afeita ao canto, torno a repetir, diariamente, as sequências poderosas de mantras, arpejos, escalas, notas sustentadas, ostinatos, grupetos, para fortalecer o que canto, criando um amálgama longevo em torno do bruto estado das canções. Em geral, construo ideias novas de velhos enredos. É um não acabar de retalhos, o que me dá umas mil cantigas, de muitos povos e idades para rememorar, por horas.
Aprendi a simplicidade do povo rural, em especial o canto melancólico dos imigrantes italianos. Aprendi a gritaria das feiras. Aprendi no feio o que é belo, a sustentar no meio do peito o que de cabeça soa leve, porque o sentimento do povo exige peso, exige dor, exige pouca afinação, até rouquidão, canto bifônico. Aprendi a meditar murmurando. Fugi para mundos indescritíveis murmurando, lugares onde não se fotografa, pois se trata de mundos diáfanos, esquecidos por quem mora há tempos na Terra.
Ah, Sira, o soca soca do monjolo, ferindo os grãos de milho-canção. A geringonça esgasniçada do realejo, gemendo longe suas churumelas circenses.
Ficou guardado num canto o som mavioso das árias de Schubert e Donizetti. No máximo, pude ser gentil com Cavali, e ainda tomando papéis de castrati. E só. No mais, foi abraçar o braseiro das ilhas longínquas da Oceania, atravessar um osso entre os lábios e raspar a pele, até seu perfeito sangramento. E cantar estes cantos sagrados, com gosto de terra úmida. Eu me sinto grata por ter feito este caminho. Teu filho Plínio deu-me esta chancela. Tomei-a entre os dedos e fui pontuando de possibilidades os tantos shows realizados. Fiz rir, fiz chorar. Bonito de ver. Sempre caloroso conosco, o público balizou nossa tarefa e nos deu guarida. E o que dizer dos anos em que passamos ensinando a “ruideira” aos meninos, Bayaka, Omundô. Do primeiro ficou-nos Carla, do segundo Gabriela, duas lindas que deixam os rapazes contentes com seu riso e meninice. E quantos outros estão pelo mundo, Europa, fazendo sentir as influências de nossos ensinamentos na música que produzem.
Estou contente, Sira da minha alma, de partilhar contigo este encontro tão intenso de música, encontro que só acontece em portais, em plataformas interestelares. Foi aí que encontrei teu menino Plínio, esperando uma chuva num dia quente de 1996. Nós nos comunicamos em dolarxiano, fizemos trocas de especiarias, minérios desconhecidos no orbe terrestre (em forma de fitas K7). E, em poucos meses, eis-me com os primeiros temas para trabalhar, da Transilvânia o primeiro (eu que pensava que era lá que Drácula morava). Ixtana bixtana... alí também havia a Seresta do Sr. Gramani, trabalho de monjolo e realejo. O mais esquecido dos esquecimentos foi-me revelado. A experiência de cantar esses cascalhos de diamante que são os temas do Terra surtiram o efeito, para mim, das garrafadas e benzeções para feridas que eu julgava abertas e purulentas para sempre, a matar meu caráter mortiço. Com o Terra Sonora eu aprendi a dançar. E dancei, com meus braços e tronco, fazendo trejeitos engraçados, às vezes harmoniosos até. Eu pude divisar, certa tarde, lá numa igreja do Chile, uma legião de anjos azuis espreitando nosso trabalho, cochichando “que bonito este canto o que será que diz?” Eu vi o olhar molhado de Jesus acompanhando meu cantar humilde enquanto eu esquentava os músculos e dizia preces de gratidão, pela lindeza do Chile a meu dispor. Este milagre discreto proporcionou-me três oportunidades de ser mais do que diva, tornou-me parte de uma paisagem deslumbrante, tornou-me vibração pura a 1673m, no colo do Ozorno.
Tudo isso eu vivi, Sira. E somente porque você permitiu ao Plinio vir ao mundo.
E toda orientação que você me deixou de herança? Tenho aqui diante de mim o teu belo trabalho. Eu mexi nele, tornando-o apto para enfrentar o júdice dos atuais acadêmicos “pseudointelectuais” com quem convivo. Em 2015 ele fará parte do referencial teórico disponível a alunos de primeiro ano dos cursos de música e musicoterapia.
O meu corpo anda fraco. A cabeça nas nuvens. O coração, povoado de fé (sei lá de onde ela brotou, das leituras de Rohden e Chico Xavier).
Eu te escreverei todas as semanas. Aguardo palavras tuas. Estou sempre, sempre contigo. Você é meu mestre jedai, meu xogun. Sinta-se abraçada nas canções.
Somos feitos de espera e de bruma.
Todo o meu carinho e gratidão.
Liane

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

100 papeletas para estudar canto



Boa tarde a todos.
Tenho ocupado grande parte do meu tempo escrevendo um caderno para estudar canto.
Assim que obtiver um registro na UNESPAR - Campus II FAP eu o posto aqui, para utilização de todos.
Um abraço.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Núcleo Fundador




No trabalho de mestrado concluído em 2010 - você já pode encontrá-lo online ou na biblioteca da UFPR*, falei sobre as relações humanas existentes numa comunidade de prática musical. Especificamente um coral. Como li bastante meu trabalho essa semana, para finalmente colocá-lo nas mãos dos acadêmicos, lembrei do Núcleo Fundador, aquele grupo de pessoas que não é o regente, nem coordenador, mas cantantes, cantantes que permitem que o coro permaneça inteiro ou  desmorone. É um grupo de pessoas com certa vibração, pioneiros, os que lançaram a pedra fundamental, os que ergueram as primeiras barracas, roçaram o espaço, plantaram o primeiro canteiro, trouxeram o primeiro leite e fizeram o primeiro fogo. É um grupo restrito, com certo impacto sobre as demais pessoas - veteranos e novatos e regente - que faz os outros tremerem, que diz "não" na cara dura...  tão forte é a vibraçao pessoal dessa gente, que quando um ameaça sair da posição, a casa cai... É bom que outros participantes periféricos tenham oportunidade, a seu tempo, de passar ao núcleo, mas isso é quase impossível. O Núcleo Fundador é o Uróboro, o fim e o começo de ciclo. Quando o último se for, quiçá alguém tenha criado uma vibração capaz de gerar o novo, quem sabe...
Fica aí meu estudo, para voces pensarem e usarem, para o bem comum. Uma força dessas, gerada pelo Núcleo Fundador, é um presente. Poder confraternizar, quando nos encontramos, é dádiva dificílima de se conseguir, porque não somos família, somos outro tipo de congregação.
Abraços a todos que possuem seus Núcleos Fundadores.


*

Catalogação na publicação
Fernanda Emanoéla Nogueira – CRB 9/1607
Biblioteca de Ciências Humanas e Educação - UFPR

 
               Guariente, Liane Cristina
                    Comunidade de prática musical : um estudo sobre um grupo coral em Curitiba  /  Liane Cristina Guariente  –  Curitiba, 2010.
                    124 f.

                    Orientadora: Profª. Drª. Rosane Cardoso de Araújo
                           Dissertação (Mestrado em Musica) – Setor de Ciências, Letras  e Artes  da Universidade Federal do Paraná.

                    1. Canto coral. 2. Coros (Música) - Curitiba-PR. 3. Música - Instrução e ensino. 4. Música e sociedade. I.Título.                      
                                                                         
                                                                                    
                                                                               CDD 782.5
                                                                         

sexta-feira, 2 de maio de 2014

TÓPICOS SOBRE VOZ CANTADA: “INSTRUMENTO INVISÍVEL”

*ALTOS, DO CORAL DO CEIC


Quais os critérios que o cantante precisa considerar para avançar vocalmente:


Consciência técnico-vocal – o orientador vocal pode ser um facilitador (ou dificultador, se não houver empatia entre ele e o cantante) dos seguintes procedimentos:

Conhecer seus procedimentos respiratórios (para as diferentes atividades físicas que exerce)
Reorganizar a postura corporal
Conhecer seus locais de ressonância vocal
Conhecer sua extensão vocal
Conhecer sua tessitura vocal
Conhecer sua região de conforto vocal
Conhecer seus limites vocais
Conhecer as regiões de quebra
Conhecer os locais favoráveis de articulação de cada fonema
Querer superar-se vocalmente
Conhecer sua maleabilidade para cantar
Observar sua expressividade vocal (quanto de imaginação possui e quanto consegue empregar desse exercício em sua execução vocal)
Cuidar da apatia, uma “certa anestesia” que acompanha alguns cantantes, indiferentes e distantes do que estão produzindo enquanto cantam (como se o canto fosse um milagre, como se surgisse espontaneamente, “dos céus”, como se “caísse no colo de alguns).
Pensar no canto como um ‘produto’, não desses que se vendem em camelô.
Dar um sentido específico ao que canta (do mesmo modo que se esforça para dar sentido ao que diz numa discussão, numa argumentação, quando precisa convencer alguém).
Envolver-se emocional e afetivamente com o próprio canto.
Afinação responde a padrões culturais. Utilizamos o padrão centro-europeu de afinar. Precisamos conhecer à perfeição esse padrão (conhecer cada tom, cada intervalo, cada escala, grupeto, motivo, partes da frase, o tema como um todo, pelo menos o padrão 440hz).
Outros padrões, de outras culturas, são dinamicamente enriquecedores do conhecimento vocal, realimentam as sensibilidades ao próprio canto.
Todos estes procedimentos devem estar a serviço da peça que se está cantando. Por isso:
Conhecer profundamente a peça, em detalhes – rítmica, melódica, harmônica, agógica, dinâmica, por audição e, se possível, por alfabetização musical.
Considerar que bloqueios psíquicos podem impedir os avanços que se esperam da voz. E que talvez seja necessário tratar tais bloqueios em processos terapêuticos.
Considerar que é necessário educar o ouvido, ensina-lo a perceber o todo, as nuances, sutilezas, a ouvir em planos. Ouvimos por via interna e externa. O som vocal é conduzido ao meio externo até o conduto auditivo. Nós o sentimos por meio dos ossos (especialmente do pescoço e cabeça). A voz se propaga no ambiente e retorna ao ouvido, para ser processada pelo cérebro, onde ganha sentido. Este processo, do “mundo da forma”, pode ser mediado pelo orientador, que informa ao cantante a qualidade do som que está captando, é capaz de descrever o som produzido pelo cantante, procura ajudar o aluno na localização de suas sensações. Porém, o trabalho do cantante é de autoanalise, autocontrole e autogestão. Que “conteúdo” eu tenho para oferecer a esta “forma”?
Considerar que é preciso lidar com sensações corporais enquanto se canta – executar o canto pelo tato (percebendo onde é preciso firmar, onde relaxa, o que abre, o que suspende, quantidades – de ar, de vibração do som).
Conhecer sua destreza em aprender.
Conhecer e desenvolver memória de canções.
Conhecer a função de sua voz quando participante de agrupamento vocal.
Quando estamos atrás de resultados, podemos estar raciocinando de forma tecnicista, reducionista.
Existem singularidades pessoais que tem de ser levadas em conta, primeiro pelo próprio cantante para a maturação da consciência técnico-vocal.