segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Contos de malhas e mourarias 10








O siamês mestiço

 


Helena, fugida de Troia, toda inocência, trouxe a foto da mãe consigo, andava saudosa e nem entendia tal sentir. O pai acenava da plateia, ela apontou. Segurava uma flor que jogaria ao palco, após o clic. Helena já se notava no ventre proeminente e despudorado, o corpo de deusa daquela genitora desenhado em minúsculo maiô. Não se podia reconhecer o rapaz de pronto, apesar dos spots a focalizar a plateia, ávida de Vaudeville. Fátima foi buscar os óculos, a ver quão vesuviana era a gaja que enfeitiçara o marido ainda imberbe. Uma foto não o poria grisalho em um mil novecentos e oitenta e um. Logo a senhora respirou mais fundamente, expirou em modo de sopro. 

 

As marré dessi entraram em cena no exato instante em que Fátima mergulhou em uma poltrona de canto, a foto nas mãos. Uma delas trazia ao colo um siamês mestiço, algo perto do branco no corpinho, patas, cauda e carinha preto amarronzado. Vinham desculpar-se de comentário acre que magoou toda Alfama, apreciadora da Fátima, de acenar lenços para ela. Só Fátima não conhecia o motivo dos rapapés. A visão obnubilada não deixou ver o gato, para estranhamento das mulheres.

 

Por alguma razão só dela, Fátima quase desfalecera, ao dar-se conta de que o homem que acenava com a flor em nada lembrava José. Helena apavorou-se com a palidez que viu,  tomou um leque da parede para abanar a amiga. As marré dessi, sem entender o quadro, trataram de colocar o gato sobre um aparador e sair de fininho, encabuladas por não saberem auxiliar. O corpo da senhora, um tanto menos arredondado, coube inteiro no acento. Fatima recordou os domingos de sentar-se ao colo de José, em especial nas tardes de frio. Ficava só um pouco, o suficiente para um abraço, logo após secar a louça, as mãos ainda úmidas, ele a cochilar. Tirava do marido um som de felino afetuoso. Tudo isso contou a Helena, do seu José tão amável, que jamais pensara magoar. 

 

O gato esperava ser notado de alguma maneira. Poderia ir por dois caminhos: derrubaria o vaso de cristal que pertencera à sogra de Fátima ou ensaiaria seu primeiro miado em ré maior. Optou por uma apresentação simpática e nobre. Tocou delicadamente a saia de Helena. 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Contos de malhas e mourarias 9




Frivolité e o pudim da batalha

 

 

 

Algo primordial se quebrara nos últimos tempos, e nem é preciso ir muito longe para entender. O José Zezito partira o próprio coração e mais, agora só podia ser olhado do porta retrato da sala, fotochapado na bela idade dos quarentanos. As vizinhas de marré acabavam de sair, hipocritazinhas em seu pipilar. Maldisseram quem queriam, não contavam que a recíproca era verdadeira. Era para serem casadoiras, porém a solidão as uniu em pretzel. 

 

Diante de uma xicarinha de café brasileiro, uma cornucópia mordiscada e a letra da canção Romance de uma caveira[1], Fátima não pensava, não sentia. Não. O vestido salmão de estrelas pequeninas e frivolité já apresentava desgastes aqui e ali. O clic clac do relógio gato era a única coisa invariável que se ouvia no sobrado. Já passava das nove horas, o carris descera a ladeira, a Matilde viajara. Um tec tec à porta anunciou a Helena. Não era. Era uma vizinha recente, do quinhentos e oito. Trazia um prato, envolto em belo pano. O cheiro do doce convidava. Pudim da batalha. 


Fátima sempre fora hospitaleira. Tratou logo de engolir o choro que não vinha, sorrir também não pode,  colocou logo outra xícara à mesa e ofereceu sua produção de açúcar à visitante. Não se furtou a um generoso pedaço do pudim. A Eufrásia, extrovertida, de voz agudíssima, de causar frêmitos, veio sondar a vizinha. Falavam dela, que apreciava os gatos. Queria saber se a senhora aceitaria um filhote siamês, cinza e preto, olhos azuis, que fora abandonado em uma caixa de geladeira, em frente à sua porta. Não é que não os apreciasse, aos felinos, não tinha jeito no cuidar, nem de plantas, nem de bichos. Por instinto, Fátima olhou de chofre a estampa de José. Se o estopim da última rusga tinha sido uma insistência em deixar entrar no lar a frajolinha, além da cama quebrada, não se esquecia. E agora aquilo, o companheiro morto, o vazio do pinicadinho, o colchão desconfortável. Lá fora, uma sucessão de trovoadas deixou as duas em silêncio, a esperar que a borrasca desabasse sobre uma Lisboa empoeirada, fuligem de Coimbra.

 

Outro tec tec e já foi entrando a Helena, praticamente da casa, tão linda aparição fugida de Troia. Salvou-se a Fátima, que aquietou a fala e deixou as duas a perderem elogios nas ladeiras dos cosméticos, dos ton sour ton. Exibiram o batom novo, a meia de nylon, a sandália rasteira, a blusa sem mangas, os braços firmes nas axilas, o belo sorriso da atriz em destaque, Fernanda Torres e um título de Walter Hugo Mãe, recém lançado, comentários que as redimiram da vulgaridade em que se atiravam. Logo se ergueram as duas mulheres e combinaram de ir olhar o Tejo sob a chuva. Insistiram com Fátima, que saísse a espairecer, olhar o mundo molhado. Eufrásia ainda a persuadiu mais uma vez, que bom companheirinho teria se aceitasse o bichano, tão precisado de carinho, boa ração e um nome. Voltaria mais tarde, para saber. Beijinhos perdidos, os de Helena a selar os lábios.

 

Foi um alívio ouvir novamente o relógio gato, reviver tempos de recato, discrição e delicadeza em praça pública. Não que pensasse algo indesejado das moças que saiam, mas preferia mais silêncio, menos tagarelice. Aquele homem, travestido de mulher, o tal Angel, da manhã passada em casa de Matilde, voltou-lhe à mente, como se cochichasse. Faria muito bem, ele dizia, se tu tomasses o bichano por companhia, nesses tempos de languidez. 

 

 

 

 

 



[1] Valsa canção brasileira, composta por Alvarenga/Chiquinho Sales/Ranchinho

sábado, 24 de agosto de 2024

Contos de malhas e mourarias 8

 





A viúva do enfartado 

 


 


Que todos perdoem a pequenez das reminiscências aqui servidas. Fala, do quinto degrau da escada do sobrado, a nossa Fátima. Ainda na calçada, hesitante, ela recita o poema de Pessoa[1],  o das roupas a voejar nos varais. Como se encanta disso a senhorinha, inda mais se flagra a roupa íntima de alguém exposta entre ceroulas e fronhas. 


Resfolegante, ainda a arrastar sobrepeso, embora os esforços genuínos para evitar ginjinha e vinte e um doces portugueses diferentes, com os quais evoluí até ali os dias, açucarada, diante da agenda de capa preta na qual anota ideias, de contar aos filhos que não fez. E agora esta, a menina Helena e a ligação com o seu enfartado, o José. E se confirma o horror, a seca por dentro é ela, Fátima, o útero inospedeiro é dela. Naquele momento apenas, ela compreendeu a lógica dos médicos.

 

Os elogios são venenosos. Porém, aqueles proferidos às avessas também são mau agouro. Precisaríamos, todos nós, refinar o arcabouço da sedução. Quem já viu uma criança charmosita? É malacafento. Pois Fátima, em momentos de fragilidade, recorria aos galanteios infantis e se tornava pouco confiável, permeável. Dava a chave da própria vida a outro qualquer, em troca de doces subjetivos. Depois, não entende por que carece tanto dos doces objetivos. Naquele exercício, o de subir os degraus, a ponderação não era a respeito de sedutores ou doces e sim, de fracassos.

 

Matilde, Fátima a conheceu no Hospital São Bernardo, em Setúbal. A recém casada esposa de José sofreu intoxicação alimentar em um passeio e a enfermeira, muito jovem, uns cabelos de fogo que botavam medo, socorreu, solícita, a dispor em Fátima os dedos, desvendando seus excessos digestórios e descompondo sem pudores, em frente a chorosa gleba de pacientes. O que eram aquelas gorduras todas, como se arriscava a caminhar por ladeiras, como as tornava a subir naquele estado? Como cabia nos carris? Como lhe achar um sanitário onde a pudesse lavar? Uma maca onde a pudesse deitar? Foi assim que começou uma amizade forte, que já durava muitos anos.

 

Lá estava a Fátima, escadaria do sobrado, manhã azul, a contar com Matilde, mais uma vez. A enfermeira passava ali os períodos de recesso. Trabalhava, hoje, em um asilo de loucos, próximo à Cidade do Porto. Às vezes, a companheira Catarina chegava, quase em tempo de Matilde voltar ao trabalho. Respeitavam-se as escalas. Outras vezes eram dois homens belíssimos que vinham, todos eles trabalhadores do referido abrigo para idosos, melhor dizer assim. 

 

Fátima ganhou mais um degrau. O pé de avanço abriu uma clareira em sua memória. Dançava em um salão azulado, ponteado de estrelas. O seu homem, no abraço em que ela se abandonava, tonta de vinho, vez por outra tocava com os lábios o antebraço que ela estendia, quase acima do ombro dele, para sentir a brisa do voleio e esperar tal gesto, que a punha nas nuvens. O beijo trazia consigo um bigode fino, bem escovado, que assentava àquela figura minhota tão querida. Os lábios escorriam para a curva do pulso e paravam na palma da mão. Um gritinho muito curto acompanhava a ousada trilha, que logo evoluía, ou em direção aos dedos ou ao braço nu e então a valsa os conduzia a lugar menos iluminado, e vinham outros revides. E nada disso era sedução, era ir ao ponto. Naquelas valsas, de Setúbal, de Caminha, de Melgaço, de Mondim de Basto, de Faro, os tentames para um filho, desejo de muitos saraus, malograram. Veio dessas tertúlias o costume de arredar os móveis na sala na Alfama e dançar, sempre que a saudade doía. 

 

E agora esta, a menina Helena, fugida de Troia. E a paternidade de José.

 

Fátima ganhou mais três degraus e já não lhe pesavam tanto os desequilíbrios hormonais. Já não se confundiam os velhos desejos de valsa, que quase experimentou com Mariano Lole, mas desistiu a tempo. Não porque esquecera a falta dos filhos, mas por precisar de um sentimento profundo, que José levou consigo e plantou no Cemitério do Lumiar.

 

Em outra preciosa conversa, Matilde já lhe chamara a atenção, que não invocasse mais o noivo de além túmulo, que o deixasse aos cuidados de Camilo Castelo Branco. A enfermeira já passara os olhos em Lole, tanto nos obituários quanto nos livros que publicou; a pessoa apessoada era sedutora e só. Era pai de duas caveiras que se amavam e só. Quebrou à amiga o espelho ilusório da boa companhia na viuvez. Fátima esperava repreensões dessa natureza hoje, quando lhe contasse que o marido morto errara de cama.   

 

Finalmente respirou, sem ofegar, diante da porta, o apartamento sisudo de Matilde. A enfermeira deu guarida a Fátima, surpreendeu-a com uma reunião quase musical. Estavam diante de uma mesa de desjejum, com exatos vinte e um doces diferentes, ginginha, vinho verde, café, água, suco de frutas o Gaspare e seu violão, o Javier e um par de castanholas, as pobre pobre de marré marré dessí, Catarina, a Helena fugida de Troia e um senhor, vestido de rapariga. Soube-se depois que se chamava Angel.

 


[1] Lento no luar lá fora/na noite lenta/ o vento agita/ coisas que fazem sombra a mexer/ Não é talvez senão a roupa/ que deixaram estendida no andar mais alto (...)

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Contos de Malhas e Mourarias 7




sericaia



Querências de cericá

 

 

As raparigas alegres de marré de si não haviam fechado questão sobre os pedaços de cochicho que flagraram, madrugada adentro. Tomavam seu desjejum, as bolas de Berlim a suspirar na cesta de palhinha que compunha a mesa para dois. O chá amargo esfriava no bule e ambas iniciavam uma frase ao mesmo tempo, interrompiam e gemiam, como se movidas a marcação teatral. De uma coisa estavam seguras. Fora Helena, liberta de Troia, a que viram sair sorrateira, logo que o galo cantou pela terceira vez. Mordiam-se, as duas, para fofocar com Matilde, três sobrados ladeira acima, vontade sem medida de sujar as pegadas de Fátima na escada que dava para o segundo piso. Qual a razão para invejas, ciúmes, calúnias, difamações, intrigas? A ideia de que Fátima tinha sortes, marido morto, escritor com quem flertar e agora aquela rapariga estrangeira a lhe dizer lirismos na madrugada? Vontade quase incontrolável de rasgar as vestes despudoradas da amiga glutona, sim, tinham Fátima na condição de amiga de duas décadas, que era o tempo de convívio na Alfama. 

 

O que se contará de chofre, para evitar qualquer malquerença, José, que Deus o guarde, subira certa murada, no inicio do casório, tempo ainda em que se jogavam as tralhas no Ano Bom, a espatifar pelas calçadas. Fora um deslize apenas, com a bufona de revista do Carlos Bittencourt, a tal da Abigail. José voltou compungido, manchado no colarinho, a exalar Chanel falsificado pelas partes. E agora vinha Helena, liberta de Troia, a dizer-se filha de dama do teatro português, desafortunada pelo comportamento mortiço, pai desconhecido. A moça contou que vivera uma infância até lépida, de trupe em trupe, vinha em vinha, a olhar a mãe despir-se e tornar a vestir négligé. Sempre havia de comer, beber e um canto na charrete para dormir, além de histórias picantes, certa ternura, menos da mãe que dos colegas de profissão. Aos quinze anos, Helena foi cuidar de seus sonhos, a colher uvas no Douro. Hoje contava trinta e dois, mulher feita, conscienciosa e linda. Aconteceu de acostar-se com o Jorge, há quatro noites, no trem noturno. Nunca o fizera assim, por bel prazer. Combinaram de não mais se ver, o que muito a confrangia. Helena entrou em herbanário, já em Lisboa, com uma receita forjada de Misoprostol. A moça do balcão, esclarecida, lhe prescreveu Levonorgestrel e recomendou consulta médica, para liberar-se de doenças duras.

 

Fica o dito pelo não dito, Fátima colheu aquela meia filha no calor da lareira, lhe deu leite de burra, caldo verde e brisa de liz. A manhã quase se cumprira quando a senhora desceu, um tanto desfolhada, para tornar a subir as escadas, três sobrados ladeira acima, à cata de Matilde. Murmurava o Fado da Alfama e já não resfolegava tanto. Vestia um vestido marinho, de mangas longas, abaixo dos joelhos, gola fechada. 

domingo, 23 de junho de 2024

Contos de malhas e mourarias 6






Os tomateiros

 

 

Por instantes, o tempo ceou. Aquela moça, de beleza intrigante, amolecida entre seios, sofrera grande decepção. Fátima não lhe culpou, certas mulheres são musa de ópera. Os cabelos castanho avermelhados, ondulados, volumosos, perfumosos de jasmim, espalhavam-se sem dó sobre as margaridas do vestido. Se estivesse bem, Helena teria olhado de comprido para os trajes e avisado, gentil, estás a exagerar nas exposições. Agora, por sabe-se lá que razão, tratava de agasalhar-se entre as carnes mal cobertas daquela senhora excêntrica, que conhecera há dois meses. Um certo frêmito perturbou o espirito de Fátima, em geral apaziguado nos desejos. Helena, liberta de Troia, a agarrar-lhe as escápulas, descia e subia as mãos em síncope até a cintura, de corte sutil. Dona de longilíneos braços e mãos de dedos longos, executava movimentos circulares de levantar os mortos, que envolviam e desenvolviam as curvas renais. Fátima julgou-se em delírio. Com medo de cair nos braços de Lole, lá estava ela, imersa em cabelos de fogo e rosto banhado de lágrimas, tocada por mãos de rinoceronte ibérico, comovente situação. Sem fôlego e sem querer que a perturbação passasse, Fátima custou a crer que Helena estivesse em bom juízo. Sim e não. Os dorsos, sincrônicos, escorregaram sobre um tapete felpudo em frente a lareira apagada, Helena a aninhar-se no colo farto, agora todo a si pertencente. Fátima fez o que cabia, acolheu, acalentou e a moça tinha a dimensão de menina delicada. Sem jamais ter tomado crianças nos braços, o susto disparou os batimentos do coração de avó, mãe, moça nova, que Helena sentiu e esperou, ainda a soluçar. Meia hora se passou nesse idílio, de firmes consequências. 

 

Havia de escoar algum tempo, Fatima em embalar imperceptível, Helena a deixar um rasto de lágrimas por sobre as margaridas, sem detença das mãos, que passearam onde quiseram, enquanto as de Fátima, diligentes, asilavam. O assombro veio, mesmo, de um gesto cúmplice, de uma alça rompida. O líquido verteu, generoso, sabor que lembrava melão doce. Fátima doou, Helena sorveu, até secar.

 

A moça dormiu, de ressonar. Como mãe que deita o filho ao berço, Fátima depôs o corpo sobre o tapete, puxou do sofá uma manta leve e dois almofadões, compondo um descanso suave para esta nova companhia. José havia criado um mecanismo para a lareira que não demandava lenha. Acionava-se o controle da calefação e lá vinha delicada chama, de prazeroso calor. Fatima, antes de erguer-se, ainda demorou os olhos naqueles cabelos, que tratou de harmonizar. Cobriu-se com um roupão que ficava pendurado no banheiro e foi para a cozinha, preparar um lanche para quando Helena despertasse e pudesse contar o que se passou.

 

Nesse ínterim, Lole lembrou-se de um quiosque de Pasteis-de-Belém, próximo à estação ferroviária. Das idas e vindas dos trens, dos passageiros, dos próprios passos, obteve sossego íntimo. Caiu em si. O frêmito luxurioso passara. Sentou-se com um prato diante si e logo o garçom lhe trouxe um moscatel, deu a provar e serviu uma taça. O sol das quinze horas cintilava, ameno. Consultou, no telefone celular, a lista de óbitos e os que traziam as circunstâncias do passamento. Dedicou três horas a dois poemas curtos, aprovou-os quando os concluiu. Enviou-os para o editorial. Estavam de acordo também para o próximo seminário de literatura no qual atuaria. Tomou o primeiro trem noturno para Barca D’Alva às dezenove horas.

 

Neste momento, em casa de Fátima, Helena custou a entender onde e com quem estava. A pílula do dia seguinte, ingerida pela hora do almoço, lhe provocou náuseas e gemidos. Ainda tinha nos lábios o estranho gosto de melão maduro. Fátima, que esperava sentada à janela, veio prontamente socorrer. Havia um pouco de sangue na manta. 

 

A conversa desenvolveu-se diante da lareira, tomadas as providências necessárias para sossego das almas ali envolvidas. Tudo teve início com a visita a uma horta comunitária, em meio a tomates maduros. 

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Contos de malhas e mourarias 5


Helena, liberta de Troia

 

 

O amigo elegante a convidou a cear em um vinhedo, às bordas do Douro, em Barca d'Alva. Mariano Lole esperou pela senhora a caminhar, de um lado a outro, sobre um tapete de tulipas, por meia hora, na Estação Ferroviária de Santa Apolónia. Era um querer peculiar o seu, em vestido mínimo, sem mangas e acima dos joelhos, transparente, três tons acima da cor da pele, pontilhado de margaridas do tamanho da palma da mão, metade dos seios à mostra, quadris e coxas torneados pelo tecido, viuvez explícita e pública, sem rendas submersas ou sapatos.  O local do encontro fervilhava de anónimos, que iam daqui para ali. O alto falante tocava, em volume tolerável, uma canção brasileira a descrever azul, espaço, arrecifes e bancos de areia. Ainda era prematuro, para Lole, considerar enlace de qualquer natureza. Um componente de ternura pairava no ambiente que os atraia, embora aquela delusão bacante que o perseguia. O encontro daquela manhã de domingo evocava ambiguidades, obrigava ocultar-se e despir. O turbilhão da estação, a saída da capital, promessa de dia lúbrico. Se houvera votos, gargantilhas ou convite para mudança de domicílio, os registros ignoravam. José ainda dormia, em retrato, no criado mudo da sabina. Eram esperados, por parte do escritor, dengos, passarinhações, aforismos e a queda das torres puritanas. Obstinara-se por aquela mulher antiga, de proporções circenses, a cheirar fermento. 

Fátima, de sua vez, com hercúleo esforço, reduzira em quatro número o seu manequim. Trocou o lado de pentear seu pixaim e também a tintura. Meteu a pinça entre as sobrancelhas e deu suavidade à sua expressão infantil. Desculpava-se com José, como podia. Há vários dias que não ia visitar a Estefânia, confeiteira da Pão Nosso d’Alfama. O vestido sem mangas goiaba, onde se espalhavam as margaridas, ela o sentia ousado para a ocasião. Nada havia que lutar, abrir caminho, disputar, seduzir, provar. Apenas presença, que desejaria leve. O cheiro de José ainda era sentido pela casa. A frajola, a dormitar sob um facho de sol no beiral da janela, ainda decidia se ficava ou dava pinotes. O felino observava aquele pinicar pela sala, o corrido a tocar na vitrola, pelos da nuca oriçados. O relógio contava os minutos e Fátima nada de calçar as miúdas sandálias brancas, sem salto. Três toques na porta a fizeram desmanchar o idílio. Quem sabe fosse Mariano, excedendo as expectativas. Era Helena, liberta de Troia. A moça despencou-se entre os seios de Fátima, a chorar.

 

domingo, 21 de abril de 2024

Contos de malhas e mourarias 4


A. Magalhães


4 - Frivoleté

 

 

À  mesa da sala, onde se sentavam quatro, repousava o obituário. Também o livro Duas caveiras que se amavam, marcado à página trinta e dois, a certidão do passamento de José, um prato generoso de doces confeitados, agrado de Helena, a nova moradora da segunda janela da esquerda, de frente para o sobrado de Fátima. Uma taça de café brasileiro, um copo d’água, um maço contendo talvez vinte correspondências sem abrir, incluindo-se o telegrama, que veio há sei lá quantos dias, de Ponte de Sor. Um trilho de mesa branco, sem borda ou enfeite, servia como anteparo à madeira acinzentada. O sol das dez convidava a sair, sombrinha aberta, a ver o Tejo ali adiante.

 

Fátima trouxe consigo uma tigela com frutas e sentou-se. Duas luminárias quedavam acesas, pouco acima de seus cabelos, pareciam pirilampos em cenário peculiar. Quase que a viúva precisava de duas cadeiras para acomodar os quadris. De semblante melancólico e saudoso, logo apoiou a cabeça com o punho esquerdo, cotovelo fincado à janela. Trajava um vestido inapropriado para a manhã gelada, nem se lembrara de ligar a calefação. Não fizera gosto de usar luto, o que lhe custou mais falatório das janelas indecorosas. O vestido era rosa salmão sem mangas, estampado de estrelinhas creme, delicado frivolité a contornar o decote que mal continha os seios, talvez a pesar três quilos cada um. O penteado era uma carapinha de difícil conformação, dividida ao meio e elevada de cada lado, a maneira de certos penteados franceses do século dezoito. Fátima mantinha o corte curto atrás das orelhas, caprichosamente redondas e abertas, feito borboletas em pleno voo. As sobrancelhas próximas e retas, olhos pequeninos, alheios, rosto oval, nariz indefinível, boca reta, fina. O conjunto da obra dizia de uma menina vencida, porém não oprimida. Cativava à primeira impressão. O espírito ficava-lhe ao lado, caneta à mão, pronta para pequenas anotações em uma agenda de capa preta. A mão direita acariciava um camafeu que contornava o decote, talvez única alusão a seu novo estado de mulher só. Dentro do miúdo coração, iam as fotos do casamento, José à esquerda de quem abria o artefato.

 

A página do jornal fora recortada, estava apoiada junto à taça. O reclame trazia Deixa-nos Antária Santana. O Casaredo se despede de ela diante da Julieta, âncora companheira, plantada no jardim, Praia da Senhora da Pedra sem número. Ficam dispostas ali suas cinzas, em urna pequenina, algumas pedras a imantar o local, doadas por enfermeiros, médicos e pacientes lúcidos. Notifica-se, outrossim, que é o desejo da senhora, lavrado em testamento, o filho, Cristino Santana, venha para dispersar as cinzas no caminho entre Ponte de Sor e Lisboa. Quatro ânforas da mesma cremação, que cabem em uma palma formaram outro caminho, um ponto em Sagres, outro na Amoreira, ainda outro em Azenha do Mar.  Já repousa um punhado de Antária ao lado do rinoceronte, na Torre de Belém, Lisboa. O último bocado, pede-se que o deixe em um parapeito da Alfama, ao abrigo dos gatos.

 

uma vez me disseram
não se demore em tal mirar

é o elmo de Perseu
anda a Medusa pelos becos
a desfilar 
A lua cigana, que a todos seduz
e de ninguém é
mostra sua face
carmencita del mar
e já se desmancha
os dias evolam
as ampulhetas desaguam
os brincos princesas 
os rufos atentos a anunciar 

cantigas de desapegar