Gilceu e o elefante
Aquela confusão vermelho sangue do Riacho fez Adele parar, diante da tela em branco. Um projeto canibal que voejava em sua mente meio que coalhou. O sol brilhava miúdo, havia calma, um adoçar das aguas ali tão perto, dava para sentir as gotas sobre a túnica, sempre branca, transparente e risonha de nudez.
Aurélio tinha saído cedo. O olfato da amante foi com ele, ela sem entender nada de Chicão, Carlos, Jordano, Leticia. Quando a ambulância passou, a levar Caviúna e seu estrago infeliz - o leitor se lembra de que a mãe da menina morta quis cortar o pulso -, veio à artista reforma intima. O novo padrão ganhou vulto. Retrataria um feto, cinco meses de gestação, de tal modo que enternecesse os apreciadores, permitisse amar o conteúdo invisível de um ventre, a vida por vir, uma surpresa expectante, coroada de marés. Adele jamais oferecera um quadro seu para visitação. Não de coração. Participara, sim, de alguma vernissage. O sentido desses eventos não significava nada, além de uns trocados para novos metros de cânhamo.
A mulher tão magra pôs as mãos na mistura terrosa e iniciou um bailado lento, atordoante para alguém desejoso. Se o parto fosse feliz, nasceria um rebento de um metro por setenta centímetros. O artista vê a obra pronta e então a mapeia. Eurico, recém chegado da pista de pouso, olhou da janela. Era uma talagada de rum, e outra, e outra. Ele não fazia o tipo de cobiçar as mulheres do vizinho, tampouco a lascívia lhe compunha o caráter, a musica se servia do lado bom desse movere. O encanto foi mais voraz que o decoro, o chamado da ninfa, melódico, angustiante. Pensou em descer por uma corda, feita de lençóis, sabia que ir pelas escadas apagaria o louco da situação. Ato consumado, fecundação, o querer não tem poder. Os pensamentos eram tufão voraz, vindo do horizonte, em meneios de pelve de tirar o fôlego.
O enlevo de Eurico foi virado do avesso com um gesto delicado da Jica Lisberta, que lhe oferecia, com ternura, uma baciada de jenipapo. Parou na porta aberta do dormitório, tinha o semblante entristecido. Nada de santas e meretrizes, Eurico afastou com a mão a filosofia, como quem espanta inseto. O paleontólogo foi arrancado da barca do arroubo, graças. O que são alguns minutos de exaustão quando as aguas modulam, profundas, desconhecidas. Foi provar da fruta.
A senhora era jovem ainda, corpo primoroso de amazona, cabelo fechado em uma rede de araminhos, crochê feito a mão, pontinhos delicados, um pouco mais escura a linha do que o cabelo palha de milho que ia embaixo. Eurico recompôs seu plexo, voltou ao mundo cão. Achou nexo no macio da bochecha e mais, na amplidão do invisível que se escondia sob a pele, sob os músculos, além dos ossos. Isso era mote para um villancico do século XIII. Eurico agradeceu, não sabia como comer jenipapo, só havia tomado o licor.
O cavalheiro foi convidado pela senhora moça, se não queria por um pouco de saudade em sua cozinha, enquanto ela aviava o almoço. Ao descerem os degraus, a bacia à frente do cortejo, sustentada pelo cavalheiro, cruzaram com Jorge e o lenço de espelhinhos apertado ao pescoço. O rapaz subia, clarinete em punho, também uma caixinha de palhetas, que viera há pouco pelo trem. Mais dois lances e o siricutico silencioso. Sumiu-se o calango, por detrás do vaso, vinha do quintal, onde se encontrava Adele e o vermelho sangue.
Gilceu não aparecia na pousada há dias. Aparentava amuo, embora seja difícil saber o que sente um animal de sangue frio. Aquele outro, o que posou para Adele outro dia tinha sido capturado, ninguém quer cruzar com tipo humano que faz das suas com os inocentes. Vale dizer que o teiú encontrado decepado, na sala de Caviúna, nunca tinha cruzado, nem com Jorge, nem com Gilceu. Quem lhe roubou a vida em flor, vai saber. A cabeça fora pendurada por um fio, sobre o lugar onde dormira a menina morta. Eis aqui um intrincado causo de policia ou de assombração ou feitiçaria. Talvez renda historia, talvez o corpinho do réptil vagasse, e descansou sobre uma possa sanguinolenta na sala, do tamanho de uma seriguela cortada ao meio.
O calanguinho do seu Guairacã esperou aquele sobe desce dengoso e zarpou atrás da curiosa tromba, que lhe chamou a atenção antes, quando Jorge desceu. Lá no quintal, Adele chamava, ele sabia. O pspspsps em tempo de valsa não era ofertado a um gato. Como a carita de Gilseu era um perene sorriso, o saurito manteve a compostura e foi ver se o dono do Farol ia bramir outra vez.