quadro de Lucas Santos, PA -BR
o Jurupari e o calor do fogão
Tinham perdido as contas da ultima vez que um hospede tocou a sineta da Pousada. Eram quatro e quinze da tarde, parece que todas as conversas, as de fogão, de clarinete, de tinta vermelho sangue, da segunda ambulância que passou pela frente do jardim, do avião, dos calangos, do trem, do apito, das camélias dentro de uma caixa de acrílico tinham sido miragem, noites com sol como dizia a canção que Eurico entoo durante a feitura do almoço.
A Jica Lisberta sacudiu o ombro do velho estalajadeiro, ele fez um sinal de espantar mosquito e voltou a ronronar, tamborilou também alguma cantiga no braço do cadeirão. Era ir atender, ela por ela. Não gostou nada do que viu. Primeiro impulso foi ir pondo para fora sem ser rude, Gilceu decidiu a questão. Ao contrario de sumir com a chegada de um estranho, o calango surgiu do nada e saltou para a mesinha, em uma posição de defensor do reino. Jica interpretou o gesto de dois jeitos: primeiro, levou em consideração o arrepio que sentia toda vez que topava com aquele bicho; segundo, colocou-se no lugar da mulher toda estropiada e viu, num relance, o que era estar necessitada e não a acolherem. Uma terceira revelação viria, quando fosse o tempo.
Jica nem pensou duas vezes, apoiou a dona com cheiro de pântano pelos ombros, cruzou o santuário da cozinha e fez sinal para Fatima, que tinha a atenção nas panelas. A portuguesa não pestanejou, desligou tudo e foi ajudar. O grão de bico, que já chegara ao ponto adequado, não ficaria perdido. Seu Guairacã abriu só um olho, não quis saber. Pensava em processos, a resolver lá com o intendente.
Sentindo-se finalmente em paz, a hospede perdeu os sentidos, foi bom a haverem sentado em uma banqueta sob a bica. Não a despiram ali fora, o destino é discreto. Depois a mulher, um metro e sessenta só de pernas, ao sentir o calor do fogo, enrolou-se mais em uma colcha que lhe estenderam, tinha um pouco de febre. O vestido laranja de flores grandes, que pertencera a Fatima, ela o pode vestir sozinha, caiu a contento. Este já não cabia mais na dona e Jica não se sentia à vontade para usar. Os curativos, Jica os fez com cuidado, na face, braços, pernas. Ninguém perguntou o que aconteceu, dali a pouco se esclareceria tanto vandalismo. Um de beber reabilitante veio completar a acolhida daquela espancada valente que olhou as socorristas, o velho e chorou toda a cachoeira do Riacho, por pelo menos uma hora.
Josephine, se chamava. Sim, fora ela a dar nome a um jogo de cartas que lembrava paciência quarenta ladrões. Isso foi seu Guairacã quem perguntou. Ninguém podia ganhar o tal jogo, explicou, então um ou outro sujeito se embriagava e, de raiva, acabava espancando as colibri da Maria Encrenca. A servidora, no Quendóque, era mais para limpar o banheiro, paredes, chão, fazer três camas e lavar lençóis, uma vez por semana. Também cozinhava bem, era o que salvava a sua pele e a frequência do lugar. O seu cozido de carne verde era bem famoso, as lendas sobre ele chegavam até o Riacho, diziam que levantava defunto e curava lues.
O Quendóque ficava a uns quarenta quilômetros da Pousada, era preciso expurgar a trilha a facão para lá chegar. Feito de sobras de material, o lugar malversado fazia as vezes de pernoite para mineradores e gente de escambo. Não tinha muito tempo, o boato da aparição de um Jurupari, a machucar tudo o que pegava, a mãos nuas, se espalhou e encantou muito cordelista. Movimento aumentou por conta dessa prosa, a frequência vibratória caiu, apesar das caixeiras que vinham animar as noites de lua. Foi numa dessas chuvas de gafanhoto que um sujeito, traços bonitos e selvagens, quis intercurso sem ônus. Berrou que queria todos ali, na mesa. Josephine disse não e tomou pancada até as mãos brilharem de poder destrutivo. Nessa hora, o Jurupari interviu e as colibri puderam se esgueirar pelo quintal, um capão só. A Maria Encrenca, dona do Quendóque, veio por trás e acertou o valentão de cheio com uma pá. Meio tonto, o estropício foi pelo mesmo caminho de Josephine; fedia a monturo. Passou rente por ela, gritando que ia voltar, tocar fogo. Não se passaram dois dias. As labaredas levaram tudo, fizeram do mato clareira de quatrocentos metros, daria para levantar um estabelecimento digno, se tivesse ficado algum vivente ou algum cobre para contar vantagem. Foi o Jurupari quem soprou no ouvido de Josephine, poucos minutos antes da confusão: larga tudo e corre, corre, vai procurar Seu Guairacã lá no Riacho.
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