terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guairacã 21



Elisa Lucinda dá vida à personagem Maria Macaca, que carregava água do chafariz para as casas das fazendas

cena do documentário Maria Macaca, UEG, homenagem a Cora Coralina



lata d’agua na cabeça

 

Adele chegou ao Hospital de Bananeiras ainda em tempo de olhar o céu, um azul esbranquiçado, que ela não costumava ter em sua paleta. Se escapasse daquele aborto espontâneo, pintaria a senhora que viu, na entrada da recepção. Eram quinze e quinze da tarde. Mesmo muito debilitada, ela pode pedir que a irmã Juanita tirasse uma foto daquela aparição com seu celular, caso a senhora desse licença. Deu, bom sinal.

 

Tudo aconteceu pouco antes da chegada da nova hospede, a Josephine. O feto tomava forma na tela, bonito como é toda estampa da vida intrauterina. Um sentimento devastador ia com a artista, desconhecida a sua força. Se traduzisse com palavras rasas, descreveria dor de estomago, pressão nas têmporas, contrações. A revolução no organismo era, no entanto, a instalação de uma energia que só visita uma a cada mil mães. Estatística inventada, pode variar para mais ou para menos. Nem se pode chamar energia, fluido ou aura ou qualquer palavra cientifica, mística. O que Adele não pretendia nominar era esse folclore que protege a maternidade, nem sempre real, quase sempre um peso para quem não sente o que ela sentiu no ultimo movimento que fez, antes de descer as mãos retas sobre a tela, um gemido grave e dolorido. A peça estava arruinada. O sentimento nasceu assim, vigoroso, como objeto não identificado[1].

 

Eurico, que tocava violão no degrau da cozinha, foi bem eficiente. Juntou a moça ainda no final do pedido de socorro. Passou lépido com ela porta adentro. Enquanto isso Jorge, que vira a situação do mirante, acionou a ambulância do hospital mais próximo. Em vinte minutos a paciente seguia viagem, sob o olhar sereno de Juanita, cuja experiência de acreditar facultava-lhe bom animo, boa vibração em tons de vermelho sol.  

 

Fatima e Jica Lisberta não tiveram tempo de refletir sobre a situação. Nada de mal, na verdade tudo de bom, um neném pela casa seria uma alegria, diferente de um calango por baixo dos vasos, por cima das mesas. Ambas passaram as mãos, discretas, pelos ventres. Ambas, em se criando bons ambientes, em comparecendo um companheiro, ainda poderiam ser mães. Certo que, para Fatima seria um feito como o de Isabel[2]. Ambas sentiram, quando Eurico passou, a carregar aquela mulher, que a vida é, no mínimo, arte. Nenhuma ousou fantasiar o companheiro ideal ou o filho por nascer; seria perda de tempo, construção inútil de tristeza. As panelas começaram a cantoria para um jantar humilde, visto que haveria quatro convivas no partilhar da refeição. O grão-de-bico seria a grande atração. 

 

A chegada de Josephine deu uma guinada interessante ao final daquele dia. Por conta dela, do seu potencial em tornar o mundo leve e divertido, os curiosos que apareceram, em busca de um furo, de sangue, de drama e erotismo encontraram pessoas sorridentes, calmas, disponíveis para qualquer prosa menos dor. 

 

O guarda chaves do Riacho, diluídas as novidades, foi ter com o Intendente. Não que se apegasse a premonições ou avisos. Seu Guairacã sentiu que o momento era propicio para fazer o que havia para ser feito. Tomou da bengala que passara a usar e ia se dirigindo à saída, quando estacou diante da parede, mais especificamente da flecha, que todos conheciam como envenenada. Acariciou um cantinho dela, como se faz com cabeça de criança. Uns diamantes que repousavam, enterrados naquele ponto, em breve mudariam de dono. Quem não descuidou desse gesto foi Gilseu. Agora, o calango passava mais tempo sobre a mesinha da entrada, o que lhe outorgava visão ampla de tudo o que ocorria na recepção. Mesmo que o bichinho soubesse das pedras – e sabia -, jamais trairia a confiança daquele seu provedor de cata-ventos, que servia bem a todos, há mais de cinquenta anos. 

 

 



[1] Da canção Não Identificado, Caetano Veloso

[2] Alusão à prima de Maria de Nazaré, mulher de Zacarias

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Guairacã 20

                                    quadro de Lucas Santos, PA -BR


o Jurupari e o calor do fogão 

 

Tinham perdido as contas da ultima vez que um hospede tocou a sineta da Pousada. Eram quatro e quinze da tarde, parece que todas as conversas, as de fogão, de clarinete, de tinta vermelho sangue, da segunda ambulância que passou pela frente do jardim, do avião, dos calangos, do trem, do apito, das camélias dentro de uma caixa de acrílico tinham sido miragem, noites com sol como dizia a canção que Eurico entoo durante a feitura do almoço.

 

A Jica Lisberta sacudiu o ombro do velho estalajadeiro, ele fez um sinal de espantar mosquito e voltou a ronronar, tamborilou também alguma cantiga no braço do cadeirão. Era ir atender, ela por ela. Não gostou nada do que viu. Primeiro impulso foi ir pondo para fora sem ser rude, Gilceu decidiu a questão. Ao contrario de sumir com a chegada de um estranho, o calango surgiu do nada e saltou para a mesinha, em uma posição de defensor do reino. Jica interpretou o gesto de dois jeitos: primeiro, levou em consideração o arrepio que sentia toda vez que topava com aquele bicho; segundo, colocou-se no lugar da mulher toda estropiada e viu, num relance, o que era estar necessitada e não a acolherem.  Uma terceira revelação viria, quando fosse o tempo. 

 

Jica nem pensou duas vezes, apoiou a dona com cheiro de pântano pelos ombros, cruzou o santuário da cozinha e fez sinal para Fatima, que tinha a atenção nas panelas. A portuguesa não pestanejou, desligou tudo e foi ajudar. O grão de bico, que já chegara ao ponto adequado, não ficaria perdido. Seu Guairacã abriu só um olho, não quis saber. Pensava em processos, a resolver lá com o intendente. 

 

Sentindo-se finalmente em paz, a hospede perdeu os sentidos, foi bom a haverem sentado em uma banqueta sob a bica. Não a despiram ali fora, o destino é discreto. Depois a mulher, um metro e sessenta só de pernas, ao sentir o calor do fogo, enrolou-se mais em uma colcha que lhe estenderam, tinha um pouco de febre. O vestido laranja de flores grandes, que pertencera a Fatima, ela o pode vestir sozinha, caiu a contento. Este já não cabia mais na dona e Jica não se sentia à vontade para usar. Os curativos, Jica os fez com cuidado, na face, braços, pernas. Ninguém perguntou o que aconteceu, dali a pouco se esclareceria tanto vandalismo. Um de beber reabilitante veio completar a acolhida daquela espancada valente que olhou as socorristas, o velho e chorou toda a cachoeira do Riacho, por pelo menos uma hora. 

 

Josephine, se chamava. Sim, fora ela a dar nome a um jogo de cartas que lembrava paciência quarenta ladrões. Isso foi seu Guairacã quem perguntou. Ninguém podia ganhar o tal jogo, explicou, então um ou outro sujeito se embriagava e, de raiva, acabava espancando as colibri da Maria Encrenca. A servidora, no Quendóque, era mais para limpar o banheiro, paredes, chão, fazer três camas e lavar lençóis, uma vez por semana. Também cozinhava bem, era o que salvava a sua pele e a frequência do lugar.  O seu cozido de carne verde era bem famoso, as lendas sobre ele chegavam até o Riacho, diziam que levantava defunto e curava lues.

 

O Quendóque ficava a uns quarenta quilômetros da Pousada, era preciso expurgar a trilha a facão para lá chegar. Feito de sobras de material, o lugar malversado fazia as vezes de pernoite para mineradores e gente de escambo. Não tinha muito tempo, o boato da aparição de um Jurupari, a machucar tudo o que pegava, a mãos nuas, se espalhou e encantou muito cordelista. Movimento aumentou por conta dessa prosa, a frequência vibratória caiu, apesar das caixeiras que vinham animar as noites de lua. Foi numa dessas chuvas de gafanhoto que um sujeito, traços bonitos e selvagens, quis intercurso sem ônus. Berrou que queria todos ali, na mesa. Josephine disse não e tomou pancada até as mãos brilharem de poder destrutivo. Nessa hora, o Jurupari interviu e as colibri puderam se esgueirar pelo quintal, um capão só. A Maria Encrenca, dona do Quendóque, veio por trás e  acertou o valentão de cheio com uma pá. Meio tonto, o estropício foi pelo mesmo caminho de Josephine; fedia a monturo. Passou rente por ela, gritando que ia voltar, tocar fogo. Não se passaram dois dias. As labaredas levaram tudo, fizeram do mato clareira de quatrocentos metros, daria para  levantar um estabelecimento digno, se tivesse ficado algum vivente ou algum cobre para contar vantagem. Foi o Jurupari quem soprou no ouvido de Josephine, poucos minutos antes da confusão: larga tudo e corre, corre, vai procurar Seu Guairacã lá no Riacho.  

 

 

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Guairacã 19

a doçura da canção 

 

As contarias de beira de fogão, tão atrativas para Fatima, poderiam soar palavras ao vento em um registro como este, na carona do recurso tecnológico, sem papel, sem capa, sem método, sem ouro de subsistência. Foi assim, animo desarmado, que a lisboeta largou o ultimo grão de bico na peneira, ele ficaria de molho até o dia seguinte. O alimento chegara no trem, ainda não o haviam cozido na Pousada do Riacho. Novidade é sempre novidade, atrai os olhos, o paladar, de alguma forma atrai saudade. Tinham decidido, as duas amigas, preparar um pesto sem tempero algum. Se calhasse, batiam o grão com limão, acertavam o sal e serviam com pão fresco, enfeitavam com cebolinha. 


Não tinham trocado uma palavra entre si as mulheres, constrangidas por algo intocável, que estorvava e não saia da moita. Jica permanecia de muxoxo, difícil saber o que ia em seu coração. Sem dar mais sinal que um suspiro, cantou, sussurrado para suas panelas

 

Doce Maria

Solta teus cabelos 

O espelho das aguas vai lavar

Curva o teu dorso, ‘vagarinho

Que ali mesmo, no caminho

Há tanta mão pra te saudar

 

Doce Maria

Dobra os paninhos secos

O cesto de dormir está limpinho 

lavaste na enxurrada

Logo cedo, no quarto de lua

Para o menino descansar

 

Doce Maria

Segue tranquila para casa

pela trilha do mourão 

Jose te espera confiante

A ninar o pequenino que dormiu

Na cuia de seus braços fortes

 

Olha, que alegria

Quando passas tão serena

Os nazarenos do mundo inteiro choram

Olha, que alegria

Um encanto emocionado

Porque olhas para nós  

 

 

Era o Jordano, que mandava noticias para Aurélio do Recife. Talvez a tonta da Jica esperasse qualquer agrado. Ainda tinha na mente aquela conversa despropositada com Eurico, sobre um marido, que chega de jornada solitária pelo pampa com um saco de ouro e uma perna de alce, bate os dois contra o tampo da mesa[1] e termina de cuspir o tabaco que vinha mascando. Ah, os homens toscos e bons. Ainda tinha no coração o arroubo que a tomou de assalto e lhe subiu, caprichoso, do peito para entre as sobrancelhas. Poderia ter sido pior, poderia ter descido e esvaído o romance, a ideia de sublimação. 

 

Romance, coisa mais besta, de se tocar ao baixolão, Eurico que o dissesse. Mesmo assim, um sonho tão antigo, tão terra, tão traduzido em letras de canção, em cordéis. O que mais uma mulher de riacho, no oco do mato, poderia almejar. Puxa, todos tem direito a dormir abraçados, Mia Couto[2] tem toda razão. O erro imperdoável da colher de sal no arroz de leite. Assim Jica cismava, miseranda, confusa, quando a Fatima lisboeta desatou a falar da doçura do seu Jose, da lembrança dos gatos. De achar curioso que ali no riacho se os visse muito pouco, feito aves raras. Defendeu também o compositor de versos necrológicos.

 

Do lado de fora, perto do poço, as mãos vermelho sangue trabalhavam sobre o cânhamo. No ventre de Adele suspirava o nimbado menino, que talvez chegasse dali oito meses, para fincar raízes no Riacho. Ainda não estava certo, se era um filho ou o monstro das anfetaminas. Ela conversara com o pai paleontólogo, sobre ir ao Recife, submeter-se ao pré-natal, cartas na mesa sobre seu passado em Portugal, tempos de Casaredo. Ambos guardaram para si o próprio susto. Todos sabem que conúbio resulta concepção. Todos tem consciência do que seja produzir vida nova, seja qual seja a ideia que se forma a respeito. O instinto de proteger e perder a vida, a pergunta retorica, se há vida após o parto, tudo a seu tempo. Ou vem, do amancebado encontro, um ser muito antigo ou zero quilometro, nem só de bem, nem da treva, mas pode ser. Ele vai se juntar aos demais terráqueos, que lhe servirão de modelo, de guia. Todos suspeitos. Há que se pensar, não são historias inéditas, autenticas. Os anéis pesam, em muitos dedos. Adele e Aurélio não trocaram alianças, juras, compromissos, somente fluidos, um pouco de ternura. Para o sim, para o  não, uma literatura farta e forte estava no mundo, viajava por navios, pelas mentes dos homens. Tudo é possível, entre o ciúme e o lírio. Fenômeno ou fé ou arte, ou simplesmente tinta vermelho sangue sobre cânhamo alvo, feito nuvem barco que cobre o sol e muda o curso do dia em menos de um segundo. 

 

As mulheres, na cozinha, olharam para o velho Guairacã, que ficava ali, cismaroso ele também, a gingar na cadeira do fogão. Sobre o balcão da recepção, mais às moscas que hospitaleiro, a opabinia calava, dentro de um aquário de formol. Gilceu, por meios desconhecidos, subira a uma mesinha, que o deixava ver o jardim frontal. Aparentemente, o calanguinho dormia; sua atenção, no entanto, era toda para lagarto de metro e meio, estático, a espreita de algum desavisado que lhe servisse de almoço. 

 

O dia, na Pousada do Riacho, prometia mesmice.


Só por Jorge, aboletado na janela do mirante, a vida doía. Ele lambeu com gosto a palheta nova de seu clarinete. Quando soou Taste of honey[3], algo se quebrou por dentro e o riacho parou de chorar. Um bordão com o trem firmou ainda mais a dor. Gilceu desceu da mesa e subiu as escadas num piscar. A menina morta trauteava pelas aguas, a lembrar do transitório, do que se precisa rezar. Pela melodia, analgésico. Um cartão postal, enviado pelo Aurélio, dava as linhas gerais: a irmã Leticia, o menino Carlos, o encontro com Chicão, a internação da Caviúna. 

 

O que mais se possa contar, fica para o mês primaveril. 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Uma conversa amorosa, com amigo amoroso, via satélite

[2] Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra “dormir com alguém é a intimidade maior(...)”

[3] Canção de Bob Scott e Ric Marlow

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Guairacã 18




Gilceu e o elefante

 

 

Aquela confusão vermelho sangue do Riacho fez Adele parar, diante da tela em branco. Um projeto canibal que voejava em sua mente meio que coalhou. O sol brilhava miúdo, havia calma, um adoçar das aguas ali tão perto, dava para sentir as gotas sobre a túnica, sempre branca, transparente e risonha de nudez. 

 

Aurélio tinha saído cedo. O olfato da amante foi com ele, ela sem entender nada de Chicão, Carlos, Jordano, Leticia. Quando a ambulância passou, a levar Caviúna e seu estrago infeliz - o leitor se lembra de que a mãe da menina morta quis cortar o pulso -, veio à artista reforma intima. O novo padrão ganhou vulto. Retrataria um feto, cinco meses de gestação, de tal modo que enternecesse os apreciadores, permitisse amar o conteúdo invisível de um ventre, a vida por vir, uma surpresa expectante, coroada de marés. Adele jamais oferecera um quadro seu para visitação. Não de coração. Participara, sim, de alguma vernissage. O sentido desses eventos não significava nada, além de uns trocados para novos metros de cânhamo. 

 

A mulher tão magra pôs as mãos na mistura terrosa e iniciou um bailado lento, atordoante para alguém desejoso. Se o parto fosse feliz, nasceria um rebento de um metro por setenta centímetros. O artista vê a obra pronta e então a mapeia.  Eurico, recém chegado da pista de pouso, olhou da janela. Era uma talagada de rum, e outra, e outra. Ele não fazia o tipo de cobiçar as mulheres do vizinho, tampouco a lascívia lhe compunha o caráter, a musica se servia do lado bom desse movere. O encanto foi mais voraz que o decoro, o chamado da ninfa, melódico, angustiante. Pensou em descer por uma corda, feita de lençóis, sabia que ir pelas escadas apagaria o louco da situação. Ato consumado, fecundação, o querer não tem poder. Os pensamentos eram tufão voraz, vindo do horizonte, em meneios de pelve de tirar o fôlego. 

 

O enlevo de Eurico foi virado do avesso com um gesto delicado da Jica Lisberta, que lhe oferecia, com ternura, uma baciada de jenipapo. Parou na porta aberta do dormitório, tinha  o semblante entristecido. Nada de santas e meretrizes, Eurico afastou com a mão a filosofia, como quem espanta inseto. O paleontólogo foi arrancado da barca do arroubo, graças. O que são alguns minutos de exaustão quando as aguas modulam, profundas, desconhecidas. Foi provar da fruta.

 

A senhora era jovem ainda, corpo primoroso de amazona, cabelo fechado em uma rede de araminhos, crochê feito a mão, pontinhos delicados, um pouco mais escura a linha do que o cabelo palha de milho que ia embaixo. Eurico recompôs seu plexo, voltou ao mundo cão. Achou nexo no macio da bochecha e mais, na amplidão do invisível que se escondia sob a pele, sob os músculos, além dos ossos. Isso era mote para um villancico do século XIII. Eurico agradeceu, não sabia como comer jenipapo, só havia tomado o licor. 

 

O cavalheiro foi convidado pela senhora moça, se não queria por um pouco de saudade em sua cozinha, enquanto ela aviava o almoço. Ao descerem os degraus, a bacia à frente do cortejo, sustentada pelo cavalheiro, cruzaram com Jorge e o lenço de espelhinhos apertado ao pescoço. O rapaz subia, clarinete em punho, também uma caixinha de palhetas, que viera há pouco pelo trem. Mais dois lances e o siricutico silencioso. Sumiu-se o calango, por detrás do vaso, vinha do quintal, onde se encontrava Adele e o vermelho sangue. 

 

Gilceu não aparecia na pousada há dias. Aparentava amuo, embora seja difícil saber o que sente um animal de sangue frio. Aquele outro, o que posou para Adele outro dia tinha sido capturado, ninguém quer cruzar com tipo humano que faz das suas com os inocentes. Vale dizer que o teiú encontrado decepado, na sala de Caviúna, nunca tinha cruzado, nem com Jorge, nem com Gilceu. Quem lhe roubou a vida em flor, vai saber. A cabeça fora pendurada por um fio, sobre o lugar onde dormira a menina morta. Eis aqui um intrincado causo de policia ou de assombração ou feitiçaria. Talvez renda historia, talvez o corpinho do réptil vagasse, e descansou sobre uma possa sanguinolenta na sala, do tamanho de uma seriguela cortada ao meio.

 

O calanguinho do seu Guairacã esperou aquele sobe desce dengoso e zarpou atrás da curiosa tromba, que lhe chamou a atenção antes, quando Jorge desceu. Lá no quintal, Adele chamava, ele sabia. O pspspsps em tempo de valsa não era ofertado a um gato. Como a carita de Gilseu era um perene sorriso, o saurito manteve a compostura e foi ver se o dono do Farol ia bramir outra vez. 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guairacã 17





Longe dos livramentos

 

Chicão pisou em Campina Grande após vinte anos de ausência. Ali, tinha passado curta etapa, em trabalho de semeador. Colocar dormentes em estradas de ferro era um pouco isso. Agora, andava cansado, esquecido e esvaziado. A irmã Leticia, ao tirar-lhe o filho, causa tão nobre, levara junto o sentido de tudo. Chicão deu de confundir-se,  de chamar Janu de Giló. Quando o homem fez a tremelica de Campina para o Riacho, ainda tinha bom animo, mesmo ao deixar uma dama estirada em lapide simples, de carregar o pequeno embrulho a choramingar de fome atado ao seu peito. Difícil, difícil trajeto, que não deu saber o que seria educar um menino com aqueles olhos tão puxados e aqueles lábios sempre sôfregos, atormentados. Chicão tinha algo como que ecoando por dentro, uma usina de bem querer que não cessava, com espaço para todos os que quisessem amorosidade. Com tal alma fértil, a vida do menino Carlos tinha sido, até a puberdade, paradisíaca, livre. 

 

Vamos precisar ir ali atrás na narrativa, ver aonde deixamos a presença desse pai inscrita, o que fazia de decente no Riacho, quais suas relações, filiações, obrigações jurídicas. Como não estamos com tempo de sobra, sigamos inseguros, linha de partida nova, na fidúcia de que se encontre o tino do enredo. Sinceramente, dá a impressão de que o leitor sussurra sigamos em paz, deixemos o passado no passado, contemos o que sabemos, fofoca quem sabe, que já se faz dorida demais esta vida. 

 

Jordano esperava partir na conexão das nove horas. Estava um tanto nervoso, andava quatro passos e tornava por eles. Contava os minutos para rever Leticia. Hora de pico na estação, fim da festa do Divino. Luzinhas ainda acesas avisavam muita fé cega a embalar o povo. O pesquisador demorou um pouco para reconhecer Chicão no turbilhão de cores e bandeirinhas. Só o conseguiu por conta do atabalhoado daquele ser, que trazia um rosto abismado. Teve muita pena e uma estranha vontade de acreditar, Carlos nada tinha a ver com o episodio do aborto. Apertadas as mãos, entendidas as missões, foram os dois homens tão diferentes entre si para outro vagão, que os levaria a Recife em cerca de três horas. 

 

A lembrança de Chicão recaiu sobre o sapato de cento e cinquenta anos, um esqueleto dentro do artefato. A pergunta que o pai fez deixou Jordano embaraçado, se dava pra saber se o morto era são ou aleijado. Aquele tipo de interesse fez nascer prosa fecunda entre os dois. Chicão, era do seu feitio, acolheu Jordano como a um irmão caro. O paleontólogo sentiu a força do afeto, que duraria para depois do trajeto. A prosa fez visitar memórias de mãe, quanta atenção havia naquela relação. Sentiu saudades de coisas simples, como pão de alecrim quente, suco de meloa cantaloupe e histórias de ribeiro, que a mãe lia para ele todas as noites. Em especial, do estimulo que recebeu para correr mundo e ser feliz, sem olhar para trás. Naquele final de manhã, os novos amigos trocaram impressões sobre preservação das aguas, das terras, dos humanos, da construção de estradas a facão e foice. Os homens eram um pouco assim, facas luminosas e ferramentas de ceifar. Falaram, por fim, da falta que fazia uma companhia no leito, da falta do filho. 

 

Lá no Riacho, um pedaço de cânhamo era cuidadosamente estirado sobre um cavalete. Um martelinho tratava de prender os colchetes com esmero. O projeto a ser gestado incluía nudez, um peito quase masculino, vermelho sangue e três hábitos de freira, a cair da janela do terceiro andar. Há tempos, Adele não escutava um instrumento musical de sopro. A manhã, que começou nublada, trouxe um clarinete. A melodia chorava do telhado da pousada. Um sopro imberbe, desesperado, desafinado, queria cantar limpo, na marra. Não durou nada, o suficiente para desabafar. O luto morreu a noroeste. De passarinho, a canção até logo misturava macela e permanganato. Explico. Uma dama estivera a sangrar até morrer, este o fato. O apelo haveria de chegar ao Farol.

Trinta e cinco graus era o tom da mata, úmida, tamas[1]. Uma réstia de sol criou três  sílfides sobre a tela e Adele tratou de riscar o que o céu presenteava. Naquele momento, um monoplano passou baixo, intrometido. A artista achou de inseri-lo no contexto, ao estilo do peixe mágico de Paul Klee. O tempo, generoso, fez durar aquele sol entredentes, o suficiente para balizar o trabalho que viria. 

 

A flecha de Guairacã, por sua vez,  dorme na parede e ele ao lado do fogão. Em sonho, o velho bandeirante se embrenha pela trilha, a cata de um roncador, seta em riste, cercado por pirilampos, percevejos nas ceroulas a enlouquecer-lhe o juízo. O quase delírio, Fatima procurou domar com mingau. O homem, amornado, aceitou a tigela, acalmaria por ora as culpas. Pediu uma garrafa de rum e deu com a mão, não se amolasse a gordinha mais linda de Portugal. Fatima se riu, há muito não recebia galanteio.

 

A hora do almoço trouxe agitação no caminho para a casa de Jica Lisberta. Caviúna, a mãe da menina morta, desesperada, usou a faca de cozinha roubada contra si mesma, de maneira tão desajeitada que espirrou sangue na sala toda. A culpa é vermelho terra. Foi mais a mão que o pulso. Para consertar aquilo, teria que ser no Recife. Então começou a gritaria, que contaminou todas as vizinhas. Por conta da réstia de sol, o alarido batumou o pão, deixou queimar o feijão, Fatima desligou o fogo e o bandeirante a dormir. 

 

Palavras, milhares, águas, água, águas engastadas. Veneno. O roncador faz relato da situação aos companheiros de perímetro. Faz mal dormir demais. A réstia de sol, o calor. A verdade não estava lá, diante da capelinha onde o povo do Riacho ia rezar.

 

 

 



[1] Tipo de energia estudada pelo yoga

sábado, 2 de maio de 2026

Guairacã 16







Aguapé do iguape

 

A vida seguia seu ciclo de monção. O barulho da cachoeira era potente, obrigava janelas fechadas na pousada.  Eurico e Aurélio permaneciam hospedados, Jordano tomara o trem para Recife. Havia, na universidade, chamado de uma equipe de Geociências, para estudo hídrico. Ao pesquisador coube averiguar se o projeto contemplava os três colegas, se oferecia bolsa auxílio. Ninguém vive de brisa, quem sabe de cantoria. Pelo sim, pelo não, o paleontólogo levava consigo o sapato com o esqueleto do pé, fóssil cujo valor ele deveria defender em um seminário, caso a submissão do artigo, assinado pelos três, fosse aceita. 

 

Jordano, naquele gesto meio desarvorado da vida, quarenta anos completos há três dias, como que engoliu remédio em dilúvio. Foi assim que se sentiu quando viu a cena de Letícia e o rapaz sindrômico, a acenar do vagão. Parecia que o homem bebera todo riacho de um só gole. Não pode mais dormir direito depois disso. Tanto brilho naquela face de mulher, tanta esperança. Sozinha, sem vintém, a noviça rumava para o Recife, com um problema do tamanho do mundo nos ombros. Para todos os efeitos, ela fugia com um pretenso criminoso, assim a língua do povoado, a requerer justiça. A moça se propusera salvar aquela criatura de pouco valor em terras de ignorância. Do Recife, os dois tomariam um voo para o Rio Grande. A manobra só foi possível porque não havia queixa crime na Intendência e porque haveria o apoio de Juvenal, que poderíamos supor, pretenso rival. E quem falou, em algum momento, sobre envolvimento amoroso de alguma espécie? Ah, as platonices, a encardir os cantos escuros do mundo íntimo. 

 

Se existem enigmas, e são muitos, eles se embalam na gangorra em que nos equilibramos. A jornada é uma gangorra. Esse brinquedo é interessante, precisa de alguém do outro lado para que o movimento seja constante e agradável. De nada adianta ter valores pessoais e não os por em prática. O mesmo se dá na aquisição de  conhecimentos. O que posso argumentar sobre não sentir alegria, escreveu Jordano em sua agenda, assim que o trem chacoalhou sobre os dormentes. Se é gangorra, no máximo sinto euforia, um frio na barriga constante, cólicas. Vou, não quero, vou, desespero. Vou, sem saber se Letícia sentirá carinho por me ver.

 

Algo me faz tomar a dor dos outros, querer confiar nos outros. Algo me faz querer ter uma tarântula de dedos rosa. E isso é uma metáfora. Alegria, tenho trabalhado para fazer as pazes com tal emoção. Só entendo beleza espiritual através da Música, de um dedo dela, já que tem oito, peludinhos. De alguma maneira, argumento algum eu posso sustentar, não quero ilusões. Nesse instante de silêncio ritmado, a esperança me acolhe. Ao menos como amigo, mais um apoiador, Leticia há de acolher. Depois, é depois. 

 

No instante em que falha a escuta, a alegria é silêncio. Silêncio está longe de ser triste, soturno. Silêncio é a grande benção, o mesmo que fez  São José escutar o Guia e olhar por Maria de Nazaré. Desde quando minha religiosidade acordou?  Nasceu a mais linda família da Terra, por conta da escuta. Sou Jordano, não José.

 

Irradiar bom ânimo tem sido exercício diário e aqui eu aplico força pessoal, regozijo. Dou graças, por ter irradiado antes de aprender a irradiar. Irradio porque faz parte dos denodos amealhados em tantas jornadas. Tem sido como recuperar elos perdidos. Mesmo que eu, por capricho, desejasse sombra e água fresca, trabalho, cavoucando. E se as palavras escutadas, cantadas, ditas, escritas, lidas, entram no âmbito da cavoucação, eis uma tarefa cujo apreço, para mim, não tem preço. 

 

Cheguei, pela voz, ao limiar da sublimação. Interessante é que não me conhecem como cantor, poeta, proseador, mas pesquisador das águas. É mais do que qualquer opala que eu tivesse nas mãos um dia (não sei o valor dessa pedra), ou qualquer diadema de enfeitar cabelos principescos, qualquer fóssil. Se, através da palavra, eu posso saber de mim, encontrei o mapa do tesouro que procurava. 

 

O grande projeto, no momento, é que o interlocutor dialogue comigo, escute meus pontos, ponha os seus e, juntos, façamos amor com o conteúdo arrepanhado em um veio fluvial. Lamento, pelos homens que se fazem carrascos tranquilos, ao empunhar a palavra. 

 

Quanto tempo havia passado para nossa Jica Lisberta? Difícil precisar. Sabia-se que o Riacho já estava bem constituído, que a intendência pusera saibro no caminho para a casa de sapé onde morava na ocasião, que seus pais se foram muito cedo e que ela ficou por conta. Não demorou muito para seu Guairacã oferecer-lhe o posto de camareira na pousada. Um sutil burburinho correu pelos arredores, que se amancebariam. Fato consumado é que o bandeirante a queria como filha e foi pai exemplar, exigente e bom. Como o lugar, tão retirado, não exigia documentos ou papéis, ficou a moça sem registro, a receber soldo religiosamente nos dias quinze e trinta, a cada mês. Livro contábil o velho possuía e estava lá, anotado, o primeiro quinze em que a pagou, um brilhantinho que ela transformou em letras de câmbio, auxiliada pelo intendente. O negócio permitiu que a mocinha, algum tempo depois, adquirisse a casa onde agora habitavam a Fátima, Juanita e Magda. Assim, assessorada por dois senhores decentes, Jica Lisberta era rica e não sabia. Que permanecesse desse jeito, simples, coração puro. Quando o momento exigisse, lhe davam o documento de identidade, a escritura e os rendimentos. Enquanto isso, ela passava por uma senhora xucra e trabalhadeira. Só quem se aproximava dela sabia do Espirito decente albergado naquele pequeno universo. 

 

Sim, queridos companheiros de leitura, a Jica Lisberta tinha coração puro. A cada manhã, quando Jordano Guerra adentrava sua cozinha, com ou sem violão, era como se as estrelas do céu lhe cantassem, em coro, chegou o teu homem. Tímida, olhar baixo, não deixava que o outro lhe flagrasse as cintilações e as congas a bailar a salsa no peito. Com um carinho maternal, a senhora punha diante do paleontólogo um bule de porcelana enfeitado com flores de São Miguel, leite de cabra muito rico, o pão de milho recém saído do forno a lenha, a manteiga batida à mão. Enquanto ele ia dizendo qualquer bom dia ou um agrado sobre o clima, os passarinhos, a cachoeira, ela passava o café, iguaria que todos, na pousada e região, muito apreciavam. Sem dizer palavra, Jica ia sentindo aquela malta de índios a defender suas mulheres e crianças por dentro e pensava que assim viveria, até o último suspiro. Não era falta de coragem ou pudor da parte dela, era consciência de que, entre os dois existia o deserto, que o rio evaporara e fora se mostrar mais ao sul. Jordano nunca tinha dado mostras de encontrar nela algo mais que a faz tudo do seu Guairacã. Mostrava respeito, e era isso. 

 

Foi Fátima, a lisboeta, em uma conversa de fim de tarde, a sovar o pão, quem flagrou o sentimento da outra a solidificar-se. Assim, platônico, poderia perdurar por toda jornada. Porém, escapava a alegria do convívio, em especial os dias mais frios, em que a cama compartilhada é boa. Amor assim, guardado, era bom para poetas, e Jica escrevia mais quatro ou cinco palavras além do apelido. A prosa teve inicio quando Fátima perguntou de onde viera o Jica Lisberta. O pai lhe chamava desse jeito, um som que fazia rir o bebê, contavam as vizinhas. Um dia ele foi embora, deixando a menina em companhia da mãe muito doente. E foi dessa mãe, no último suspiro, que veio a absolvição tu estás lisberta, livre daquele sofrimento de cuidar de uma tísica.  Para não virar dedo em ferida, Fátima cantarolou algo que duetara com Jordano dois dias antes. Então Jica se atreveu a perguntar se a nova amiga tinha interesse no violonista. Fátima sorriu de orelha a orelha e contou dos seus mortos, o José, com quem vivera a mais linda história de carinho e o poeta dos obituários, uma tentativa de consolo na viuvez. A conversa não pode se estender por conta do velho Guairacã, que meteu seu nariz na porta, a perguntar se a janta saia, satisfeito com aquelas duas mulheres de boa prosa, fogão e companhia. 

 

Jordano Guerra, quanto mais perto da estação, mais desconfortável se sentia. Não havia percebido o quanto o Riacho enraizara nele ou o contrário. Naquele rincão, água a lavar toda mazela, lerdeza, distração, o homem encontrou sossego, desses que se dá a quem morre. É certo, sua profissão permitiria ao lugar viver mais tempo. Ele, mais os companheiros, poderia estudar as águas, o solo e proteger aquele biossistema com seu conhecimento, técnica e senso moral. Foi isso o que pôs, em palavras breves, no telegrama que enviou à intendência, da Estação Campina Grande, para que chegasse às mãos de Aurélio. Que lutaria por suporte na preservação e manutenção da pureza daquele sítio. A botina, o pé, uma metáfora da tese. 

 

Foi desse jeito insólito que o coração de Jordano se acalmou, ainda em trânsito. Letícia apareceu, em seu sono acalentado a dormentes, como anjo instrutor. Ela pedia que o pai de Carlos viesse até eles. Ainda teriam vinte e quatro horas antes do voo para o Rio Grande. Havia acentos disponíveis. Jordano pôs o pé na estrada e acionou alguns contatos, a popularidade dele permitia tais voos, mesmo sem a bolsa de pesquisa. Não demorou muito e um helicóptero desceu em um descampado próximo ao Riacho. Lá estavam Aurélio, Eurico e Chicão. 

 

Embora a presença de invasores perigosos, jacintos d’água a cobrir lagunas, temos confiança no manancial das histórias e seus entrelaçamentos. Nas migrações de circunstâncias. Em alguns instantes se encharcam as ideias, viram pasta no berço arqueológico. Então o sol brilha. E torna a escurecer. O medo nos alcança, de não podermos acessar as provas que atestariam a vida liberta, a Jica a esperar no iguape, Fatima no aguapé, Leticia no mururé, a menina morta no pavoá. A rainha-do-lago resolveu dar guarida a todos os seres, do Riacho até o Rio Grande. 

 

De última hora, pusemos seu Chicão, pai de Carlos, a ver nuvens que se podia tocar com a mão. Aparvalhado, aliviado, um cordão prateado o levava até seu filho. Chicão sabia que ainda haveria algum tempo para a cessação da dor de Caviúna, a mãe da morta. Dela entender que Carlos fora amigo fiel, até o fim. Se haveria perdão e libertação, difícil saber. Um pouco de espaço talvez pudesse clarear as almas envolvidas. E assim, com toda a vontade de resolver questões, sabemos que é bom, em alguns momentos, perder o controle, entregar a pena e esperar. Mês que vem, retornaremos. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guairacã 15



                                    Amaralina - BA


15  Um pescador tem dois amor

 

Quem se arriscaria, sem planos, sem corpo estrutural, personagens aqui e ali, um chefe de excursão radicado, um crime duplo, três freiras sem hábito, um gerente de pousada marcado pelas horas, portador da chave do vilarejo. Uma cachoeira, um réptil milenar  sob um vaso na sala, um saco de diamantes protegido por flecha envenenada. Literatura de cordel fechada em uma cristaleira, um lenço de vidrilhos, a mãe e uma faca de cozinha a fatiar o pernil, um féretro. 

 

Onde a Jica Lisberta batia os lençóis, Adele se arriscou. A artista instalou o cânhamo muito bem esticado, sobre tabuinhas envernizadas, escolheu paleta forte, primária e pintou um aborto violento, qual lisianto que brota numa enchente. Um radinho de pilha, pura chiadeira, tocava História de pescadores[1] completo. 

 

Em que contexto o senhor Dorival Caymmi teria versado um pescador tem dois amor. Gente, de todas as galáxias, até os que gritam nos desmanches de automóveis, os que dormem após a farra e todos, até quem matou, na madrugada, truculentamente, ou espancou seu filho adolescente ou correu atrás de um Espírito munido de um porrete, estando a dormir. Toda gente pergunta: em que contexto, cantor do mar, tu, que não foste espartano, escreveste um pescador tem dois amor. Eu penso na moira, anotava Aurélio muito agitado, ela a dividir o único olho, diante da roca, diante do mar. Eu penso na águia que refaz seu bico aos poucos, mas essa é outra arenga, resmungava Eurico, sentado à soleira da cozinha. A agulha me espeta o dedo, eu que sigo varada, a cerzir meias invisíveis, inventariava Fátima, a lisboeta, a ler um conto de Hugo Mãe[2].  Em que contexto o senhor Caymmi teria cantado os trabalhadores do mar, além do mar, além daquele horizonte gris que meus olhos não podem alcançar. Fatima atravessou o oceano, sentia saudades de Helena, de Matilde. Ah, Gattai[3], por que eu te convocaria para tais areias, perguntava de si para si Jordano, incomodado com tamanha estática e com a janela do quarto emperrada. Pior, por qual universo andará o senhor Caymmi, que eu não posso escutar? E Nana, o seu canto triste? Danilo, seu silvo bom? Dory e toda solidão? E a família das águas? De marés que enchem, que vazam e eu ali, a enovelar o fio sempre embaraçoso? Eu não sou ninguém, homem comum, qualquer um... no mar tem areia, sou grão. Guairacã se balançava em sua cadeira próxima ao fogão e murmurava, tonto de velhice. Eu penso, para não parar de o fazer, eu escrevo o menino que foi visitar o pai preso político por entre os arames, arames como os de conter galinhas de quintal. Assim olhava o sol com a mão em concha o Jorge Inocente, Farol do Cabo Branco.  E me vem mais uma história, daquele andarilho de histórias que queria porque queria subir a cinco mil metros o Himalaia, não teve autorização, teimou, subiu um tanto, perdeu os dedos de pés bonitos, pôs em risco a própria vida e a vida da equipe de filmagem. Assim tagarelava o dono do catajeca ao amigo carpinteiro, coçava a cabeça do Repolhinho e encolhia os ombros, entre uma fungada e outra. 

 

Ah, senhor Caymmi, o senhor Galeano[4], a senhora Wierzchowski[5] sabem como cantar. É o mar, é o mar, é o mar. Queria eu não parar de contar, sorriu Juanita, dando adeus a Letícia e a Carlito na estação do trem. 

 

Eu bem que queria, senhoras e senhores leitores, ter mais flagrantes, convivências de jornada. Letícia me vem, de nuvem pensamento, ilumina meu claustro. Eu, que de inocente nada trago, mas não é minha esta narrativa, nem eu deveria estar aqui. A mais quieta das meninas freiras, quase não se ouviam as matinas por sua voz. Quando cantava, belo fio, teia de tarântula de dedos rosa, a prece multiplicava mata adentro, certeza de bons serviços. Ninguém se interessou em informar arquidiocese alguma, sobre o paradeiro de três jovens sem hábito, sem rosário e da família dessas aranhas acima citadas. Como já esboçamos nos começos desse relato, Letícia andou pela ala psiquiátrica de um hospital. E foi ali que conheceu aquele homem belo. Ele repousava na maca, mais magro que vara pau, vítima de excesso de pílulas para dormir e mais alguma coisa que não apareceu no hemograma. 

 

Juvenal sofria tanto em sua docência, os colegas não entendiam por que ele não ia ser contador de histórias, seu mérito. Em segundos, o professor de literatura comparada armava as mais lindas imagens do Rio Grande virgem, de sua cidade natal, um tempo já distante, de rondas redondas e quartos de ronda, imagens de povo, imagens de nação Pampiano. Juvenal tivera a chance de falar com Veríssimo pai tantas vezes em sonho. Não podia, contudo, deixar vir à tona tal experiência, a família lhe andava ao encalço, temia um louco em suas fileiras, já que todos eram isso e sequer suspeitavam. Então Juvenal sofria calado. E quando Oliveira Flores cruzou seu caminho, o calvário se fez Guaíba a encher sem parar. Até que, numa manhã, o professor Gaudêncio o encontrou em prantos, agachado no banheiro do primeiro andar da Faculdade de Letras. Era um jovem professor de gramática latina, amante das línguas mortas. Desse encontro nasceu um relacionamento notável, afivelado e normativo.

 

Leticia e Carlito se aprumaram no vagão de passageiros muito simples, com bancos de madeira, um a amparar o outro sem o saber. O rapaz olhava a janela, vez ou outra, desesperançado. Não tinha compreensão dos fatos que o separariam do pai por dois longos anos. Não entendeu por que sumiu sua companheira de banho de cachoeira, tão de repente. Não entendeu por que aquela mulher loura, de olhos esbugalhados, correu atrás dele aos gritos, ameaçando lhe cortar a genitália. Que confusão aquela, que bom ir embora para longe da assombração que entraria nos seus sonhos, Carlito o soube logo. A moça ao seu lado no vagão era doce, murmurava uma arenga sem parar que hipnotizava. Com esta menina não haveria banhos nem beijos roubados. O rezo lhe trazia alguma calma e permitia cochilar, até a faca brilhar novamente. Carlito nunca havia saído do Riacho. Para Letícia, um brilho majestoso no olhar. A freira tinha, enfim, autorização para cumprir missão. 

 

Eu perco o chão

Esvaziam-se as palavras

O filho vai, o trilho

A faca, a louca, a luz

 



[1] Do álbum Caymmi e o Mar, 1957

[2] Referência ao escritor Valter Hugo Mãe

[3] Referência à escritora Zélia Gattai

[4] Referência ao escritor Eduardo Galeano

[5] Referência à escritora Letícia Wierzchowski