Paraíba-BR
Clarissas
Guairacã tombou no cadeirão ao lado do fogo. Dizemos tombou, posto que sentiu um rumor de mil anos em seu coração. Fátima chegava naquele instante à cozinha e pode acudir. Para ela, foi dar à luz José, dileto marido morto. Soprou a boca do velho com tal destreza que ele logo se recompôs e confessou nunca fora beijado daquele jeito e que era isso que lhe faltava, um instante. O jaleco azul deu à senhora o distanciamento de que necessitava para olhar o entorno, o quintal. Fátima pediu licença e foi repousar perto do poço, onde a Jica Lisberta plantava lírios d’água. Uma deu com os olhos da outra. Era pura sintonia, ambas amparadas por mães invisíveis que as livravam de poucas e boas nessas curvas de aquífero.
Fátima foi logo abrindo o peito, segredou seu poder de cuidar e que ressuscitara o velho porque era natural o fazer. Pediu ajuda a Jica, para que o bandeirante não confundisse caridade com outro sentir. Jica Lisberta foi logo dizendo eita Fatima, que nosso veinho é purtigido de Ogum, saberá si fortalicê. Ambas, pasmadas de pura ternura, olharam Adele, que entrou nesse momento por detrás da cortina plástica, pendurou a túnica para o lado de fora, acionou a bica e tiritou. Por um vão, as mulheres olharam a magreza da moça e ruminaram, as duas, qual poção lhe administrar, que não ferisse a melancolia porém, devolvesse um grau de calor àquela alma de artista.
Aurélio apareceu na porta da cozinha, olheiras fundas. Sem cerimônia, perguntou se não lhe arrumavam alguma beberagem de dormir, sentia-se precisado. Fátima foi atender. Hortelã e abacaxi aninhariam qualquer ruminação. O mesmo fortificante, com uma rama de anis estrelado, a senhora lisboeta ofereceu a Guairacã que agradeceu, de humor leve. O velho bandeirante tomou dois goles e mergulhou em seu berçário de narval. Já Aurélio teve que dar com uma Adele de túnica colada ao corpo, cabelo pingando, parada à entrada da cozinha, onde o sol refletia sua nudez. Lembrava uma estatueta de jade da deusa Kuan Yin[1]. Ali ela ficou, tocada pelo calor do fogo. De cócoras, aceitou um naco de pão com gergelim que Fátima lhe estendeu sem palavras. Para a pintora, o licor de jenipapo seria mais acertado que hortelã. Com a desculpa de que o velho Guairacã dormia, ninguém falou. Aurélio aceitou um pedaço de bolo de fubá. Lá do poço, se escutava a doce voz de Jica Lisberta a evocar Nzambi[2]. Aurélio levantou-se, quase sem ser notado. Subiu cada degrau como se fossem vinte. Esperava. Logo, Adele quedou-se ao lado e lhe pegou a mão. E foram, os dois, até o mirante. Ninguém fique pensando mirabolices, que para tudo há tempo certo, também necessidade de autorização alfandegária. Ao entrarem no aposento, Adele o convidou ao leito e pediu, deito-me nua sobre ti e tu dormes, está bem assim? E foi isso, um fio de água a escorrer pelo pescoço, um quase nada de peso, um frescor, que os uniu nesse primeiro contato físico, duas horas de sono profundo e uma afeição para sempre.
Juanita, depois de uma noite e meio dia na cascata, tomada por profundo silêncio, retornou à Pousada como se voasse. Também ela foi à cozinha. Fátima, que desfiava o bacalhau, pensou camomila. A noviça aceitou algum bago de uva como acompanhamento. Uma réstia de sol brandia o coração do velho Guairacã, que ressonava a miúdas. Não se tratava de embaraço, era tão íntimo que Fátima, cúmplice no olhar da freira, saudosa daquela bela Helena que deixou em Lisboa, convidou a moça para o quintal, já que vinha chegando a Jica com as couves, as cebolas, os pimentões, os ovos e seguiria com a feitura da refeição. Aquele entra e sai dava mesmo um valsado, pensou o patrão a sorrir. Jica lhe sondou, estava bem o velhaco.
A jovem religiosa falou do filho morto. Fátima escutou e sentiu falta imensa dos gatos... sabia que a enfermeira Matilde cuidaria, mas eles logo achariam outros telhados... a escutatória floriu. Lá pelas tantas, aquela revelação da Clarissa de Francisco. Fátima foi sincera. Do que via naquela herdade, cada um tinha seu Jesus, sua Maria e seu José, confundidos a Lampião e Maria Bonita. Não parecia que precisassem de capela ou convento. Que a moça tivesse mais apreço pelos contatos que fazia. Sentisse o cantar da cachoeira, por ele só, sem Oxum, Santa Bárbara, sem fantasmas de nascituros ou conquistadores de barranca. Juanita precisava tomar a vida com as próprias mãos, isso sim. Não era questão de largar as irmãs ou a crença, mas cada uma achar seu plano de voo. Os rezos eram, mesmo, bem bonitos, serviam de unguento. Que elas seguissem a rezar. Que Juanita cuidasse, sobretudo, dos momentos de cair de joelhos. Atentasse, com quem é que falava, se santo ou sujeito à toa. De certa forma, os dois lhe privavam da própria luz, guardada sob o velador. Juanita foi ficando cada vez mais pálida enquanto era sabatinada. Quis assim, tomou. Fátima até pensou vai me execrar, ora pois... a freira, contudo, abriu largo sorriso, como se lhe desatassem o espartilho.
Letícia e Magda puseram as caritas na janela, ainda com as cabeças descobertas de dormir. Juanita, delicada, decidida, desceu com cuidado o véu do hábito. Os cabelos, aparados até o couro, revelaram-se louros. Não se fez de rogada. Desamarrou com vagar o cordão da cintura. Ainda havia a roupa branca de baixo. Juanita parou. As meninas, lá de cima, parceiras, jogaram os tecidos cinza, os cordões, a roupa branca, em profunda reverência. As peças vieram assentar, comportadas, na tina de lavar. Quem gostaria de pintar aquele quadro seria a Adele.
Suave, bate o coração
Mesmo verso amarfanhado
Vou te guardar nesta canção
Feito cravo desfolhado
Dorme, bom amigo
Que o novo dia já vem