sábado, 2 de maio de 2026

Guairaca 16







Aguapé do iguape

 

A vida seguia seu ciclo de monção. O barulho da cachoeira era potente, obrigava janelas fechadas na pousada.  Eurico e Aurélio permaneciam hospedados, Jordano tomara o trem para Recife. Havia, na universidade, chamado de uma equipe de Geociências, para estudo hídrico. Ao pesquisador coube averiguar se o projeto contemplava os três colegas, se oferecia bolsa auxílio. Ninguém vive de brisa, quem sabe de cantoria. Pelo sim, pelo não, o paleontólogo levava consigo o sapato com o esqueleto do pé, fóssil cujo valor ele deveria defender em um seminário, caso a submissão do artigo, assinado pelos três, fosse aceita. 

 

Jordano, naquele gesto meio desarvorado da vida, quarenta anos completos há três dias, como que engoliu remédio em dilúvio. Foi assim que se sentiu quando viu a cena de Letícia e o rapaz sindrômico, a acenar do vagão. Parecia que o homem bebera todo riacho de um só gole. Não pode mais dormir direito depois disso. Tanto brilho naquela face de mulher, tanta esperança. Sozinha, sem vintém, a noviça rumava para o Recife, com um problema do tamanho do mundo nos ombros. Para todos os efeitos, ela fugia com um pretenso criminoso, assim a língua do povoado, a requerer justiça. A moça se propusera salvar aquela criatura de pouco valor em terras de ignorância. Do Recife, os dois tomariam um voo para o Rio Grande. A manobra só foi possível porque não havia queixa crime na Intendência e porque haveria o apoio de Juvenal, que poderíamos supor, pretenso rival. E quem falou, em algum momento, sobre envolvimento amoroso de alguma espécie? Ah, as platonices, a encardir os cantos escuros do mundo íntimo. 

 

Se existem enigmas, e são muitos, eles se embalam na gangorra em que nos equilibramos. A jornada é uma gangorra. Esse brinquedo é interessante, precisa de alguém do outro lado para que o movimento seja constante e agradável. De nada adianta ter valores pessoais e não os por em prática. O mesmo se dá na aquisição de  conhecimentos. O que posso argumentar sobre não sentir alegria, escreveu Jordano em sua agenda, assim que o trem chacoalhou sobre os dormentes. Se é gangorra, no máximo sinto euforia, um frio na barriga constante, cólicas. Vou, não quero, vou, desespero. Vou, sem saber se Letícia sentirá carinho por me ver.

 

Algo me faz tomar a dor dos outros, querer confiar nos outros. Algo me faz querer ter uma tarântula de dedos rosa. E isso é uma metáfora. Alegria, tenho trabalhado para fazer as pazes com tal emoção. Só entendo beleza espiritual através da Música, de um dedo dela, já que tem oito, peludinhos. De alguma maneira, argumento algum eu posso sustentar, não quero ilusões. Nesse instante de silêncio ritmado, a esperança me acolhe. Ao menos como amigo, mais um apoiador, Leticia há de acolher. Depois, é depois. 

 

No instante em que falha a escuta, a alegria é silêncio. Silêncio está longe de ser triste, soturno. Silêncio é a grande benção, o mesmo que fez  São José escutar o Guia e olhar por Maria de Nazaré. Desde quando minha religiosidade acordou?  Nasceu a mais linda família da Terra, por conta da escuta. Sou Jordano, não José.

 

Irradiar bom ânimo tem sido exercício diário e aqui eu aplico força pessoal, regozijo. Dou graças, por ter irradiado antes de aprender a irradiar. Irradio porque faz parte dos denodos amealhados em tantas jornadas. Tem sido como recuperar elos perdidos. Mesmo que eu, por capricho, desejasse sombra e água fresca, trabalho, cavoucando. E se as palavras escutadas, cantadas, ditas, escritas, lidas, entram no âmbito da cavoucação, eis uma tarefa cujo apreço, para mim, não tem preço. 

 

Cheguei, pela voz, ao limiar da sublimação. Interessante é que não me conhecem como cantor, poeta, proseador, mas pesquisador das águas. É mais do que qualquer opala que eu tivesse nas mãos um dia (não sei o valor dessa pedra), ou qualquer diadema de enfeitar cabelos principescos, qualquer fóssil. Se, através da palavra, eu posso saber de mim, encontrei o mapa do tesouro que procurava. 

 

O grande projeto, no momento, é que o interlocutor dialogue comigo, escute meus pontos, ponha os seus e, juntos, façamos amor com o conteúdo arrepanhado em um veio fluvial. Lamento, pelos homens que se fazem carrascos tranquilos, ao empunhar a palavra. 

 

Quanto tempo havia passado para nossa Jica Lisberta? Difícil precisar. Sabia-se que o Riacho já estava bem constituído, que a intendência pusera saibro no caminho para a casa de sapé onde morava na ocasião, que seus pais se foram muito cedo e que ela ficou por conta. Não demorou muito para seu Guairacã oferecer-lhe o posto de camareira na pousada. Um sutil burburinho correu pelos arredores, que se amancebariam. Fato consumado é que o bandeirante a queria como filha e foi pai exemplar, exigente e bom. Como o lugar, tão retirado, não exigia documentos ou papéis, ficou a moça sem registro, a receber soldo religiosamente nos dias quinze e trinta, a cada mês. Livro contábil o velho possuía e estava lá, anotado, o primeiro quinze em que a pagou, um brilhantinho que ela transformou em letras de câmbio, auxiliada pelo intendente. O negócio permitiu que a mocinha, algum tempo depois, adquirisse a casa onde agora habitavam a Fátima, Juanita e Magda. Assim, assessorada por dois senhores decentes, Jica Lisberta era rica e não sabia. Que permanecesse desse jeito, simples, coração puro. Quando o momento exigisse, lhe davam o documento de identidade, a escritura e os rendimentos. Enquanto isso, ela passava por uma senhora xucra e trabalhadeira. Só quem se aproximava dela sabia do Espirito decente albergado naquele pequeno universo. 

 

Sim, queridos companheiros de leitura, a Jica Lisberta tinha coração puro. A cada manhã, quando Jordano Guerra adentrava sua cozinha, com ou sem violão, era como se as estrelas do céu lhe cantassem, em coro, chegou o teu homem. Tímida, olhar baixo, não deixava que o outro lhe flagrasse as cintilações e as congas a bailar a salsa no peito. Com um carinho maternal, a senhora punha diante do paleontólogo um bule de porcelana enfeitado com flores de São Miguel, leite de cabra muito rico, o pão de milho recém saído do forno a lenha, a manteiga batida à mão. Enquanto ele ia dizendo qualquer bom dia ou um agrado sobre o clima, os passarinhos, a cachoeira, ela passava o café, iguaria que todos, na pousada e região, muito apreciavam. Sem dizer palavra, Jica ia sentindo aquela malta de índios a defender suas mulheres e crianças por dentro e pensava que assim viveria, até o último suspiro. Não era falta de coragem ou pudor da parte dela, era consciência de que, entre os dois existia o deserto, que o rio evaporara e fora se mostrar mais ao sul. Jordano nunca tinha dado mostras de encontrar nela algo mais que a faz tudo do seu Guairacã. Mostrava respeito, e era isso. 

 

Foi Fátima, a lisboeta, em uma conversa de fim de tarde, a sovar o pão, quem flagrou o sentimento da outra a solidificar-se. Assim, platônico, poderia perdurar por toda jornada. Porém, escapava a alegria do convívio, em especial os dias mais frios, em que a cama compartilhada é boa. Amor assim, guardado, era bom para poetas, e Jica escrevia mais quatro ou cinco palavras além do apelido. A prosa teve inicio quando Fátima perguntou de onde viera o Jica Lisberta. O pai lhe chamava desse jeito, um som que fazia rir o bebê, contavam as vizinhas. Um dia ele foi embora, deixando a menina em companhia da mãe muito doente. E foi dessa mãe, no último suspiro, que veio a absolvição tu estás lisberta, livre daquele sofrimento de cuidar de uma tísica.  Para não virar dedo em ferida, Fátima cantarolou algo que duetara com Jordano dois dias antes. Então Jica se atreveu a perguntar se a nova amiga tinha interesse no violonista. Fátima sorriu de orelha a orelha e contou dos seus mortos, o José, com quem vivera a mais linda história de carinho e o poeta dos obituários, uma tentativa de consolo na viuvez. A conversa não pode se estender por conta do velho Guairacã, que meteu seu nariz na porta, a perguntar se a janta saia, satisfeito com aquelas duas mulheres de boa prosa, fogão e companhia. 

 

Jordano Guerra, quanto mais perto da estação, mais desconfortável se sentia. Não havia percebido o quanto o Riacho enraizara nele ou o contrário. Naquele rincão, água a lavar toda mazela, lerdeza, distração, o homem encontrou sossego, desses que se dá a quem morre. É certo, sua profissão permitiria ao lugar viver mais tempo. Ele, mais os companheiros, poderia estudar as águas, o solo e proteger aquele biossistema com seu conhecimento, técnica e senso moral. Foi isso o que pôs, em palavras breves, no telegrama que enviou à intendência, da Estação Campina Grande, para que chegasse às mãos de Aurélio. Que lutaria por suporte na preservação e manutenção da pureza daquele sítio. A botina, o pé, uma metáfora da tese. 

 

Foi desse jeito insólito que o coração de Jordano se acalmou, ainda em trânsito. Letícia apareceu, em seu sono acalentado a dormentes, como anjo instrutor. Ela pedia que o pai de Carlos viesse até eles. Ainda teriam vinte e quatro horas antes do voo para o Rio Grande. Havia acentos disponíveis. Jordano pôs o pé na estrada e acionou alguns contatos, a popularidade dele permitia tais voos, mesmo sem a bolsa de pesquisa. Não demorou muito e um helicóptero desceu em um descampado próximo ao Riacho. Lá estavam Aurélio, Eurico e Chicão. 

 

Embora a presença de invasores perigosos, jacintos d’água a cobrir lagunas, temos confiança no manancial das histórias e seus entrelaçamentos. Nas migrações de circunstâncias. Em alguns instantes se encharcam as ideias, viram pasta no berço arqueológico. Então o sol brilha. E torna a escurecer. O medo nos alcança, de não podermos acessar as provas que atestariam a vida liberta, a Jica a esperar no iguape, Fatima no aguapé, Leticia no mururé, a menina morta no pavoá. A rainha-do-lago resolveu dar guarida a todos os seres, do Riacho até o Rio Grande. 

 

De última hora, pusemos seu Chicão, pai de Carlos, a ver nuvens que se podia tocar com a mão. Aparvalhado, aliviado, um cordão prateado o levava até seu filho. Chicão sabia que ainda haveria algum tempo para a cessação da dor de Caviúna, a mãe da morta. Dela entender que Carlos fora amigo fiel, até o fim. Se haveria perdão e libertação, difícil saber. Um pouco de espaço talvez pudesse clarear as almas envolvidas. E assim, com toda a vontade de resolver questões, sabemos que é bom, em alguns momentos, perder o controle, entregar a pena e esperar. Mês que vem, retornaremos. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guairacã 15



                                    Amaralina - BA


15  Um pescador tem dois amor

 

Quem se arriscaria, sem planos, sem corpo estrutural, personagens aqui e ali, um chefe de excursão radicado, um crime duplo, três freiras sem hábito, um gerente de pousada marcado pelas horas, portador da chave do vilarejo. Uma cachoeira, um réptil milenar  sob um vaso na sala, um saco de diamantes protegido por flecha envenenada. Literatura de cordel fechada em uma cristaleira, um lenço de vidrilhos, a mãe e uma faca de cozinha a fatiar o pernil, um féretro. 

 

Onde a Jica Lisberta batia os lençóis, Adele se arriscou. A artista instalou o cânhamo muito bem esticado, sobre tabuinhas envernizadas, escolheu paleta forte, primária e pintou um aborto violento, qual lisianto que brota numa enchente. Um radinho de pilha, pura chiadeira, tocava História de pescadores[1] completo. 

 

Em que contexto o senhor Dorival Caymmi teria versado um pescador tem dois amor. Gente, de todas as galáxias, até os que gritam nos desmanches de automóveis, os que dormem após a farra e todos, até quem matou, na madrugada, truculentamente, ou espancou seu filho adolescente ou correu atrás de um Espírito munido de um porrete, estando a dormir. Toda gente pergunta: em que contexto, cantor do mar, tu, que não foste espartano, escreveste um pescador tem dois amor. Eu penso na moira, anotava Aurélio muito agitado, ela a dividir o único olho, diante da roca, diante do mar. Eu penso na águia que refaz seu bico aos poucos, mas essa é outra arenga, resmungava Eurico, sentado à soleira da cozinha. A agulha me espeta o dedo, eu que sigo varada, a cerzir meias invisíveis, inventariava Fátima, a lisboeta, a ler um conto de Hugo Mãe[2].  Em que contexto o senhor Caymmi teria cantado os trabalhadores do mar, além do mar, além daquele horizonte gris que meus olhos não podem alcançar. Fatima atravessou o oceano, sentia saudades de Helena, de Matilde. Ah, Gattai[3], por que eu te convocaria para tais areias, perguntava de si para si Jordano, incomodado com tamanha estática e com a janela do quarto emperrada. Pior, por qual universo andará o senhor Caymmi, que eu não posso escutar? E Nana, o seu canto triste? Danilo, seu silvo bom? Dory e toda solidão? E a família das águas? De marés que enchem, que vazam e eu ali, a enovelar o fio sempre embaraçoso? Eu não sou ninguém, homem comum, qualquer um... no mar tem areia, sou grão. Guairacã se balançava em sua cadeira próxima ao fogão e murmurava, tonto de velhice. Eu penso, para não parar de o fazer, eu escrevo o menino que foi visitar o pai preso político por entre os arames, arames como os de conter galinhas de quintal. Assim olhava o sol com a mão em concha o Jorge Inocente, Farol do Cabo Branco.  E me vem mais uma história, daquele andarilho de histórias que queria porque queria subir a cinco mil metros o Himalaia, não teve autorização, teimou, subiu um tanto, perdeu os dedos de pés bonitos, pôs em risco a própria vida e a vida da equipe de filmagem. Assim tagarelava o dono do catajeca ao amigo carpinteiro, coçava a cabeça do Repolhinho e encolhia os ombros, entre uma fungada e outra. 

 

Ah, senhor Caymmi, o senhor Galeano[4], a senhora Wierzchowski[5] sabem como cantar. É o mar, é o mar, é o mar. Queria eu não parar de contar, sorriu Juanita, dando adeus a Letícia e a Carlito na estação do trem. 

 

Eu bem que queria, senhoras e senhores leitores, ter mais flagrantes, convivências de jornada. Letícia me vem, de nuvem pensamento, ilumina meu claustro. Eu, que de inocente nada trago, mas não é minha esta narrativa, nem eu deveria estar aqui. A mais quieta das meninas freiras, quase não se ouviam as matinas por sua voz. Quando cantava, belo fio, teia de tarântula de dedos rosa, a prece multiplicava mata adentro, certeza de bons serviços. Ninguém se interessou em informar arquidiocese alguma, sobre o paradeiro de três jovens sem hábito, sem rosário e da família dessas aranhas acima citadas. Como já esboçamos nos começos desse relato, Letícia andou pela ala psiquiátrica de um hospital. E foi ali que conheceu aquele homem belo. Ele repousava na maca, mais magro que vara pau, vítima de excesso de pílulas para dormir e mais alguma coisa que não apareceu no hemograma. 

 

Juvenal sofria tanto em sua docência, os colegas não entendiam por que ele não ia ser contador de histórias, seu mérito. Em segundos, o professor de literatura comparada armava as mais lindas imagens do Rio Grande virgem, de sua cidade natal, um tempo já distante, de rondas redondas e quartos de ronda, imagens de povo, imagens de nação Pampiano. Juvenal tivera a chance de falar com Veríssimo pai tantas vezes em sonho. Não podia, contudo, deixar vir à tona tal experiência, a família lhe andava ao encalço, temia um louco em suas fileiras, já que todos eram isso e sequer suspeitavam. Então Juvenal sofria calado. E quando Oliveira Flores cruzou seu caminho, o calvário se fez Guaíba a encher sem parar. Até que, numa manhã, o professor Gaudêncio o encontrou em prantos, agachado no banheiro do primeiro andar da Faculdade de Letras. Era um jovem professor de gramática latina, amante das línguas mortas. Desse encontro nasceu um relacionamento notável, afivelado e normativo.

 

Leticia e Carlito se aprumaram no vagão de passageiros muito simples, com bancos de madeira, um a amparar o outro sem o saber. O rapaz olhava a janela, vez ou outra, desesperançado. Não tinha compreensão dos fatos que o separariam do pai por dois longos anos. Não entendeu por que sumiu sua companheira de banho de cachoeira, tão de repente. Não entendeu por que aquela mulher loura, de olhos esbugalhados, correu atrás dele aos gritos, ameaçando lhe cortar a genitália. Que confusão aquela, que bom ir embora para longe da assombração que entraria nos seus sonhos, Carlito o soube logo. A moça ao seu lado no vagão era doce, murmurava uma arenga sem parar que hipnotizava. Com esta menina não haveria banhos nem beijos roubados. O rezo lhe trazia alguma calma e permitia cochilar, até a faca brilhar novamente. Carlito nunca havia saído do Riacho. Para Letícia, um brilho majestoso no olhar. A freira tinha, enfim, autorização para cumprir missão. 

 

Eu perco o chão

Esvaziam-se as palavras

O filho vai, o trilho

A faca, a louca, a luz

 



[1] Do álbum Caymmi e o Mar, 1957

[2] Referência ao escritor Valter Hugo Mãe

[3] Referência à escritora Zélia Gattai

[4] Referência ao escritor Eduardo Galeano

[5] Referência à escritora Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guairacã 14






14 Sandálias de Antônio 

 

O compêndio estava aberto sobre a escrivaninha. Jordano pôs  olhos demorados em um caco de cerâmica da ilha de Creta, onde se viam Esteno, Eiríale e Medusa. Por que o rapaz se demorava naquele enamoramento? Pois, se testemunhou aquelas roupas a cair da janela, direto no quarador. Depois de tal visão libertária, seu espírito passou a voejar pelas almas das noviças. Os sonhos dele nada tinham de eróticos, perturbadores, embora o fossem. O que o pesquisador viu foram cefalópodes, a sair das cabeças carecas daquelas mulheres tão jovens e cheias de dados a coletar, componentes genéticos extraordinários por escandir. Jordano desejou, a cada mergulho, passar a mão naquelas cabeças onde via o fundo do oceano. 

 

Simples, terra, Garnizé tinha se afastado das moças, por visões mais impudentes, por culpas de caráter religioso. Ambos, Jordano e o chefe de excursões pelo interior do rio impraticável, haveriam de provar estranhos sabores marinhos. Jordano ainda foi olhar as Moiras, no mesmo compêndio. Na cachoeira, ele sempre encontrava a pintora. Na cozinha, compartilhava fogão e música, caldeirões, gorduras, mulheres mágicas e canções pampeanas, do Minho. Por essas e outras, Jordano achou que era melhor ficar na Pousada do que partir, como queria Eurico. Aurélio, cismado, o peso mínimo de Adele a causar-lhe inconfessáveis comiches, ainda não decidira o que fazer.

 

Mitos distantes, eis o que eram aquelas mulheres da Pousada do Riacho, para se estudar em lugar luaroso. Eram necessários novos cálculos, novas premissas. Era quarto crescente. Bem fizeram os doutorandos em literatura, pegar o primeiro voo para a terra natal, Tuparendi. Que fossem em paz. Eurico, sentado na soleira da cozinha, recebeu a caneca morna das mãos de Fátima sem olhar, sem agradecer. Fechou seu caderno de anotações. Precisava amadurecer a hipótese. Como ela se apresentava, a pesquisa daria com burros n’água. Um sonho com as sandálias de Antônio o surpreendeu na madrugada. Eurico, materialista por opção. As sandálias, respingadas pela cachoeira, quedavam apoiadas sobre o parapeito, sem pés que as habitassem. Foi o suficiente, para o tirar do beliche, parte de baixo, e ir ver o sol nascer. Um cordel sobre aqueles assuntos dormiria em sua mente pueril, em espera. Só então olhou aquela mulher portuguesa e sentiu algo como afeto.

 

A comunidade do Riacho vivia basicamente da pesca, da caça e agricultura de subsistência. Posto de saúde, falassem com a Jica Lisberta. Abastecimento fluvial e saneamento era Seu Petrarca,  intendente da comarca, eleito por aclamação. Era com ele também a reciclagem e compostagem. Luz elétrica, tinham puxado, pelo sistema gato, de Pedra do Ingá. Por conta disso, a iluminação a querosene ainda dominava os inícios de noite. Havia a ferrovia do Ingá, que dava pras bandas de Itabaiana. Ônibus, uma linha precária que levava a Campina Grande. E todos os leitores podem sossegar, as localizações eram precárias, mesmo inexistentes nos mapas oficiais. 

 

Juanita, a noviça do aborto espontâneo, da vida reclusa, não havia de virar pitonisa. Mesmo porque seus pendores apontavam para corte e costura. Munida de uns tecidos festivos da Jica Lisberta, compôs túnicas para as irmãs de convento e também para Jica e Fátima, a lisboeta. Adele, cada dia mais humanizada, ao olhar as produções, perguntou se havia, na região, tecidos leves, de tom neutro, em que pudesse aplicar cor. Seu Guairacã mandou virem, os tecidos, pelo trem. Foi assim que nasceu uma fabriqueta de roupas simpáticas, que provocaram mocinhas, senhoras e até homens que desejassem ousar na rouparia. Um jeito delicado de mover o lugarejo, sem lhe roubar o equilíbrio. 

 

De há muito, Jica Lisberta fechara sua casa. A construção discreta era longe da pousada um quilômetro em linha reta. A pernada até lá era feita de paisagem ribeira, precioso passeio. Pelo caminho, havia o Chicão, plantador de rosas, Casemiro, vendeiro e rosmaninho. Joca, que alugava, reformava e vendia bicicletas. Passava-se também pelo carpinteiro, para onde Garnizé levara as poucas tralhas que possuía, mais o Repolhinho, cachorro enjeitado quando a menina Guerda faleceu. Essa, quem acudiu foi Magda, noviça da qual já falamos antes, os esquecimentos aqui são previstos. 

 

A jovem freira tinha mãos de paramédica, ou legista. Interessante ser ela a passar quando uma mulher rompeu o silêncio da manhã raiada, aos berros. Com cuidado e respeito ao lidar com a morta, Magda descobriu que alguém molestara e cortara Guerda por dentro, a canivete. A forte hemorragia foi todo um rio de desespero. Um acontecimento para a criminalística local, trataremos de levantar mais poeira sobre este caso e colocar Eiríale na história. 

 

A Pousada do Riacho ia ficando desdentada novamente, embora todo mundo aparecesse, religiosamente, para o almoço. Juvenal e Gaudério desceram para o sul então, precisavam qualificar a tese a quatro mãos. Foram, entre pesarosos e contentes, as pastas cheias de boas premissas. O ponto alto do material que exporiam era o cordel A história da menina Guerda e o fantasma do bicho solto. 

 

Do sinistro ao cordel o velho Guairacã fez-se de morto, sem uma palavra proferir. Cada vez que passava o Jorge, um arrepio subia-lhe os pelos da nuca. Para aquele leitor que não se afeiçoou, Jorge é o moço inocente do caso do arrastão no Farol. Podia ser cisma de velho, mas Guairacã, que já convivera com soldado, estrangeiro, desgarrado, pescador de narval, ficava ouriçado ao olhar aquele lenço espelhado no pescoço do rapaz, agora mais triste que toda história do mundo. 

 

Jorge nunca tirava do pescoço aquele mimo. Jamais foi flagrado o sinal suicida, agora um vão negro sobre a proeminência laríngea. Naquela manhã em que Magda embrulhou a menina em gaze, Jorge saiu a caminhar, chapéu batido na testa. Andou pros lados da bicicletaria. Dizem que rodou por toda parte em uma Caloi velha, falou com uns jagunços que se embrenharam na mata rala da vicinal, parou no portão da menina Guerda e ficou lá por um tempo, o sol rebrilhando o lenço. Caviúna, mãe da morta, aterrorizada com aquele intruso, feito fantasma à sua porta, passou por ele sem respirar e foi refugiar-se na cozinha da Jica, à cata de bartimão. 

 

A faz tudo da Pousada sorria em seu lar naquele  instante, lá longe. Tinha aberto portas, janelas, armários, para arejar, encher de ozônio e flor de Oxum o lugar. As minina ia morar mais Fátima naquele aconchego, no potirgimento da portuguesa. Era cois’ di Deus. 

 

Jica está cá na pousada não, explicou Fátima, e foi estreitando, sem pedir licença, a senhora em abraço tão suave. Caviúna derramou as primeiras lágrimas do luto. Para dar início ao consolo, a lisboeta contou que ia morar na casa da benzedeira, fazia arranjo de vida nova, as freiras junto dela. O aluguel em conta, os benefícios, dava gosto recomeçar a vida com tal madrinha. Segredou também que a Jica estava a deixar a luz entrar na casa há muito fechada. A poeira carecia sair, guardar-se o que era de guardar, tirar o que sobrava, abrir espaço, combinar o jeito das camas, dos poucos móveis, dos utensílios que havia, os que faltava aviar. Ela contava com a ajuda  preciosa do Garnizé e Seu Ademar. A tagarelice durou um pouco mais, com detalhes sem importância. Depois, a portuguesa fez silêncio reverente. Sem saber que uso fazer do bartimão, estendeu à desarvorada uma caneca de erva-cidreira. E então, sem mais aquelas, Fátima desejou a voz de Santo Antônio no coração daquela mãe destruída. 

 

O choro fez sintonia com a cachoeira, tão potente. Por estranho que possa parecer, a noviça Juanita não pode deixar de ouvir a lamentação, mesmo estando submersa como estava, a olhar com curiosidade um tronco, nele as feições de Esteno. O som daquele choro reportou de imediato ao sangue do próprio aborto. A amiga Magda não pudera saber disso de imediato, mas a retaliação que testemunhou no corpo da menina Guerda era o desejo de extirpar o embrião, um filho não desejado. Com tal violência a lâmina explorou o santuário, tudo indicava vingança de homem. Naquele rincão pacífico, o atentado poderia ter sido perpetrado por alguém de convívio, por um meliante familiar. O tronco suspirou a Juanita, lhe soprou. Fora a própria menina a dar cabo da cria, num acesso de desesperança. Talvez não tivesse a intenção de matar a si. Certa de que haveria muito vozerio, movimentação de estranhos no Riacho, a freirinha pediu apoio a Magda e seu Guairacã e foram, os três, ter com o intendente. 

 

A mente límpida de Juanita expôs as hipóteses de modo tão comovente, que os dois senhores logo chamaram Caviúna. A mãe fora surpreendida, na madrugada do sinistro, como se houvesse rádio ligado em programa de resgate. Eram tantas vozes, alarmas, que a mãe emudeceu, por pelo menos meia hora, diante da sangueira. Um índio muito branco, vestido de água, pediu que ela tivesse coragem e confiança, sentasse na cama da mocinha e lhe dissesse prece, para que o desligamento do cordão de prata pudesse ocorrer e a suicida homicida não fosse tragada por gênios perversos. Caviúna não soube como, fez o que lhe foi pedido e a menina Guerda morreu em seus braços. Ao sair do choque, a mãe alertou aos moradores mais próximos. Getúlio as encontrou às cinco da manhã, hora em que saia para a pesca. Ouviu o uivo lancinante de Caviúna, foi acudir.

 

O Jorge, na mira do dono da Pousada, diante do portão da menina Guerda, passado o alarme do sinistro, chorava por dentro. Uma irmã do moço, de nove anos, morreu de forma semelhante, cinco anos antes. No caso de Cidinha, o sangramento foi provocado por uma garrafa, usada por seu agressor. O rapaz tocou o lenço espelhado, vez ou outra, diante do portão de Caviúna, olhar fixo no nada, protegido da luz pela aba do chapéu. Ele contou para Jica Liberta, bem depois, que saber da arma, o canivete, o impediu de ação pior, de cometer injustiça. 

 

A história se complica e encomprida. Seu Chicão, o plantador de rosas, tinha um menino com Síndrome de Down. Carlito, doce como mel, ia fazer treze anos. Era redondo, lembrava pêssego. Difícil cuidar dele sem companheira, que fora embora o menino ainda no seio. Carlito, a paz em pessoa, cresceu ao lado da menina Guerda, esta mais esperta que ele, porém não mais esclarecida. Brincavam nus na cachoeira e ninguém pôs no jogo malícia. Até que o sacrilégio se deu. Ao contrário do esperado, um linchamento, expulsão de seu Chicão no rabecão, os moradores se desvelaram, cuidaram do dono das rosas, também da mãe sem sua menina anjo. Carlito. Para Carlito, veio em socorro a Letícia, a terceira noviça. 

 

Problema é que Caviúna não conseguia perdoar. Nem a si, nem ao marido morto, nem à filha e seu suicídio, nem ao rapazito do Chicão. No neto assassinado, nem pensava. Quando começou a ter ideias homicidas, Caviúna correu para Jica Lisberta, na esperança de um benzimento ou de furtar boa faca de cozinha. A Medusa precisava suprir de amor o irremediável. Foi aquele o dia em que chegou missiva de Juvenal para Letícia. Foi aquele o dia em que ela, por telegrama, pediu guarida para si e para Carlito, na cidade de Tuparendi. 

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Guairacã 13


                                   Paraíba-BR


Clarissas 

 

Guairacã tombou no cadeirão ao lado do fogo. Dizemos tombou, posto que sentiu um rumor de mil anos em seu coração. Fátima chegava naquele instante à cozinha e pode acudir. Para ela, foi dar à luz José, dileto marido morto. Soprou a boca do velho com tal destreza que ele logo se recompôs e confessou nunca fora beijado daquele jeito e que era isso que lhe faltava, um instante. O jaleco azul deu à senhora o distanciamento de que necessitava para olhar o entorno, o quintal. Fátima pediu licença e foi repousar perto do poço, onde a Jica Lisberta plantava lírios d’água. Uma deu com os olhos da outra. Era pura sintonia, ambas amparadas por mães invisíveis que as livravam de poucas e boas nessas curvas de aquífero. 

 

Fátima foi logo abrindo o peito, segredou seu poder de cuidar e que ressuscitara o velho porque era natural o fazer. Pediu ajuda a Jica, para que o bandeirante não confundisse caridade com outro sentir. Jica Lisberta foi logo dizendo eita Fatima, que nosso veinho é purtigido de Ogum, saberá si fortalicê. Ambas, pasmadas de pura ternura, olharam Adele, que entrou nesse momento por detrás da cortina plástica, pendurou a túnica para o lado de fora, acionou a bica e tiritou. Por um vão, as mulheres olharam a magreza da moça e ruminaram, as duas, qual poção lhe administrar, que não ferisse a melancolia porém, devolvesse um grau de calor àquela alma de artista. 

 

Aurélio apareceu na porta da cozinha, olheiras fundas. Sem cerimônia, perguntou se não lhe arrumavam alguma beberagem de dormir, sentia-se precisado. Fátima foi atender. Hortelã e abacaxi aninhariam qualquer ruminação. O mesmo fortificante, com uma rama de anis estrelado, a senhora lisboeta ofereceu a Guairacã que agradeceu, de humor leve. O velho bandeirante tomou dois goles e mergulhou em seu berçário de narval. Já Aurélio teve que dar com uma Adele de túnica colada ao corpo, cabelo pingando, parada à entrada da cozinha, onde o sol refletia sua nudez. Lembrava uma estatueta de jade da deusa Kuan Yin[1]. Ali ela ficou, tocada pelo calor do fogo. De cócoras, aceitou um naco de pão com gergelim que Fátima lhe estendeu sem palavras. Para a pintora, o licor de jenipapo seria mais acertado que hortelã. Com a desculpa de que o velho Guairacã dormia, ninguém falou. Aurélio aceitou um pedaço de bolo de fubá. Lá do poço, se escutava a doce voz de Jica Lisberta a evocar Nzambi[2]. Aurélio levantou-se, quase sem ser notado. Subiu cada degrau como se fossem vinte. Esperava. Logo, Adele quedou-se ao lado e lhe pegou a mão. E foram, os dois, até o mirante. Ninguém fique pensando mirabolices, que para tudo há tempo certo, também necessidade de autorização alfandegária. Ao entrarem no aposento, Adele o convidou ao leito e pediu, deito-me nua sobre ti e tu dormes, está bem assim? E foi isso, um fio de água a escorrer pelo pescoço, um quase nada de peso, um frescor, que os uniu nesse primeiro contato físico, duas horas de sono profundo e uma afeição para sempre.  

 

Juanita, depois de uma noite e meio dia na cascata, tomada por profundo silêncio, retornou à Pousada como se voasse. Também ela foi à cozinha. Fátima, que desfiava o bacalhau, pensou camomila. A noviça aceitou algum bago de uva como acompanhamento. Uma réstia de sol brandia o coração do velho Guairacã, que ressonava a miúdas. Não se tratava de embaraço, era tão íntimo que Fátima, cúmplice no olhar da freira,  saudosa daquela bela Helena que deixou em Lisboa, convidou a moça para o quintal, já que vinha chegando a Jica com as couves, as cebolas, os pimentões, os ovos e seguiria com a feitura da refeição. Aquele entra e sai dava mesmo um valsado, pensou o patrão a sorrir. Jica lhe sondou, estava bem o velhaco.

 

A jovem religiosa falou do filho morto. Fátima escutou e sentiu falta imensa dos gatos... sabia que a enfermeira Matilde cuidaria, mas eles logo achariam outros telhados... a escutatória floriu. Lá pelas tantas, aquela revelação da Clarissa de Francisco. Fátima foi sincera. Do que via naquela herdade, cada um tinha seu Jesus, sua Maria e seu José, confundidos a Lampião e Maria Bonita. Não parecia que precisassem de capela ou convento. Que a moça tivesse mais apreço pelos contatos que fazia. Sentisse o cantar da cachoeira, por ele só, sem Oxum, Santa Bárbara, sem fantasmas de nascituros ou conquistadores de barranca. Juanita precisava tomar a vida com as próprias mãos, isso sim. Não era questão de largar as irmãs ou a crença, mas cada uma achar seu plano de voo. Os rezos eram, mesmo, bem bonitos, serviam de unguento. Que elas seguissem a rezar. Que Juanita cuidasse, sobretudo, dos momentos de cair de joelhos. Atentasse, com quem é que falava, se santo ou sujeito à toa. De certa forma, os dois lhe privavam da própria luz, guardada sob o velador. Juanita foi ficando cada vez mais pálida enquanto era sabatinada. Quis assim, tomou. Fátima até pensou vai me execrar, ora pois... a freira, contudo, abriu largo sorriso, como se lhe desatassem o espartilho. 

 

Letícia e Magda puseram as caritas na janela, ainda com as cabeças descobertas de dormir. Juanita, delicada, decidida, desceu com cuidado o véu do hábito. Os cabelos, aparados até o couro, revelaram-se louros. Não se fez de rogada. Desamarrou com vagar o cordão da cintura. Ainda havia a roupa branca de baixo. Juanita parou. As meninas, lá de cima, parceiras, jogaram os tecidos cinza, os cordões, a roupa branca, em profunda reverência. As peças vieram assentar, comportadas, na tina de lavar. Quem gostaria de pintar aquele quadro seria a Adele.

 

Suave, bate o coração

Mesmo verso amarfanhado

Vou te guardar nesta canção 

Feito cravo desfolhado

 

Dorme, bom amigo

Que o novo dia já vem

 

 

 

 

 

 



[1] Deusa da misericórdia e compaixão, ouve os lamentos do mundo, ama incondicionalmente, protege, cura. OM MANI PADME HUM.

[2] A representação de Deus no Candomblé

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guairacã 12







12 Meados

 

 

Mais dois dias e o catajeca seguiria para outra rodoviária, assim fora contratado. Garnizé sempre ia mais vazio do que chegava nos retornos de excursão. Sentia-se borboleta, a por seus ovos e voar. Dessa vez, era quase certo que os passageiros ficassem no Riacho, aquele lugarejo esquecido e achado. Eram gente sem eira, sem beira, com algo de decência. O homem não quis apressar rio algum. Saiu cedo, foi lavar-se na cachoeira, mais dolorido na coluna do que era comum.  

 

Lá, encontrou Adele. A moça vestia uma túnica branca e estava nua por baixo. Era tão magra que não inspirava olhares luxuriosos. Ela olhava para uma pedra, longe o suficiente, sem piscar. Um lagarto olhava na direção dela, sem olhar. Media, o réptil, uns dois metros, parecia pesado, a aproveitar o sol que nascia, imóvel. Um caderno de desenho descansava no colo da moça, o lápis a diluir-se em um movimento dengoso na mão esquerda. O bicho recebeu um nome, desenhado sob sua representação. Alfeu.

 

Garnizé, dos dias em que conviveu com a estranha trupe, sabia que era melhor manter, daquela moça, a mesma distância que o lagarto elegante se permitia. Seguiu um pouco adiante, onde poderia ficar de calção sem ser visto. Guairacã já havia lhe falado da flora, da fauna do lugar, que não representavam riscos, a menos que o freguês fosse se meter onde não era chamado. Aquele lugar que escolheu, Garnizé já estivera por ali. Pôs a cabeça sob o braço fraterno da cacheira, sem pesar. Mais um pouco e ficou em pé sob a ducha revigorante. Inclinou as costas, para que a água fizesse o trabalho com a dor. 

 

Que inconveniente havia, caso decidisse ficar, ele também? A casinha no final da alameda era pequena o suficiente, grande o suficiente. O aluguel, simbólico. Fizera camaradagem com Seu Ademar, carpinteiro, viúvo há seis meses, sem intenção de outro par. Um amigo parecia mais acertado que outra mulher. Ali, Garnizé refletiu, se poderia ter um cão, dividir um pito, uma cerveja, que os dois iriam tomar lá com a Jica Lisberta. E também havia a dona Fátima, a primeira que avisou que dali do Riacho não mais sairia. Garnizé levaria gente do lugar para as rodoviárias circunvizinhas, a piqueniques, arraiais. Traria gente à Pousada. Ainda tinha tempo para aconselhar-se. Quando o corpo esteve vivo o suficiente, o motorista do catajeca deitou em uma pedra, lagarto humano. Esqueceu, dormiu.

 

Havia aqueles para abraçar, outros para convidar a seguir rumo, outros, a flecha rezaria. Era olhar o marco do Riacho, a contar três mil e duas gentes, se era bom acolher mais nove. O velho Guairacã segurava um bastão que lhe servia de bengala, diante da placa de bem vindo. Tinha parado o objeto sobre o ombro esquerdo, no início da alameda, onde o lugarejo fazia a bifurcação para Pedra do Ingá. Ali, parado, ele se deu conta de que não era Deus. Era um cisco no olho de Deus, com certo carinho. Não podia ele atar ou desatar o progresso, o poder de escolha dos outros. Andava muito habituado a esvaziar logo a Pousada, tornar aos monólogos com Gilceu, refugiar-se nos cheiros de almoço da Jica. Nada impedia daquela arenga persistir, mesmo que a casa permanecesse cheia. Fungou e voltou para a Pousada. Juanita não lhe saia do juízo. 

 

Gilceu, sempre imperturbável, havia se deslocado pros lados da cachoeira. Espiava, tímido, o amigo que agora tinha o nome de Alfeu. Viu o lápis a dançar, hipnótico, nos dedos daquela dona que todo dia gastava um tempo ao seu lado, no corredor da Pousada. Um golpe de mestre, ele atravessou a perspectiva da mulher e foi logo enquadrado. Freneticamente, Adele começou a registrar a presença do amigo verde, a murmurar coisas doces, num idioma tão elegante que só Aurélio pode compreender. 

 

A magreza não era motivo para que o paleontólogo desviasse os olhos das pernas, braços, do seio quase descoberto, dos lábios que se moviam sem som. Ele estivera sob uma ingazeira desde a madrugada, não pudera dormir, por conta do enigma do sapato de cento e cinquenta anos. Discreto, o rapaz não foi descoberto. Viu Juanita chegar primeiro, viu o velho Guairacã encantado, viu Adele. Ela não era nenhuma Perséfone, ele tampouco tinha pendores para Hades. Já haviam se cruzado algumas vezes, nenhum dos dois em posição antagônica. Não falaram, é certo. Também não olharam um para o outro. Ela, naquele mundo dos melancólicos; ele, com as pedras que devem rolar. 

 

Juanita seguia a rezar, alto o suficiente para se ouvir amarrei um fio vermelho no tornozelo d’Ele, a ver se o aproximo, de volta ao solo, para junto das bizarrices das quais Ele se compadece. Vem me tomar em seus braços, Resedá, que me sinto só. Está tudo bem, eu sei. Qual santo fez hoje a homilia iluminada? Qual pastor de ovelhas entoou água e chamas? Qual orvalho, sombra? Qual silêncio? Qual cirurgião concluiu seu apêndice supurado com êxito? Qual sanatório teve manhã sem tiros? Ah, escumilha das escumilhas, tem compaixão. 

 

Aurélio, mais ouvia a cantilena de Adele, mais lhe descia pelas pernas uma mornidão perigosa. Humanos amontoados, pateticamente amontoados, coitados del’s, bando de asteroides, caídos no solo silvestre das cidades por nascer. A velha Sael não é, nem de longe, os verdes água de Kiol e é bonita, torpe e bonita. Não conheço Ionesco. Temo que a palavra dele é meu próprio hangar na Caledônia,  o sal de Cartago. As cadeiras[1].  Que tal enveredarmos, lagartos, por um desses rabos de galo do céu, a ver se encontramos o gineceu amarelo? Deixamos ele sem dormida por um mês. 

 

O movimento do lápis deu em Aurélio. A moça trepidou. Alfeu entrou na água, Gilceu se mandou. Garnizé deu consigo já bem seco, vestiu as calças, mal abotoou a camisa, calçou as alpargatas sem calçar e saiu logo, como se lhe picasse a muriçoca. 

 

Quem ficou em seu lugar foi Juanita, sem piscar. Algo de transe.

 

A noite vem chegando, Menino Leo

Mais um dia que o Universo te deu

Sou alguém de longe, viajante

Venho em nome dos camafeus do céu

E também da Terra, do mar

Que em todo lugar tem pelo menos um

Pra aliviar as canseiras

Os sustos

Pôr luz

No caminho de Leo

Do copo d’água

Leo da colina loura, Leo do copo d’água

 

 

 



[1] Peça de Eugene Ionesco

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Guairacã 11





O cuco

 

O cuco atravessou o Saara por dez vezes. A fêmea, a ira a lhe ferir, entregou a cria à sombra. O cuco atravessou o Saara por nove vezes. O macho, morto em combate, esperava pela dama, empoleirado sobre o gradil da ponte. Iam os dois, no momento certo, catar o filho que desgarrou. Enfrentariam correntes, tronco, por duas migrações. O cuco atravessou o Saara por seis vezes. Afundado em lamaçal, o diabrete tomou para si dores que não lhe faziam jus. O cuco atravessou o Saara por cinco vezes. Um dia, os pais o acharam, era a vez de número quatro, o cuco atravessou o Saara. Cansado de guerras, revides, o pássaro aluou. O cuco atravessou o Saara por três vezes. Sem esmorecer, macho e fêmea se revezaram em voo vertiginoso. O cuco atravessou o Saara por duas vezes. A fêmea, acolhida por um sino de bronze, passou a rezar Filhas de Maria. O cuco atravessou o Saara. Enfim, reconduzido ao espaço entre duas palavras escritas, o macho a dez mil metros de altura, ao sabor da corrente, o cuco apontou seu lápis e cantou cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco. A conclusão, a primeira série de fábulas, o cuco, mais dez travessias, agora viria ao Gobi, ou à Pousada do Riacho, é o mesmo.

 

Ajoelhada à beira do aguaril, Juanita deu com o filho sangrado. No olho da mata, a imagem que se apagava, o homem que a encontrara sobre as folhas, tão gentil. O homem que pegou a suaçuboia com a mão e a devolveu ao galho, para depois tocar-lhe o seio pequenino, ela toda como veio ao mundo, a suspirar. O homem que lhe plantou um passarinho, sangrado antes de revelar a cor. Sabemos que foi aborto que a natureza faz. Cumpriu a sina o bicho, teve suas asas de volta, virou sauá. Nem dele, nem do homem, Juanita guardava saudade. Queria ter onde ficar.

 

Andava por ali, claudicante, o velho Guairacã. Ao ver a moça de joelhos, uma força nutritiva o chamou para perto dela, tão mimosa. Ficou em pé cinco passos atrás, como guarda costas de príncipe regente. Um imenso olho piscava, sereno como as palhas da manjedoura. O Natal e suas cestas de deserto. O olho aguardava, pacífico, a força que chega, para reavivar a lamparina. Ventos amenos traziam também água, a princesa dos mananciais. Tudo é o que é, pensou o velho da pousada. A Senhora das Matas piscou o outro olho. Não se pode jogar cordas no tempo, isso era bem sabido. 

 

Vancê ‘n’um é aquel’ amor

Que meu coração tem esp’rado

Se fora, amado sonhador

Já t’rias m’avisado

 

Vancê ‘n’um é aquel’ amor

Que meus escritos tem guardado

Se fora, triste trovador

Já t’rias germinado

 

 

 

 

sábado, 25 de outubro de 2025

Guairacã 10





10 – Rosário de Lulé

 

O trabalho de um contador de histórias é como um calango sob o vaso de plantas. Observa, tem ao lado uma caderneta e espera novos pedaços de batata crua e ovos, a cair em sua boca como que por encanto. Um carinho na cabeça também serve. Desde que o barulho da roçadeira se restrinja ao jardim, o animal segue imóvel, inerte, frio. O mesmo ocorre se a moça triste surge do nada, senta ao seu lado e assume a mesma imersão. O contador de histórias suspira, relê as páginas e dá com a mão esquerda na testa. 

 

O contador de histórias gesta seus personagens das funduras dos olhares. Podem ser os seus, refletidos em cacos, o que é mais comum, ou as extraordinárias expressões das retinas vizinhas, disponíveis a quem faz contatos visuais verdadeiros. Para algum leitor, pode ter chamado a atenção nascerem, para esta narrativa, os doutos Juvenal e Gaudêncio. Rapazes dedicados aos estudos, estavam à cata de cordelistas que dariam tom a sua tese. Ao entrarem na Pousada do Riacho Guairacã viu, nas pupilas dilatadas deles, dois lavreiros de narval, Otaviano e Álvaro, portugueses do Algarve, com quem lidara nos mares do norte. Aqueles tempos de pesca e perigo, Guairacã tinha o cuidado de os afugentar do pensamento. Sempre que se dirigia aos sulistas, o bandeirante precisava corrigir a saudação e prometia, toda vez, contar-lhes seus arroubos de Júlio Verne.

 

Ao perseguir o olhar daquele personagem, o que entra em cena e muda todo o curso dos acontecimentos, o contador de histórias sofre. Ele poderia dizer que a comunidade ribeira ainda não permitiu acender esta luz. Por ora, era ir apresentando este ou aquele sujeito, mais ou menos afortunado, mais ou menos fadado, mais ou menos enredado na trama. Se fosse dom, o premiado alumiaria a página. 

 

Fátima, a lisboeta, trouxe na bagagem livros e notícias para Guairacã. Tratava-se de um compilado de poemas obituários, em três volumes, escritos pelo finado Mariano Lole, para um folhetim da capital. Outra amizade antiga, dos tempos em que Guairacã fazia seu desjejum em uma pensão, a Flor dos Cavalheiros, na cidade de Lisboa. Foi lá que o velho bandeirante testemunhou o enfarte de um homem, diante da xícara de café. Viu também o prestimoso socorro, prestado por Lole à vítima. Naquele mesmo dia, Guairacã tomaria um navio para o Brasil. Não mais perdeu o contato com aquele poeta estranho, amável e um tanto sinistro. Até perder.

 

Descansa em paz a minh’alma

Nas espumas de Portimão

Afortunada, mar de manto

consolou meu coração

 

Santinha das minhas chagas

Montada em um burrico

Eu te vi, praia distante

Vou para ti; aguarda 

 

A irmã Letícia, pela manhã que raiava no Riacho, puxou o rosário. Não era seu costume, preferia sussurrar à Mãe seus pensamentos de menina, enquanto Juanita impunha ritmo às contas. Arrependia-se, por ter deixado o mundo para trás duas vezes. A família, na casinha de Jericoacoara, foi seu primeiro adeus. Montada em um burrico, adornada por uma mantilha azul que lhe cobria os cabelos, quis o encontro com a luz, que vira mais para sul. Para os pais, uma santinha. A mente pregara-lhe alguma peça. No caminho para esta luz, desenvolveu episódios epiléticos leves, invariavelmente socorridos por passantes amáveis. Por conta da aparência, era ao padre da localidade que a levavam. Assim é que a menina, pelos dezoito anos, acabou internada em um convento, onde encontrou Juanita e Magda. No derradeiro episódio que sofreu, Letícia rezava as vésperas, entre suas inseparáveis companheiras de cela e fé. As noviças tiveram permissão da abadessa para acompanhar a doente ao centro médico, ala psiquiátrica. 

 

Em revolucionária atitude, já recuperada a irmã Letícia, Magda propôs que as três não voltassem mais à reclusão. Destemida, missioneira por vocação, Magda sonhava a oportunidade de servir em alguma comunidade ribeira, tratar de gente, precisada de sutura, cataplasmas e um pouco de religiosidade. Embora o dinheiro que tinham, pouco, fosse do convento, consideraram usa-lo para bilhetes de viagem, somente de ida. Eis o segundo adeus. Foi então que Letícia conheceu Juvenal, no pronto socorro da psiquiatria.