sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guairacã 14






14 Sandálias de Antônio 

 

O compêndio estava aberto sobre a escrivaninha. Jordano pôs  olhos demorados em um caco de cerâmica da ilha de Creta, onde se viam Esteno, Eiríale e Medusa. Por que o rapaz se demorava naquele enamoramento? Pois, se testemunhou aquelas roupas a cair da janela, direto no quarador. Depois de tal visão libertária, seu espírito passou a voejar pelas almas das noviças. Os sonhos dele nada tinham de eróticos, perturbadores, embora o fossem. O que o pesquisador viu foram cefalópodes, a sair das cabeças carecas daquelas mulheres tão jovens e cheias de dados a coletar, componentes genéticos extraordinários por escandir. Jordano desejou, a cada mergulho, passar a mão naquelas cabeças onde via o fundo do oceano. 

 

Simples, terra, Garnizé tinha se afastado das moças, por visões mais impudentes, por culpas de caráter religioso. Ambos, Jordano e o chefe de excursões pelo interior do rio impraticável, haveriam de provar estranhos sabores marinhos. Jordano ainda foi olhar as Moiras, no mesmo compêndio. Na cachoeira, ele sempre encontrava a pintora. Na cozinha, compartilhava fogão e música, caldeirões, gorduras, mulheres mágicas e canções pampeanas, do Minho. Por essas e outras, Jordano achou que era melhor ficar na Pousada do que partir, como queria Eurico. Aurélio, cismado, o peso mínimo de Adele a causar-lhe inconfessáveis comiches, ainda não decidira o que fazer.

 

Mitos distantes, eis o que eram aquelas mulheres da Pousada do Riacho, para se estudar em lugar luaroso. Eram necessários novos cálculos, novas premissas. Era quarto crescente. Bem fizeram os doutorandos em literatura, pegar o primeiro voo para a terra natal, Tuparendi. Que fossem em paz. Eurico, sentado na soleira da cozinha, recebeu a caneca morna das mãos de Fátima sem olhar, sem agradecer. Fechou seu caderno de anotações. Precisava amadurecer a hipótese. Como ela se apresentava, a pesquisa daria com burros n’água. Um sonho com as sandálias de Antônio o surpreendeu na madrugada. Eurico, materialista por opção. As sandálias, respingadas pela cachoeira, quedavam apoiadas sobre o parapeito, sem pés que as habitassem. Foi o suficiente, para o tirar do beliche, parte de baixo, e ir ver o sol nascer. Um cordel sobre aqueles assuntos dormiria em sua mente pueril, em espera. Só então olhou aquela mulher portuguesa e sentiu algo como afeto.

 

A comunidade do Riacho vivia basicamente da pesca, da caça e agricultura de subsistência. Posto de saúde, falassem com a Jica Lisberta. Abastecimento fluvial e saneamento era Seu Petrarca,  intendente da comarca, eleito por aclamação. Era com ele também a reciclagem e compostagem. Luz elétrica, tinham puxado, pelo sistema gato, de Pedra do Ingá. Por conta disso, a iluminação a querosene ainda dominava os inícios de noite. Havia a ferrovia do Ingá, que dava pras bandas de Itabaiana. Ônibus, uma linha precária que levava a Campina Grande. E todos os leitores podem sossegar, as localizações eram precárias, mesmo inexistentes nos mapas oficiais. 

 

Juanita, a noviça do aborto espontâneo, da vida reclusa, não havia de virar pitonisa. Mesmo porque seus pendores apontavam para corte e costura. Munida de uns tecidos festivos da Jica Lisberta, compôs túnicas para as irmãs de convento e também para Jica e Fátima, a lisboeta. Adele, cada dia mais humanizada, ao olhar as produções, perguntou se havia, na região, tecidos leves, de tom neutro, em que pudesse aplicar cor. Seu Guairacã mandou virem, os tecidos, pelo trem. Foi assim que nasceu uma fabriqueta de roupas simpáticas, que provocaram mocinhas, senhoras e até homens que desejassem ousar na rouparia. Um jeito delicado de mover o lugarejo, sem lhe roubar o equilíbrio. 

 

De há muito, Jica Lisberta fechara sua casa. A construção discreta era longe da pousada um quilômetro em linha reta. A pernada até lá era feita de paisagem ribeira, precioso passeio. Pelo caminho, havia o Chicão, plantador de rosas, Casemiro, vendeiro e rosmaninho. Joca, que alugava, reformava e vendia bicicletas. Passava-se também pelo carpinteiro, para onde Garnizé levara as poucas tralhas que possuía, mais o Repolhinho, cachorro enjeitado quando a menina Guerda faleceu. Essa, quem acudiu foi Magda, noviça da qual já falamos antes, os esquecimentos aqui são previstos. 

 

A jovem freira tinha mãos de paramédica, ou legista. Interessante ser ela a passar quando uma mulher rompeu o silêncio da manhã raiada, aos berros. Com cuidado e respeito ao lidar com a morta, Magda descobriu que alguém molestara e cortara Guerda por dentro, a canivete. A forte hemorragia foi todo um rio de desespero. Um acontecimento para a criminalística local, trataremos de levantar mais poeira sobre este caso e colocar Eiríale na história. 

 

A Pousada do Riacho ia ficando desdentada novamente, embora todo mundo aparecesse, religiosamente, para o almoço. Juvenal e Gaudério desceram para o sul então, precisavam qualificar a tese a quatro mãos. Foram, entre pesarosos e contentes, as pastas cheias de boas premissas. O ponto alto do material que exporiam era o cordel A história da menina Guerda e o fantasma do bicho solto. 

 

Do sinistro ao cordel o velho Guairacã fez-se de morto, sem uma palavra proferir. Cada vez que passava o Jorge, um arrepio subia-lhe os pelos da nuca. Para aquele leitor que não se afeiçoou, Jorge é o moço inocente do caso do arrastão no Farol. Podia ser cisma de velho, mas Guairacã, que já convivera com soldado, estrangeiro, desgarrado, pescador de narval, ficava ouriçado ao olhar aquele lenço espelhado no pescoço do rapaz, agora mais triste que toda história do mundo. 

 

Jorge nunca tirava do pescoço aquele mimo. Jamais foi flagrado o sinal suicida, agora um vão negro sobre a proeminência laríngea. Naquela manhã em que Magda embrulhou a menina em gaze, Jorge saiu a caminhar, chapéu batido na testa. Andou pros lados da bicicletaria. Dizem que rodou por toda parte em uma Caloi velha, falou com uns jagunços que se embrenharam na mata rala da vicinal, parou no portão da menina Guerda e ficou lá por um tempo, o sol rebrilhando o lenço. Caviúna, mãe da morta, aterrorizada com aquele intruso, feito fantasma à sua porta, passou por ele sem respirar e foi refugiar-se na cozinha da Jica, à cata de bartimão. 

 

A faz tudo da Pousada sorria em seu lar naquele  instante, lá longe. Tinha aberto portas, janelas, armários, para arejar, encher de ozônio e flor de Oxum o lugar. As minina ia morar mais Fátima naquele aconchego, no potirgimento da portuguesa. Era cois’ di Deus. 

 

Jica está cá na pousada não, explicou Fátima, e foi estreitando, sem pedir licença, a senhora em abraço tão suave. Caviúna derramou as primeiras lágrimas do luto. Para dar início ao consolo, a lisboeta contou que ia morar na casa da benzedeira, fazia arranjo de vida nova, as freiras junto dela. O aluguel em conta, os benefícios, dava gosto recomeçar a vida com tal madrinha. Segredou também que a Jica estava a deixar a luz entrar na casa há muito fechada. A poeira carecia sair, guardar-se o que era de guardar, tirar o que sobrava, abrir espaço, combinar o jeito das camas, dos poucos móveis, dos utensílios que havia, os que faltava aviar. Ela contava com a ajuda  preciosa do Garnizé e Seu Ademar. A tagarelice durou um pouco mais, com detalhes sem importância. Depois, a portuguesa fez silêncio reverente. Sem saber que uso fazer do bartimão, estendeu à desarvorada uma caneca de erva-cidreira. E então, sem mais aquelas, Fátima desejou a voz de Santo Antônio no coração daquela mãe destruída. 

 

O choro fez sintonia com a cachoeira, tão potente. Por estranho que possa parecer, a noviça Juanita não pode deixar de ouvir a lamentação, mesmo estando submersa como estava, a olhar com curiosidade um tronco, nele as feições de Esteno. O som daquele choro reportou de imediato ao sangue do próprio aborto. A amiga Magda não pudera saber disso de imediato, mas a retaliação que testemunhou no corpo da menina Guerda era o desejo de extirpar o embrião, um filho não desejado. Com tal violência a lâmina explorou o santuário, tudo indicava vingança de homem. Naquele rincão pacífico, o atentado poderia ter sido perpetrado por alguém de convívio, por um meliante familiar. O tronco suspirou a Juanita, lhe soprou. Fora a própria menina a dar cabo da cria, num acesso de desesperança. Talvez não tivesse a intenção de matar a si. Certa de que haveria muito vozerio, movimentação de estranhos no Riacho, a freirinha pediu apoio a Magda e seu Guairacã e foram, os três, ter com o intendente. 

 

A mente límpida de Juanita expôs as hipóteses de modo tão comovente, que os dois senhores logo chamaram Caviúna. A mãe fora surpreendida, na madrugada do sinistro, como se houvesse rádio ligado em programa de resgate. Eram tantas vozes, alarmas, que a mãe emudeceu, por pelo menos meia hora, diante da sangueira. Um índio muito branco, vestido de água, pediu que ela tivesse coragem e confiança, sentasse na cama da mocinha e lhe dissesse prece, para que o desligamento do cordão de prata pudesse ocorrer e a suicida homicida não fosse tragada por gênios perversos. Caviúna não soube como, fez o que lhe foi pedido e a menina Guerda morreu em seus braços. Ao sair do choque, a mãe alertou aos moradores mais próximos. Getúlio as encontrou às cinco da manhã, hora em que saia para a pesca. Ouviu o uivo lancinante de Caviúna, foi acudir.

 

O Jorge, na mira do dono da Pousada, diante do portão da menina Guerda, passado o alarme do sinistro, chorava por dentro. Uma irmã do moço, de nove anos, morreu de forma semelhante, cinco anos antes. No caso de Cidinha, o sangramento foi provocado por uma garrafa, usada por seu agressor. O rapaz tocou o lenço espelhado, vez ou outra, diante do portão de Caviúna, olhar fixo no nada, protegido da luz pela aba do chapéu. Ele contou para Jica Liberta, bem depois, que saber da arma, o canivete, o impediu de ação pior, de cometer injustiça. 

 

A história se complica e encomprida. Seu Chicão, o plantador de rosas, tinha um menino com Síndrome de Down. Carlito, doce como mel, ia fazer treze anos. Era redondo, lembrava pêssego. Difícil cuidar dele sem companheira, que fora embora o menino ainda no seio. Carlito, a paz em pessoa, cresceu ao lado da menina Guerda, esta mais esperta que ele, porém não mais esclarecida. Brincavam nus na cachoeira e ninguém pôs no jogo malícia. Até que o sacrilégio se deu. Ao contrário do esperado, um linchamento, expulsão de seu Chicão no rabecão, os moradores se desvelaram, cuidaram do dono das rosas, também da mãe sem sua menina anjo. Carlito. Para Carlito, veio em socorro a Letícia, a terceira noviça. 

 

Problema é que Caviúna não conseguia perdoar. Nem a si, nem ao marido morto, nem à filha e seu suicídio, nem ao rapazito do Chicão. No neto assassinado, nem pensava. Quando começou a ter ideias homicidas, Caviúna correu para Jica Lisberta, na esperança de um benzimento ou de furtar boa faca de cozinha. A Medusa precisava suprir de amor o irremediável. Foi aquele o dia em que chegou missiva de Juvenal para Letícia. Foi aquele o dia em que ela, por telegrama, pediu guarida para si e para Carlito, na cidade de Tuparendi. 

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Guairacã 13


                                   Paraíba-BR


Clarissas 

 

Guairacã tombou no cadeirão ao lado do fogo. Dizemos tombou, posto que sentiu um rumor de mil anos em seu coração. Fátima chegava naquele instante à cozinha e pode acudir. Para ela, foi dar à luz José, dileto marido morto. Soprou a boca do velho com tal destreza que ele logo se recompôs e confessou nunca fora beijado daquele jeito e que era isso que lhe faltava, um instante. O jaleco azul deu à senhora o distanciamento de que necessitava para olhar o entorno, o quintal. Fátima pediu licença e foi repousar perto do poço, onde a Jica Lisberta plantava lírios d’água. Uma deu com os olhos da outra. Era pura sintonia, ambas amparadas por mães invisíveis que as livravam de poucas e boas nessas curvas de aquífero. 

 

Fátima foi logo abrindo o peito, segredou seu poder de cuidar e que ressuscitara o velho porque era natural o fazer. Pediu ajuda a Jica, para que o bandeirante não confundisse caridade com outro sentir. Jica Lisberta foi logo dizendo eita Fatima, que nosso veinho é purtigido de Ogum, saberá si fortalicê. Ambas, pasmadas de pura ternura, olharam Adele, que entrou nesse momento por detrás da cortina plástica, pendurou a túnica para o lado de fora, acionou a bica e tiritou. Por um vão, as mulheres olharam a magreza da moça e ruminaram, as duas, qual poção lhe administrar, que não ferisse a melancolia porém, devolvesse um grau de calor àquela alma de artista. 

 

Aurélio apareceu na porta da cozinha, olheiras fundas. Sem cerimônia, perguntou se não lhe arrumavam alguma beberagem de dormir, sentia-se precisado. Fátima foi atender. Hortelã e abacaxi aninhariam qualquer ruminação. O mesmo fortificante, com uma rama de anis estrelado, a senhora lisboeta ofereceu a Guairacã que agradeceu, de humor leve. O velho bandeirante tomou dois goles e mergulhou em seu berçário de narval. Já Aurélio teve que dar com uma Adele de túnica colada ao corpo, cabelo pingando, parada à entrada da cozinha, onde o sol refletia sua nudez. Lembrava uma estatueta de jade da deusa Kuan Yin[1]. Ali ela ficou, tocada pelo calor do fogo. De cócoras, aceitou um naco de pão com gergelim que Fátima lhe estendeu sem palavras. Para a pintora, o licor de jenipapo seria mais acertado que hortelã. Com a desculpa de que o velho Guairacã dormia, ninguém falou. Aurélio aceitou um pedaço de bolo de fubá. Lá do poço, se escutava a doce voz de Jica Lisberta a evocar Nzambi[2]. Aurélio levantou-se, quase sem ser notado. Subiu cada degrau como se fossem vinte. Esperava. Logo, Adele quedou-se ao lado e lhe pegou a mão. E foram, os dois, até o mirante. Ninguém fique pensando mirabolices, que para tudo há tempo certo, também necessidade de autorização alfandegária. Ao entrarem no aposento, Adele o convidou ao leito e pediu, deito-me nua sobre ti e tu dormes, está bem assim? E foi isso, um fio de água a escorrer pelo pescoço, um quase nada de peso, um frescor, que os uniu nesse primeiro contato físico, duas horas de sono profundo e uma afeição para sempre.  

 

Juanita, depois de uma noite e meio dia na cascata, tomada por profundo silêncio, retornou à Pousada como se voasse. Também ela foi à cozinha. Fátima, que desfiava o bacalhau, pensou camomila. A noviça aceitou algum bago de uva como acompanhamento. Uma réstia de sol brandia o coração do velho Guairacã, que ressonava a miúdas. Não se tratava de embaraço, era tão íntimo que Fátima, cúmplice no olhar da freira,  saudosa daquela bela Helena que deixou em Lisboa, convidou a moça para o quintal, já que vinha chegando a Jica com as couves, as cebolas, os pimentões, os ovos e seguiria com a feitura da refeição. Aquele entra e sai dava mesmo um valsado, pensou o patrão a sorrir. Jica lhe sondou, estava bem o velhaco.

 

A jovem religiosa falou do filho morto. Fátima escutou e sentiu falta imensa dos gatos... sabia que a enfermeira Matilde cuidaria, mas eles logo achariam outros telhados... a escutatória floriu. Lá pelas tantas, aquela revelação da Clarissa de Francisco. Fátima foi sincera. Do que via naquela herdade, cada um tinha seu Jesus, sua Maria e seu José, confundidos a Lampião e Maria Bonita. Não parecia que precisassem de capela ou convento. Que a moça tivesse mais apreço pelos contatos que fazia. Sentisse o cantar da cachoeira, por ele só, sem Oxum, Santa Bárbara, sem fantasmas de nascituros ou conquistadores de barranca. Juanita precisava tomar a vida com as próprias mãos, isso sim. Não era questão de largar as irmãs ou a crença, mas cada uma achar seu plano de voo. Os rezos eram, mesmo, bem bonitos, serviam de unguento. Que elas seguissem a rezar. Que Juanita cuidasse, sobretudo, dos momentos de cair de joelhos. Atentasse, com quem é que falava, se santo ou sujeito à toa. De certa forma, os dois lhe privavam da própria luz, guardada sob o velador. Juanita foi ficando cada vez mais pálida enquanto era sabatinada. Quis assim, tomou. Fátima até pensou vai me execrar, ora pois... a freira, contudo, abriu largo sorriso, como se lhe desatassem o espartilho. 

 

Letícia e Magda puseram as caritas na janela, ainda com as cabeças descobertas de dormir. Juanita, delicada, decidida, desceu com cuidado o véu do hábito. Os cabelos, aparados até o couro, revelaram-se louros. Não se fez de rogada. Desamarrou com vagar o cordão da cintura. Ainda havia a roupa branca de baixo. Juanita parou. As meninas, lá de cima, parceiras, jogaram os tecidos cinza, os cordões, a roupa branca, em profunda reverência. As peças vieram assentar, comportadas, na tina de lavar. Quem gostaria de pintar aquele quadro seria a Adele.

 

Suave, bate o coração

Mesmo verso amarfanhado

Vou te guardar nesta canção 

Feito cravo desfolhado

 

Dorme, bom amigo

Que o novo dia já vem

 

 

 

 

 

 



[1] Deusa da misericórdia e compaixão, ouve os lamentos do mundo, ama incondicionalmente, protege, cura. OM MANI PADME HUM.

[2] A representação de Deus no Candomblé

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guairacã 12







12 Meados

 

 

Mais dois dias e o catajeca seguiria para outra rodoviária, assim fora contratado. Garnizé sempre ia mais vazio do que chegava nos retornos de excursão. Sentia-se borboleta, a por seus ovos e voar. Dessa vez, era quase certo que os passageiros ficassem no Riacho, aquele lugarejo esquecido e achado. Eram gente sem eira, sem beira, com algo de decência. O homem não quis apressar rio algum. Saiu cedo, foi lavar-se na cachoeira, mais dolorido na coluna do que era comum.  

 

Lá, encontrou Adele. A moça vestia uma túnica branca e estava nua por baixo. Era tão magra que não inspirava olhares luxuriosos. Ela olhava para uma pedra, longe o suficiente, sem piscar. Um lagarto olhava na direção dela, sem olhar. Media, o réptil, uns dois metros, parecia pesado, a aproveitar o sol que nascia, imóvel. Um caderno de desenho descansava no colo da moça, o lápis a diluir-se em um movimento dengoso na mão esquerda. O bicho recebeu um nome, desenhado sob sua representação. Alfeu.

 

Garnizé, dos dias em que conviveu com a estranha trupe, sabia que era melhor manter, daquela moça, a mesma distância que o lagarto elegante se permitia. Seguiu um pouco adiante, onde poderia ficar de calção sem ser visto. Guairacã já havia lhe falado da flora, da fauna do lugar, que não representavam riscos, a menos que o freguês fosse se meter onde não era chamado. Aquele lugar que escolheu, Garnizé já estivera por ali. Pôs a cabeça sob o braço fraterno da cacheira, sem pesar. Mais um pouco e ficou em pé sob a ducha revigorante. Inclinou as costas, para que a água fizesse o trabalho com a dor. 

 

Que inconveniente havia, caso decidisse ficar, ele também? A casinha no final da alameda era pequena o suficiente, grande o suficiente. O aluguel, simbólico. Fizera camaradagem com Seu Ademar, carpinteiro, viúvo há seis meses, sem intenção de outro par. Um amigo parecia mais acertado que outra mulher. Ali, Garnizé refletiu, se poderia ter um cão, dividir um pito, uma cerveja, que os dois iriam tomar lá com a Jica Lisberta. E também havia a dona Fátima, a primeira que avisou que dali do Riacho não mais sairia. Garnizé levaria gente do lugar para as rodoviárias circunvizinhas, a piqueniques, arraiais. Traria gente à Pousada. Ainda tinha tempo para aconselhar-se. Quando o corpo esteve vivo o suficiente, o motorista do catajeca deitou em uma pedra, lagarto humano. Esqueceu, dormiu.

 

Havia aqueles para abraçar, outros para convidar a seguir rumo, outros, a flecha rezaria. Era olhar o marco do Riacho, a contar três mil e duas gentes, se era bom acolher mais nove. O velho Guairacã segurava um bastão que lhe servia de bengala, diante da placa de bem vindo. Tinha parado o objeto sobre o ombro esquerdo, no início da alameda, onde o lugarejo fazia a bifurcação para Pedra do Ingá. Ali, parado, ele se deu conta de que não era Deus. Era um cisco no olho de Deus, com certo carinho. Não podia ele atar ou desatar o progresso, o poder de escolha dos outros. Andava muito habituado a esvaziar logo a Pousada, tornar aos monólogos com Gilceu, refugiar-se nos cheiros de almoço da Jica. Nada impedia daquela arenga persistir, mesmo que a casa permanecesse cheia. Fungou e voltou para a Pousada. Juanita não lhe saia do juízo. 

 

Gilceu, sempre imperturbável, havia se deslocado pros lados da cachoeira. Espiava, tímido, o amigo que agora tinha o nome de Alfeu. Viu o lápis a dançar, hipnótico, nos dedos daquela dona que todo dia gastava um tempo ao seu lado, no corredor da Pousada. Um golpe de mestre, ele atravessou a perspectiva da mulher e foi logo enquadrado. Freneticamente, Adele começou a registrar a presença do amigo verde, a murmurar coisas doces, num idioma tão elegante que só Aurélio pode compreender. 

 

A magreza não era motivo para que o paleontólogo desviasse os olhos das pernas, braços, do seio quase descoberto, dos lábios que se moviam sem som. Ele estivera sob uma ingazeira desde a madrugada, não pudera dormir, por conta do enigma do sapato de cento e cinquenta anos. Discreto, o rapaz não foi descoberto. Viu Juanita chegar primeiro, viu o velho Guairacã encantado, viu Adele. Ela não era nenhuma Perséfone, ele tampouco tinha pendores para Hades. Já haviam se cruzado algumas vezes, nenhum dos dois em posição antagônica. Não falaram, é certo. Também não olharam um para o outro. Ela, naquele mundo dos melancólicos; ele, com as pedras que devem rolar. 

 

Juanita seguia a rezar, alto o suficiente para se ouvir amarrei um fio vermelho no tornozelo d’Ele, a ver se o aproximo, de volta ao solo, para junto das bizarrices das quais Ele se compadece. Vem me tomar em seus braços, Resedá, que me sinto só. Está tudo bem, eu sei. Qual santo fez hoje a homilia iluminada? Qual pastor de ovelhas entoou água e chamas? Qual orvalho, sombra? Qual silêncio? Qual cirurgião concluiu seu apêndice supurado com êxito? Qual sanatório teve manhã sem tiros? Ah, escumilha das escumilhas, tem compaixão. 

 

Aurélio, mais ouvia a cantilena de Adele, mais lhe descia pelas pernas uma mornidão perigosa. Humanos amontoados, pateticamente amontoados, coitados del’s, bando de asteroides, caídos no solo silvestre das cidades por nascer. A velha Sael não é, nem de longe, os verdes água de Kiol e é bonita, torpe e bonita. Não conheço Ionesco. Temo que a palavra dele é meu próprio hangar na Caledônia,  o sal de Cartago. As cadeiras[1].  Que tal enveredarmos, lagartos, por um desses rabos de galo do céu, a ver se encontramos o gineceu amarelo? Deixamos ele sem dormida por um mês. 

 

O movimento do lápis deu em Aurélio. A moça trepidou. Alfeu entrou na água, Gilceu se mandou. Garnizé deu consigo já bem seco, vestiu as calças, mal abotoou a camisa, calçou as alpargatas sem calçar e saiu logo, como se lhe picasse a muriçoca. 

 

Quem ficou em seu lugar foi Juanita, sem piscar. Algo de transe.

 

A noite vem chegando, Menino Leo

Mais um dia que o Universo te deu

Sou alguém de longe, viajante

Venho em nome dos camafeus do céu

E também da Terra, do mar

Que em todo lugar tem pelo menos um

Pra aliviar as canseiras

Os sustos

Pôr luz

No caminho de Leo

Do copo d’água

Leo da colina loura, Leo do copo d’água

 

 

 



[1] Peça de Eugene Ionesco

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Guairacã 11





O cuco

 

O cuco atravessou o Saara por dez vezes. A fêmea, a ira a lhe ferir, entregou a cria à sombra. O cuco atravessou o Saara por nove vezes. O macho, morto em combate, esperava pela dama, empoleirado sobre o gradil da ponte. Iam os dois, no momento certo, catar o filho que desgarrou. Enfrentariam correntes, tronco, por duas migrações. O cuco atravessou o Saara por seis vezes. Afundado em lamaçal, o diabrete tomou para si dores que não lhe faziam jus. O cuco atravessou o Saara por cinco vezes. Um dia, os pais o acharam, era a vez de número quatro, o cuco atravessou o Saara. Cansado de guerras, revides, o pássaro aluou. O cuco atravessou o Saara por três vezes. Sem esmorecer, macho e fêmea se revezaram em voo vertiginoso. O cuco atravessou o Saara por duas vezes. A fêmea, acolhida por um sino de bronze, passou a rezar Filhas de Maria. O cuco atravessou o Saara. Enfim, reconduzido ao espaço entre duas palavras escritas, o macho a dez mil metros de altura, ao sabor da corrente, o cuco apontou seu lápis e cantou cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco, cuco. A conclusão, a primeira série de fábulas, o cuco, mais dez travessias, agora viria ao Gobi, ou à Pousada do Riacho, é o mesmo.

 

Ajoelhada à beira do aguaril, Juanita deu com o filho sangrado. No olho da mata, a imagem que se apagava, o homem que a encontrara sobre as folhas, tão gentil. O homem que pegou a suaçuboia com a mão e a devolveu ao galho, para depois tocar-lhe o seio pequenino, ela toda como veio ao mundo, a suspirar. O homem que lhe plantou um passarinho, sangrado antes de revelar a cor. Sabemos que foi aborto que a natureza faz. Cumpriu a sina o bicho, teve suas asas de volta, virou sauá. Nem dele, nem do homem, Juanita guardava saudade. Queria ter onde ficar.

 

Andava por ali, claudicante, o velho Guairacã. Ao ver a moça de joelhos, uma força nutritiva o chamou para perto dela, tão mimosa. Ficou em pé cinco passos atrás, como guarda costas de príncipe regente. Um imenso olho piscava, sereno como as palhas da manjedoura. O Natal e suas cestas de deserto. O olho aguardava, pacífico, a força que chega, para reavivar a lamparina. Ventos amenos traziam também água, a princesa dos mananciais. Tudo é o que é, pensou o velho da pousada. A Senhora das Matas piscou o outro olho. Não se pode jogar cordas no tempo, isso era bem sabido. 

 

Vancê ‘n’um é aquel’ amor

Que meu coração tem esp’rado

Se fora, amado sonhador

Já t’rias m’avisado

 

Vancê ‘n’um é aquel’ amor

Que meus escritos tem guardado

Se fora, triste trovador

Já t’rias germinado

 

 

 

 

sábado, 25 de outubro de 2025

Guairacã 10





10 – Rosário de Lulé

 

O trabalho de um contador de histórias é como um calango sob o vaso de plantas. Observa, tem ao lado uma caderneta e espera novos pedaços de batata crua e ovos, a cair em sua boca como que por encanto. Um carinho na cabeça também serve. Desde que o barulho da roçadeira se restrinja ao jardim, o animal segue imóvel, inerte, frio. O mesmo ocorre se a moça triste surge do nada, senta ao seu lado e assume a mesma imersão. O contador de histórias suspira, relê as páginas e dá com a mão esquerda na testa. 

 

O contador de histórias gesta seus personagens das funduras dos olhares. Podem ser os seus, refletidos em cacos, o que é mais comum, ou as extraordinárias expressões das retinas vizinhas, disponíveis a quem faz contatos visuais verdadeiros. Para algum leitor, pode ter chamado a atenção nascerem, para esta narrativa, os doutos Juvenal e Gaudêncio. Rapazes dedicados aos estudos, estavam à cata de cordelistas que dariam tom a sua tese. Ao entrarem na Pousada do Riacho Guairacã viu, nas pupilas dilatadas deles, dois lavreiros de narval, Otaviano e Álvaro, portugueses do Algarve, com quem lidara nos mares do norte. Aqueles tempos de pesca e perigo, Guairacã tinha o cuidado de os afugentar do pensamento. Sempre que se dirigia aos sulistas, o bandeirante precisava corrigir a saudação e prometia, toda vez, contar-lhes seus arroubos de Júlio Verne.

 

Ao perseguir o olhar daquele personagem, o que entra em cena e muda todo o curso dos acontecimentos, o contador de histórias sofre. Ele poderia dizer que a comunidade ribeira ainda não permitiu acender esta luz. Por ora, era ir apresentando este ou aquele sujeito, mais ou menos afortunado, mais ou menos fadado, mais ou menos enredado na trama. Se fosse dom, o premiado alumiaria a página. 

 

Fátima, a lisboeta, trouxe na bagagem livros e notícias para Guairacã. Tratava-se de um compilado de poemas obituários, em três volumes, escritos pelo finado Mariano Lole, para um folhetim da capital. Outra amizade antiga, dos tempos em que Guairacã fazia seu desjejum em uma pensão, a Flor dos Cavalheiros, na cidade de Lisboa. Foi lá que o velho bandeirante testemunhou o enfarte de um homem, diante da xícara de café. Viu também o prestimoso socorro, prestado por Lole à vítima. Naquele mesmo dia, Guairacã tomaria um navio para o Brasil. Não mais perdeu o contato com aquele poeta estranho, amável e um tanto sinistro. Até perder.

 

Descansa em paz a minh’alma

Nas espumas de Portimão

Afortunada, mar de manto

consolou meu coração

 

Santinha das minhas chagas

Montada em um burrico

Eu te vi, praia distante

Vou para ti; aguarda 

 

A irmã Letícia, pela manhã que raiava no Riacho, puxou o rosário. Não era seu costume, preferia sussurrar à Mãe seus pensamentos de menina, enquanto Juanita impunha ritmo às contas. Arrependia-se, por ter deixado o mundo para trás duas vezes. A família, na casinha de Jericoacoara, foi seu primeiro adeus. Montada em um burrico, adornada por uma mantilha azul que lhe cobria os cabelos, quis o encontro com a luz, que vira mais para sul. Para os pais, uma santinha. A mente pregara-lhe alguma peça. No caminho para esta luz, desenvolveu episódios epiléticos leves, invariavelmente socorridos por passantes amáveis. Por conta da aparência, era ao padre da localidade que a levavam. Assim é que a menina, pelos dezoito anos, acabou internada em um convento, onde encontrou Juanita e Magda. No derradeiro episódio que sofreu, Letícia rezava as vésperas, entre suas inseparáveis companheiras de cela e fé. As noviças tiveram permissão da abadessa para acompanhar a doente ao centro médico, ala psiquiátrica. 

 

Em revolucionária atitude, já recuperada a irmã Letícia, Magda propôs que as três não voltassem mais à reclusão. Destemida, missioneira por vocação, Magda sonhava a oportunidade de servir em alguma comunidade ribeira, tratar de gente, precisada de sutura, cataplasmas e um pouco de religiosidade. Embora o dinheiro que tinham, pouco, fosse do convento, consideraram usa-lo para bilhetes de viagem, somente de ida. Eis o segundo adeus. Foi então que Letícia conheceu Juvenal, no pronto socorro da psiquiatria.

 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Guairacã 9






Fósseis, fácies

 

 

Estava mais para pista que para fóssil. O sapato de cano alto guardava dentro o esqueleto de um pé masculino. Não havia para que supor. Talvez eles fossem, mesmo, paleontólogos de meia tigela. Sem esmorecer, Aurélio deixou a imaginação aproximar um teiuguaçu de uns dois metros, dentes pequenos e pontiagudos. Quem sabe escassez, talvez raiva, a criatura partira a perna do adversário na altura do calcanhar. Esses homens arrogantes, tomou o merecido. O sapato, datado pelo caminho da arcada, muito uniforme, coisa de cento e cinquenta anos da ocorrência, pediu alguma intenção póstuma. O rapaz resmungou por longo tempo com o artefato nas mãos. Na pesquisa atual da equipe, sem insumo do PROASNE[1], não havia necessidade de respostas, sequer perguntas, não haveriam de prestar contas sobre seus triunfos ou fracassos, tampouco havia público sádico a querer denegrir sua reputação. Se fossem, os três, encontrados na mata do Riacho cento e cinquenta anos adiante, somente três pés de sapatos e três restos de esqueleto, pouco se diria a respeito. Ou nada. A aparente liberdade do dever lhes permitia voos criativos. O ideal, primeiro, preservar todos os tipos de vida, garantir a vida da água no planeta. A consonância entre vítima, vilão e aquífero subterrâneo viria, o tempo era amigo.

Aurélio deixou o achado sobre a escrivaninha, devidamente acondicionado, também os dois colegas, em sono profundo, e saiu para o corredor. Os moradores, dali a pouco, concluiriam a sesta. Tudo bem quieto, exceto pela chuva grande a escorrer dos telheiros. 

Sentada ao lado do vaso de plantas, Adele espiava Gilseu com sutil encantamento. Já vira lagartos antes, mas aquele tom de verde da pele do animal a deixava perplexa. O que mais a chamou foram os olhos. Como afirmar a ausência de sentimentos? A moça verdadeiramente esperou que o animal falasse com ela. Queria respostas para um milhão de perguntas, todas inúteis, mais os dias se empilhavam uns sobre os outros. Aurélio poupou a mulher de mais um turbilhão, sem o saber. A forma como ela implorou companhia, um único piscar, fez Gilseu mover-se para a cozinha, a tomar ares, não tinha intenção de  testemunhar ato algum. Invisível, feito camaleão, o animal mergulhou pelas escadas e logo estava ao pé de Guairacã, que lhe coçou a cabecinha e o deixou em paz, não sem antes ganhar um ovo inteiro, oferecido em plena boca. 

 

Os primeiros movimentos da pousada, livres do dilúvio de fora, foram tímidos e se limitaram à sala, onde havia mesa posta para sucos e biscoitos. Jica deixara, sobre um console, um baralho, uma caixa de gamão e outra com um quebra-cabeças antigo. Havia superfícies para armar os três jogos. 

 

Embora amuado, Aurélio aceitou se juntar aos colegas para uma tertúlia. O violão grave de Eurico deu ao trio base vigorosa, que lhes permitiu várias improvisações. Naquele final de tarde, a valsa canção pareceu a melhor forma a soar, transcendia o mero entretenimento. Gaudêncio e Juvenal, afeitos ao bailado, dançaram primeiro com Jica. Fátima, sutil em suas nostalgias, logo revelou um modo de pinicar os pés no assoalho que, se se podia dizer assim, tocou fogo ao coração do velho estalajadeiro. Guairacã se pôs a valsar com o grupo, alegre como há muito não se via. Não demorou muito para que as freiras parassem de enxergar demônios onde havia elementais satisfeitos. Por intermédio delas, uma roda se formou e quase se esqueceram do jantar. Os pares se alternavam no centro da roda, acompanhados por palmas e caloroso incentivo. 

 

Acostumada aos movimentos de domingo na casa, Jica havia adiantado um belo caldo de peixe, que combinou servir pelas vinte horas. Nenhum conviva ousou tirar uma freira ao centro, o tabu cantava mais alto; as moças se contentaram com os volteios em seus lugares na roda. Nenhum conviva insistiu para que Adele se juntasse a eles.

 

Após o jantar, todos participaram das arrumações da cozinha e da sala,  Jica e Fátima agradecidas, por poderem desfrutar do final do arroz de leite. O grupo estava convicto de que a hospitalidade da Pausada do Riacho excedia as expectativas. Por um lado, isso era bom para o espírito das trilhas. Por outro, poderia dificultar o desapego. Os dias, fluidos, incitavam o convite da partida. A nenhum dos hóspedes Guairacã aplicara a lei, que consistia em receber o estrangeiro, o diferente, o novo, oferecer-lhe comida, bebida, banho, abrigo, sem nada perguntar até que se vissem saciadas as  necessidades. No dia seguinte, caberia perguntar a cada um, a que veio. Disso dependia a saúde do Riacho.


De pé de orelha, com Zé Tônico

Conto meu causo, (lhe) peço instrução

O burro, manso, meu velho amigo

Convida à vila, no Bom Rincão



[1] Projeto Água Subterrânea para o Nordeste do Brasil

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Guairacã 8

 







8 – Compromisso

 

 

No episódio anterior, deixamos dona Fátima, a lisboeta, mais a Jica Lisberta aboletadas com panelas, chaleiras e arroz de leite. Quem se chegou a elas, pouco antes do almoço amansar, foi Eurico paleontólogo. Não, não tinha fome, um suco de seriguela caiu bem. Naquele léu e créu da pousada, ele ficara por redigir as anotações de campo. Trazia consigo, dentre outros objetos, um pé de sapato dentro de um saco plástico, a ficha de identificação no sobrescrito. Uma papelama, presa por barbante, um caderno de espiral laranja, um lápis apontado a canivete, um lado azul, outro vermelho.  O moço, mais do baixolão que da Pangaia, sonhava algo inusitado. Sabia da riqueza que catalogavam, o quão úteis eram as descobertas que teciam. Uma paixão secreta, a cantiga portuguesa. Sentou-se no batente da cozinha que dava para o quintal, sem cerimonia. Sacou do pinho, que buscara na estação de trem naquela manhã. Colado ao peito, de tão grave, o baixolão lhe deu um ar borracho. Eurico, muito belo com seu nariz adunco e sotaque desconhecido, sussurrou, a voz pequena. 


Ao sair de "dei" perdi um dedal,

Com letras que dizem: "viva Portugal"

Viva Portugal! Viva Portugal!

Ao sair de "dei" perdi um dedal!

 


Fátima, olhos compridos, talvez lampeiros, ecoou a quadra. Jica, a linha estirada, anzol engatado no xaréu, seguiu de colher a girar o arroz, estava tudo quase no ponto de servir. Gostou na hora daquela cantoria e achou bom que não fosse o Jordano paleontólogo, havia de enciumar. Sem descuidar do ofício novo, a contracantar, Fátima foi à copa, enfeitou a mesa com um pequeno arranjo de mãe-de-milhares. Alinhou pratos, copos, guardanapos sobre toalha de bilro. Jica veio logo atrás, a empunhar panela de barro fumegante. Para beber, havia água do poço duas vezes ferventada, suco de graviola e leite, também de seriguela. 


Os outros hóspedes foram lavar as mãos, primeiro as freiras, depois o moço ex detento, depois os acadêmicos do sul, depois Garnizé. Veio um casal da vila filar a boia, famosa na região, bodas de prata deles. Com o restaurante de vinte talheres, Guairacã podia pagar ordenado de gente a Jica. O estalajadeiro ia anotando, no quadro de giz que dispunha na calçada, quantos convivas estariam naquela tarde. Quando chegava o vinte, refeição somente no dia vindouro. Jica guardou as porções, generosas, para Aurélio e Jordano, que se demoravam nas andarilhações.

 

O aroma da refeição, os ecos da cantiga. Gente reunida, sem saber ainda o que une, atrai. Sagrado. Algo de bom há em mesa posta, em encontro entre sotaques lngínquos. No ar, na madeira aplainada, nos pregos que mantém a mesa ereta, no centro da sala, cheiro de chuva por cair, acre. Sagrado. O sangue a correr pelas veias, um rugido interno a anunciar apetite e vontade, gemido livre nas vias úmidas de fruta colhida no pé. Sagrado. Não era devaneio de ninguém que aquele acordo coletivo tomaria ares de celebração. Hospedaria tinha seus encantos que, em geral, duravam o tempo da estada. Ali, um suspiro de futuros se via, no vão de flecha envenenada. Sagrado. Quieta no seu canto, dona Fátima espiava cada rosto, cada ai após uma garfada. Jica conhecia o estômago humano. As duas cederam, de bom grado, lugar aos dois meninos da Jeruza, foi saberem do arroz de leite e viraram em dois cabritinhos até a mãe deixar almoçar no seu Guairacã. Ninguém queria as lombrigas atacadas. 

 

Quem primeiro puxou prosa foi Juvenal, professor de literatura comparada nível um. Foi direto ao ponto e perguntou sobre um autor recomendável de cordel na região. Um silêncio perfilado e logo dois nomes vieram, Patativa do Assaré e Ariano Suassuna. A Jica lembrou-se de Bráulio Bessa. Anônimos, moradores do Riacho, pelo menos cinquenta cordelistas, entre solteiros, casados, dos que moldavam seu próprio papel, foi a Jica quem informou também. A pergunta, feita por Otaviano, vinha não de não conhecer o material, mas em atenção aos leitores, o objeto da pesquisa. Otaviano tinha em mente entrevista semi estruturada, jogava o verde para colher maduro e um pouco para se mostrar. O colega, Gaudêncio, torceu o nariz. 

 

Os seres das águas não se rendem, arrumam seu jeito de exigir atenção. Uma tormenta assombrava o início daquela tarde. Poderia intentar a mata e sair de fininho, sem ruído. Era esperar. As freiras, que se alimentaram feito passarinhos e não provaram o arroz de leite passaram, agarradas uma a outra, diante do baixolão encostado à parede, na cozinha. Tiveram curiosidade, pelo som, pelo instrumentista. Eurico, ainda a saborear a sobremesa, olhou aquelas meninas e sentiu frêmitos de tocar para elas. 

 

Sentadinho na sua cadeira ao lado do fogão, Guairacã fingia dormir. Algo de dengoso, em meio ao vento forte subia, desenhava o delta. A chuva, nada de cair. Na garganta, o caminho das frutas. 


A água pura deu satisfação ao trato digestório de Aurélio, cismado diante do sapato e da bica. Tão velho aquele artefato, como as terras daquela terra. Outras satisfações, tão poucas, tão fundamentais e urgentes o faziam pensativo: e aquela moça tão pálida, a vestir preto naquele rincão? Qual história haveria de imaginar? Qual um dois três e o gato, telhado, janela, legião estrangeira? As pedras, caixa e servidão? 

 

Guairacã, suspenso entre a terra e o raio, pensava no que fazia, afinal, aquele bando de bandeirantes, acolhidos junto à cachoeira. Onde a Paraíba? As freiras? A mulher obesa de Lisboa, os profissionais? A moça de preto? O réu inconfesso? O dono do catajeca? A Jica, o Jordano das cordas agudas? Qual um dois três e o Gilseu, lagarto imóvel sob o vaso de que planta? Sagrado. Algo de bom há de haver em cada abrir de invernada, micro ônibus encostado na calçada, tarde ensombrecida, um arquivo onde se vê notas em azul, monossílabos e hipérboles. Até onde se vai nas escavações ? Até onde se chega, na certeza da psique mensageira? No amor que não vinga, na empatia corda-bamba? Saberia um dia, o velho bandeirante? Até onde o respeito aos fósseis? A quem interessar possa? Qual testemunho, exemplo? Sim, a tarde não chovia, era sexta-feira de arroz de leite, ou será domingo, o tempo não pararia, calma, turvo, cultivado no ranger da cadeira, no soprar teso, no cheiro de café a esturricar no coador. Guairacã agradeceu o compromisso com a pousada, rincão lembrado de Deus. 

 

coração, rio

verso vertiginoso

o olho adamastor

 

coração, rio 

Fonte da Corredoura

segue seu curso de amor