quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Guairacã 23

 



                                   Histórico, sede da primeira companhia de abastecimento do Recife, Chalé do  Prata.



e foi preciso encontrar os entes do Recife

 

 

O curso das aguas do Riacho, seu desenvolvimento, seu delta, sua cumplicidade com o Velho Chico, a capacidade elétrica do rio, o quanto alimentava aquele pedaço de terra que abrigava seareiros, catingueiros, gente simples, nem sempre sã, tudo mote de pesquisa e mais, criou açude no coração de três paleontólogos, já havíamos esboçado tal sentimento. 

 

Jordano lia suas anotações enquanto mantinha chamada de vídeo com Eurico e Aurélio, este ultimo um tanto aluado. Os três sabiam que Aurélio representaria melhor o artigo na bancada, porém, trato é trato, nenhum deles queria ribalta, ou eram os três a obter titulo ou outra ocupação. Trocaram mais algumas ideias, releram juntos as considerações e estava bom, para uma primeira submissão acadêmica. Todos sabiam que as finanças do trio estavam a mingua, era necessário algum insumo, vindo de algum lugar. O auge do trabalho em tela seria defendido no Rio Grande do Sul. Faltava um titulo sintético, potente, ainda havia tempo para este arremate. A banca da UFRPE já os conhecia e sabia da importância de suas escavações. Jordano havia se hospedado em uma pousada no bairro Dois irmãos, não tinha intenção de demorar-se mais que o necessário na cidade pernambucana. E havia a Irmã Leticia. Ela descansava em um quarto ao lado, com o menino Carlos, outra situação que daria uma tese ou pagina policial.  

 

Chicão foi caminhar pelas redondezas, o espaço verde lembrava, de longe, o antigo lar no Riacho. Que maçada aquela historia da Caviúna, agora que a família ia se assentando, até trabalho na feira havia para o menino, ele tão bonzinho e ordeiro.  O pai de Carlos procurava também um lugar, que pudesse olhar seu filho, orientar o atual estado de coisas de sua saúde. A UNINASSAU se apresentou como possível bandeira. Era visitar as Graças, ver se encontrava trabalho com suas rosas e moradia que coubesse em seu bolso. Chicão precisava de uma certeza que não viria, senão, de seu coração. Eram duas da tarde, o almoço fora frugal, mesmo assim dava para caminhar por horas sem cansar. O que mais o consolara, em toda tragédia, fora a aproximação de Leticia, espécie de ninfa, anjo solar. Nada de confusões, ilusões, era isso que repetia sem cessar. Era uma santinha, a apaziguar uma situação que, de outra forma, teria custado a desgraça de Carlos e também a dele. Chicão se lembrava da menina morta, como ela dera alegria para seu filho. Que tortuoso fim, que Deus a tivesse num bom regaço. 

 

Ao concluírem a conversa sobre o artigo, Jordano desligou a maquina e recostou-se em um travesseiro, a pensar que tudo soava como senha fraca e não seria ele, no momento não, a possuir o toque de Midas. Contentou-se em não olhar para trás, como deveria ter feito Orfeu. Tal lembrança causou comichão nos dedos de ambas as mãos. A vontade de tanger as cordas foi maior que ele. Consultou seu saldo de poupança no celular e levantou-se, passou agua na face e cabelos, ajeitou a camiseta meio amarfanhada e foi para a rua, a cata de uma loja de instrumentos musicais. 

 

Jordano, ao entrar em uma espécie de armazém, embasbacou. Na parede, pegando pó, um regional todo: cavaco, bandola,  violão tenor raro, um Tagima acessível ao seu bolso. Teve o impulso de levar tudo, mas ficou com o ultimo, mais lucido para a atual situação. Ali mesmo, sentado no degrau da porta do armazém, sem que o dono se exasperasse, ao contrario, quis contratar o moço que chamou clientes, o paleontólogo compôs uma serenata melancólica, a qual chamou Guerda.

 

Lá longe, pros lados de Santa Rosa, RS, Juvenal dava os toques finais a um cordel. Batizou-o O caso de Carlito e a menina morta. Um enredo tosco, curioso, que envolvia um sapato, datado de cento e cinquenta anos, com o esqueleto de um pé dentro. Além disso, um punhal cigano encaixado na sola, o mesmo que esburacou a menina morta.

 

Seria bom que alguém lembrasse o nome do carpinteiro do Riacho. Zica Lisberta, a pedido do guardador das chaves, encarregara o homem de quebrar a parede da cozinha, aquela onde dormiam mais de cem milhões em moeda nacional, na forma de diamantes. Um saco até discreto, se se pensar em um quilo. Guairacã envolvera o tesouro com serragem, então, quando caísse, não levantaria maiores curiosidades. O velho matreiro invocava seus protetores enquanto o cimento ruía. Ele estava perto do estrago, para  puxar o saco com a bengala, quando se revelasse. Dito e feito. O carpinteiro se distraiu por instantes, a rir de uma piada de seu novo amigo Garnizé, aquele que trouxe a excursão. Ambos, galhofeiros, deixaram passar o sutil movimento. Gilseu teve participação no episodio, parando diante da parede furada a enrolar sua cauda em forma de caramujo. Nesse interim, o saco foi empurrado para baixo do cadeirão; o velho se sentou feito monarca, tomou o pequeno volume como quem pega o jornal, enfiou sob a manta e tornou a ficar em pé, coberta sob o braço esquerdo. Tranquilo, a assoviar a Serenata do Adeus[1], foi à recepção, abriu o pequeno cofre sob o balcão e o saco sumiu novamente, até que ganhasse nova serventia. 

 

Caros amados dos pampas

Se falo sem viço tropeiro

é que viajei mundo inteiro

E de aguas vi as pedras, tantas

 

Lá pros lados da cachoeira

De calfino e carvalho enfeitada

A pousada namoradeira

Da vila bem populada

 

De agreste e caatinga, só prosa

Um leito assim bem grandioso 

Fez pasto em meu peito de rosa

Marcou-me o papel venturoso

 

Historia tem desses caminhos

De faca, punhal ou vitrola

De moça, menina, senhora 

De sangue, dossel rosmaninho 

 

Desculpe essa gente ribeira

Que mais quereria sorrir

Socorro de trem, intendência 

Só fez de sirene e partir

 

Meus pés calejados de muito

Andaram de fianco pelos matos

Carpiram peleja e defunto

Colheram de salto os sapatos 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Composição musical de Vinicius de Morais

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