
cena do documentário Maria Macaca, UEG, homenagem a Cora Coralina
lata d’agua na cabeça
Adele chegou ao Hospital de Bananeiras ainda em tempo de olhar o céu, um azul esbranquiçado, que ela não costumava ter em sua paleta. Se escapasse daquele aborto espontâneo, pintaria a senhora que viu, na entrada da recepção. Eram quinze e quinze da tarde. Mesmo muito debilitada, ela pode pedir que a irmã Juanita tirasse uma foto daquela aparição com seu celular, caso a senhora desse licença. Deu, bom sinal.
Tudo aconteceu pouco antes da chegada da nova hospede, a Josephine. O feto tomava forma na tela, bonito como é toda estampa da vida intrauterina. Um sentimento devastador ia com a artista, desconhecida a sua força. Se traduzisse com palavras rasas, descreveria dor de estomago, pressão nas têmporas, contrações. A revolução no organismo era, no entanto, a instalação de uma energia que só visita uma a cada mil mães. Estatística inventada, pode variar para mais ou para menos. Nem se pode chamar energia, fluido ou aura ou qualquer palavra cientifica, mística. O que Adele não pretendia nominar era esse folclore que protege a maternidade, nem sempre real, quase sempre um peso para quem não sente o que ela sentiu no ultimo movimento que fez, antes de descer as mãos retas sobre a tela, um gemido grave e dolorido. A peça estava arruinada. O sentimento nasceu assim, vigoroso, como objeto não identificado[1].
Eurico, que tocava violão no degrau da cozinha, foi bem eficiente. Juntou a moça ainda no final do pedido de socorro. Passou lépido com ela porta adentro. Enquanto isso Jorge, que vira a situação do mirante, acionou a ambulância do hospital mais próximo. Em vinte minutos a paciente seguia viagem, sob o olhar sereno de Juanita, cuja experiência de acreditar facultava-lhe bom animo, boa vibração em tons de vermelho sol.
Fatima e Jica Lisberta não tiveram tempo de refletir sobre a situação. Nada de mal, na verdade tudo de bom, um neném pela casa seria uma alegria, diferente de um calango por baixo dos vasos, por cima das mesas. Ambas passaram as mãos, discretas, pelos ventres. Ambas, em se criando bons ambientes, em comparecendo um companheiro, ainda poderiam ser mães. Certo que, para Fatima seria um feito como o de Isabel[2]. Ambas sentiram, quando Eurico passou, a carregar aquela mulher, que a vida é, no mínimo, arte. Nenhuma ousou fantasiar o companheiro ideal ou o filho por nascer; seria perda de tempo, construção inútil de tristeza. As panelas começaram a cantoria para um jantar humilde, visto que haveria quatro convivas no partilhar da refeição. O grão-de-bico seria a grande atração.
A chegada de Josephine deu uma guinada interessante ao final daquele dia. Por conta dela, do seu potencial em tornar o mundo leve e divertido, os curiosos que apareceram, em busca de um furo, de sangue, de drama e erotismo encontraram pessoas sorridentes, calmas, disponíveis para qualquer prosa menos dor.
O guarda chaves do Riacho, diluídas as novidades, foi ter com o Intendente. Não que se apegasse a premonições ou avisos. Seu Guairacã sentiu que o momento era propicio para fazer o que havia para ser feito. Tomou da bengala que passara a usar e ia se dirigindo à saída, quando estacou diante da parede, mais especificamente da flecha, que todos conheciam como envenenada. Acariciou um cantinho dela, como se faz com cabeça de criança. Uns diamantes que repousavam, enterrados naquele ponto, em breve mudariam de dono. Quem não descuidou desse gesto foi Gilseu. Agora, o calango passava mais tempo sobre a mesinha da entrada, o que lhe outorgava visão ampla de tudo o que ocorria na recepção. Mesmo que o bichinho soubesse das pedras – e sabia -, jamais trairia a confiança daquele seu provedor de cata-ventos, que servia bem a todos, há mais de cinquenta anos.
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