a doçura da canção
As contarias de beira de fogão, tão atrativas para Fatima, poderiam soar palavras ao vento em um registro como este, na carona do recurso tecnológico, sem papel, sem capa, sem método, sem ouro de subsistência. Foi assim, animo desarmado, que a lisboeta largou o ultimo grão de bico na peneira, ele ficaria de molho até o dia seguinte. O alimento chegara no trem, ainda não o haviam cozido na Pousada do Riacho. Novidade é sempre novidade, atrai os olhos, o paladar, de alguma forma atrai saudade. Tinham decidido, as duas amigas, preparar um pesto sem tempero algum. Se calhasse, batiam o grão com limão, acertavam o sal e serviam com pão fresco, enfeitavam com cebolinha.
Não tinham trocado uma palavra entre si as mulheres, constrangidas por algo intocável, que estorvava e não saia da moita. Jica permanecia de muxoxo, difícil saber o que ia em seu coração. Sem dar mais sinal que um suspiro, cantou, sussurrado para suas panelas
Doce Maria
Solta teus cabelos
O espelho das aguas vai lavar
Curva o teu dorso, ‘vagarinho
Que ali mesmo, no caminho
Há tanta mão pra te saudar
Doce Maria
Dobra os paninhos secos
O cesto de dormir está limpinho
lavaste na enxurrada
Logo cedo, no quarto de lua
Para o menino descansar
Doce Maria
Segue tranquila para casa
pela trilha do mourão
Jose te espera confiante
A ninar o pequenino que dormiu
Na cuia de seus braços fortes
Olha, que alegria
Quando passas tão serena
Os nazarenos do mundo inteiro choram
Olha, que alegria
Um encanto emocionado
Porque olhas para nós
Era o Jordano, que mandava noticias para Aurélio do Recife. Talvez a tonta da Jica esperasse qualquer agrado. Ainda tinha na mente aquela conversa despropositada com Eurico, sobre um marido, que chega de jornada solitária pelo pampa com um saco de ouro e uma perna de alce, bate os dois contra o tampo da mesa[1] e termina de cuspir o tabaco que vinha mascando. Ah, os homens toscos e bons. Ainda tinha no coração o arroubo que a tomou de assalto e lhe subiu, caprichoso, do peito para entre as sobrancelhas. Poderia ter sido pior, poderia ter descido e esvaído o romance, a ideia de sublimação.
Romance, coisa mais besta, de se tocar ao baixolão, Eurico que o dissesse. Mesmo assim, um sonho tão antigo, tão terra, tão traduzido em letras de canção, em cordéis. O que mais uma mulher de riacho, no oco do mato, poderia almejar. Puxa, todos tem direito a dormir abraçados, Mia Couto[2] tem toda razão. O erro imperdoável da colher de sal no arroz de leite. Assim Jica cismava, miseranda, confusa, quando a Fatima lisboeta desatou a falar da doçura do seu Jose, da lembrança dos gatos. De achar curioso que ali no riacho se os visse muito pouco, feito aves raras. Defendeu também o compositor de versos necrológicos.
Do lado de fora, perto do poço, as mãos vermelho sangue trabalhavam sobre o cânhamo. No ventre de Adele suspirava o nimbado menino, que talvez chegasse dali oito meses, para fincar raízes no Riacho. Ainda não estava certo, se era um filho ou o monstro das anfetaminas. Ela conversara com o pai paleontólogo, sobre ir ao Recife, submeter-se ao pré-natal, cartas na mesa sobre seu passado em Portugal, tempos de Casaredo. Ambos guardaram para si o próprio susto. Todos sabem que conúbio resulta concepção. Todos tem consciência do que seja produzir vida nova, seja qual seja a ideia que se forma a respeito. O instinto de proteger e perder a vida, a pergunta retorica, se há vida após o parto, tudo a seu tempo. Ou vem, do amancebado encontro, um ser muito antigo ou zero quilometro, nem só de bem, nem da treva, mas pode ser. Ele vai se juntar aos demais terráqueos, que lhe servirão de modelo, de guia. Todos suspeitos. Há que se pensar, não são historias inéditas, autenticas. Os anéis pesam, em muitos dedos. Adele e Aurélio não trocaram alianças, juras, compromissos, somente fluidos, um pouco de ternura. Para o sim, para o não, uma literatura farta e forte estava no mundo, viajava por navios, pelas mentes dos homens. Tudo é possível, entre o ciúme e o lírio. Fenômeno ou fé ou arte, ou simplesmente tinta vermelho sangue sobre cânhamo alvo, feito nuvem barco que cobre o sol e muda o curso do dia em menos de um segundo.
As mulheres, na cozinha, olharam para o velho Guairacã, que ficava ali, cismaroso ele também, a gingar na cadeira do fogão. Sobre o balcão da recepção, mais às moscas que hospitaleiro, a opabinia calava, dentro de um aquário de formol. Gilceu, por meios desconhecidos, subira a uma mesinha, que o deixava ver o jardim frontal. Aparentemente, o calanguinho dormia; sua atenção, no entanto, era toda para lagarto de metro e meio, estático, a espreita de algum desavisado que lhe servisse de almoço.
O dia, na Pousada do Riacho, prometia mesmice.
Só por Jorge, aboletado na janela do mirante, a vida doía. Ele lambeu com gosto a palheta nova de seu clarinete. Quando soou Taste of honey[3], algo se quebrou por dentro e o riacho parou de chorar. Um bordão com o trem firmou ainda mais a dor. Gilceu desceu da mesa e subiu as escadas num piscar. A menina morta trauteava pelas aguas, a lembrar do transitório, do que se precisa rezar. Pela melodia, analgésico. Um cartão postal, enviado pelo Aurélio, dava as linhas gerais: a irmã Leticia, o menino Carlos, o encontro com Chicão, a internação da Caviúna.
O que mais se possa contar, fica para o mês primaveril.
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