sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guairacã 17





Longe dos livramentos

 

Chicão pisou em Campina Grande após vinte anos de ausência. Ali, tinha passado curta etapa, em trabalho de semeador. Colocar dormentes em estradas de ferro era um pouco isso. Agora, andava cansado, esquecido e esvaziado. A irmã Leticia, ao tirar-lhe o filho, causa tão nobre, levara junto o sentido de tudo. Chicão deu de confundir-se,  de chamar Janu de Giló. Quando o homem fez a tremelica de Campina para o Riacho, ainda tinha bom animo, mesmo ao deixar uma dama estirada em lapide simples, de carregar o pequeno embrulho a choramingar de fome atado ao seu peito. Difícil, difícil trajeto, que não deu saber o que seria educar um menino com aqueles olhos tão puxados e aqueles lábios sempre sôfregos, atormentados. Chicão tinha algo como que ecoando por dentro, uma usina de bem querer que não cessava, com espaço para todos os que quisessem amorosidade. Com tal alma fértil, a vida do menino Carlos tinha sido, até a puberdade, paradisíaca, livre. 

 

Vamos precisar ir ali atrás na narrativa, ver aonde deixamos a presença desse pai inscrita, o que fazia de decente no Riacho, quais suas relações, filiações, obrigações jurídicas. Como não estamos com tempo de sobra, sigamos inseguros, linha de partida nova, na fidúcia de que se encontre o tino do enredo. Sinceramente, dá a impressão de que o leitor sussurra sigamos em paz, deixemos o passado no passado, contemos o que sabemos, fofoca quem sabe, que já se faz dorida demais esta vida. 

 

Jordano esperava partir na conexão das nove horas. Estava um tanto nervoso, andava quatro passos e tornava por eles. Contava os minutos para rever Leticia. Hora de pico na estação, fim da festa do Divino. Luzinhas ainda acesas avisavam muita fé cega a embalar o povo. O pesquisador demorou um pouco para reconhecer Chicão no turbilhão de cores e bandeirinhas. Só o conseguiu por conta do atabalhoado daquele ser, que trazia um rosto abismado. Teve muita pena e uma estranha vontade de acreditar, Carlos nada tinha a ver com o episodio do aborto. Apertadas as mãos, entendidas as missões, foram os dois homens tão diferentes entre si para outro vagão, que os levaria a Recife em cerca de três horas. 

 

A lembrança de Chicão recaiu sobre o sapato de cento e cinquenta anos, um esqueleto dentro do artefato. A pergunta que o pai fez deixou Jordano embaraçado, se dava pra saber se o morto era são ou aleijado. Aquele tipo de interesse fez nascer prosa fecunda entre os dois. Chicão, era do seu feitio, acolheu Jordano como a um irmão caro. O paleontólogo sentiu a força do afeto, que duraria para depois do trajeto. A prosa fez visitar memórias de mãe, quanta atenção havia naquela relação. Sentiu saudades de coisas simples, como pão de alecrim quente, suco de meloa cantaloupe e histórias de ribeiro, que a mãe lia para ele todas as noites. Em especial, do estimulo que recebeu para correr mundo e ser feliz, sem olhar para trás. Naquele final de manhã, os novos amigos trocaram impressões sobre preservação das aguas, das terras, dos humanos, da construção de estradas a facão e foice. Os homens eram um pouco assim, facas luminosas e ferramentas de ceifar. Falaram, por fim, da falta que fazia uma companhia no leito, da falta do filho. 

 

Lá no Riacho, um pedaço de cânhamo era cuidadosamente estirado sobre um cavalete. Um martelinho tratava de prender os colchetes com esmero. O projeto a ser gestado incluía nudez, um peito quase masculino, vermelho sangue e três hábitos de freira, a cair da janela do terceiro andar. Há tempos, Adele não escutava um instrumento musical de sopro. A manhã, que começou nublada, trouxe um clarinete. A melodia chorava do telhado da pousada. Um sopro imberbe, desesperado, desafinado, queria cantar limpo, na marra. Não durou nada, o suficiente para desabafar. O luto morreu a noroeste. De passarinho, a canção até logo misturava macela e permanganato. Explico. Uma dama estivera a sangrar até morrer, este o fato. O apelo haveria de chegar ao Farol.

Trinta e cinco graus era o tom da mata, úmida, tamas[1]. Uma réstia de sol criou três  sílfides sobre a tela e Adele tratou de riscar o que o céu presenteava. Naquele momento, um monoplano passou baixo, intrometido. A artista achou de inseri-lo no contexto, ao estilo do peixe mágico de Paul Klee. O tempo, generoso, fez durar aquele sol entredentes, o suficiente para balizar o trabalho que viria. 

 

A flecha de Guairacã, por sua vez,  dorme na parede e ele ao lado do fogão. Em sonho, o velho bandeirante se embrenha pela trilha, a cata de um roncador, seta em riste, cercado por pirilampos, percevejos nas ceroulas a enlouquecer-lhe o juízo. O quase delírio, Fatima procurou domar com mingau. O homem, amornado, aceitou a tigela, acalmaria por ora as culpas. Pediu uma garrafa de rum e deu com a mão, não se amolasse a gordinha mais linda de Portugal. Fatima se riu, há muito não recebia galanteio.

 

A hora do almoço trouxe agitação no caminho para a casa de Jica Lisberta. Caviúna, a mãe da menina morta, desesperada, usou a faca de cozinha roubada contra si mesma, de maneira tão desajeitada que espirrou sangue na sala toda. A culpa é vermelho terra. Foi mais a mão que o pulso. Para consertar aquilo, teria que ser no Recife. Então começou a gritaria, que contaminou todas as vizinhas. Por conta da réstia de sol, o alarido batumou o pão, deixou queimar o feijão, Fatima desligou o fogo e o bandeirante a dormir. 

 

Palavras, milhares, águas, água, águas engastadas. Veneno. O roncador faz relato da situação aos companheiros de perímetro. Faz mal dormir demais. A réstia de sol, o calor. A verdade não estava lá, diante da capelinha onde o povo do Riacho ia rezar.

 

 

 



[1] Tipo de energia estudada pelo yoga

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