sábado, 2 de maio de 2026

Guairaca 16







Aguapé do iguape

 

A vida seguia seu ciclo de monção. O barulho da cachoeira era potente, obrigava janelas fechadas na pousada.  Eurico e Aurélio permaneciam hospedados, Jordano tomara o trem para Recife. Havia, na universidade, chamado de uma equipe de Geociências, para estudo hídrico. Ao pesquisador coube averiguar se o projeto contemplava os três colegas, se oferecia bolsa auxílio. Ninguém vive de brisa, quem sabe de cantoria. Pelo sim, pelo não, o paleontólogo levava consigo o sapato com o esqueleto do pé, fóssil cujo valor ele deveria defender em um seminário, caso a submissão do artigo, assinado pelos três, fosse aceita. 

 

Jordano, naquele gesto meio desarvorado da vida, quarenta anos completos há três dias, como que engoliu remédio em dilúvio. Foi assim que se sentiu quando viu a cena de Letícia e o rapaz sindrômico, a acenar do vagão. Parecia que o homem bebera todo riacho de um só gole. Não pode mais dormir direito depois disso. Tanto brilho naquela face de mulher, tanta esperança. Sozinha, sem vintém, a noviça rumava para o Recife, com um problema do tamanho do mundo nos ombros. Para todos os efeitos, ela fugia com um pretenso criminoso, assim a língua do povoado, a requerer justiça. A moça se propusera salvar aquela criatura de pouco valor em terras de ignorância. Do Recife, os dois tomariam um voo para o Rio Grande. A manobra só foi possível porque não havia queixa crime na Intendência e porque haveria o apoio de Juvenal, que poderíamos supor, pretenso rival. E quem falou, em algum momento, sobre envolvimento amoroso de alguma espécie? Ah, as platonices, a encardir os cantos escuros do mundo íntimo. 

 

Se existem enigmas, e são muitos, eles se embalam na gangorra em que nos equilibramos. A jornada é uma gangorra. Esse brinquedo é interessante, precisa de alguém do outro lado para que o movimento seja constante e agradável. De nada adianta ter valores pessoais e não os por em prática. O mesmo se dá na aquisição de  conhecimentos. O que posso argumentar sobre não sentir alegria, escreveu Jordano em sua agenda, assim que o trem chacoalhou sobre os dormentes. Se é gangorra, no máximo sinto euforia, um frio na barriga constante, cólicas. Vou, não quero, vou, desespero. Vou, sem saber se Letícia sentirá carinho por me ver.

 

Algo me faz tomar a dor dos outros, querer confiar nos outros. Algo me faz querer ter uma tarântula de dedos rosa. E isso é uma metáfora. Alegria, tenho trabalhado para fazer as pazes com tal emoção. Só entendo beleza espiritual através da Música, de um dedo dela, já que tem oito, peludinhos. De alguma maneira, argumento algum eu posso sustentar, não quero ilusões. Nesse instante de silêncio ritmado, a esperança me acolhe. Ao menos como amigo, mais um apoiador, Leticia há de acolher. Depois, é depois. 

 

No instante em que falha a escuta, a alegria é silêncio. Silêncio está longe de ser triste, soturno. Silêncio é a grande benção, o mesmo que fez  São José escutar o Guia e olhar por Maria de Nazaré. Desde quando minha religiosidade acordou?  Nasceu a mais linda família da Terra, por conta da escuta. Sou Jordano, não José.

 

Irradiar bom ânimo tem sido exercício diário e aqui eu aplico força pessoal, regozijo. Dou graças, por ter irradiado antes de aprender a irradiar. Irradio porque faz parte dos denodos amealhados em tantas jornadas. Tem sido como recuperar elos perdidos. Mesmo que eu, por capricho, desejasse sombra e água fresca, trabalho, cavoucando. E se as palavras escutadas, cantadas, ditas, escritas, lidas, entram no âmbito da cavoucação, eis uma tarefa cujo apreço, para mim, não tem preço. 

 

Cheguei, pela voz, ao limiar da sublimação. Interessante é que não me conhecem como cantor, poeta, proseador, mas pesquisador das águas. É mais do que qualquer opala que eu tivesse nas mãos um dia (não sei o valor dessa pedra), ou qualquer diadema de enfeitar cabelos principescos, qualquer fóssil. Se, através da palavra, eu posso saber de mim, encontrei o mapa do tesouro que procurava. 

 

O grande projeto, no momento, é que o interlocutor dialogue comigo, escute meus pontos, ponha os seus e, juntos, façamos amor com o conteúdo arrepanhado em um veio fluvial. Lamento, pelos homens que se fazem carrascos tranquilos, ao empunhar a palavra. 

 

Quanto tempo havia passado para nossa Jica Lisberta? Difícil precisar. Sabia-se que o Riacho já estava bem constituído, que a intendência pusera saibro no caminho para a casa de sapé onde morava na ocasião, que seus pais se foram muito cedo e que ela ficou por conta. Não demorou muito para seu Guairacã oferecer-lhe o posto de camareira na pousada. Um sutil burburinho correu pelos arredores, que se amancebariam. Fato consumado é que o bandeirante a queria como filha e foi pai exemplar, exigente e bom. Como o lugar, tão retirado, não exigia documentos ou papéis, ficou a moça sem registro, a receber soldo religiosamente nos dias quinze e trinta, a cada mês. Livro contábil o velho possuía e estava lá, anotado, o primeiro quinze em que a pagou, um brilhantinho que ela transformou em letras de câmbio, auxiliada pelo intendente. O negócio permitiu que a mocinha, algum tempo depois, adquirisse a casa onde agora habitavam a Fátima, Juanita e Magda. Assim, assessorada por dois senhores decentes, Jica Lisberta era rica e não sabia. Que permanecesse desse jeito, simples, coração puro. Quando o momento exigisse, lhe davam o documento de identidade, a escritura e os rendimentos. Enquanto isso, ela passava por uma senhora xucra e trabalhadeira. Só quem se aproximava dela sabia do Espirito decente albergado naquele pequeno universo. 

 

Sim, queridos companheiros de leitura, a Jica Lisberta tinha coração puro. A cada manhã, quando Jordano Guerra adentrava sua cozinha, com ou sem violão, era como se as estrelas do céu lhe cantassem, em coro, chegou o teu homem. Tímida, olhar baixo, não deixava que o outro lhe flagrasse as cintilações e as congas a bailar a salsa no peito. Com um carinho maternal, a senhora punha diante do paleontólogo um bule de porcelana enfeitado com flores de São Miguel, leite de cabra muito rico, o pão de milho recém saído do forno a lenha, a manteiga batida à mão. Enquanto ele ia dizendo qualquer bom dia ou um agrado sobre o clima, os passarinhos, a cachoeira, ela passava o café, iguaria que todos, na pousada e região, muito apreciavam. Sem dizer palavra, Jica ia sentindo aquela malta de índios a defender suas mulheres e crianças por dentro e pensava que assim viveria, até o último suspiro. Não era falta de coragem ou pudor da parte dela, era consciência de que, entre os dois existia o deserto, que o rio evaporara e fora se mostrar mais ao sul. Jordano nunca tinha dado mostras de encontrar nela algo mais que a faz tudo do seu Guairacã. Mostrava respeito, e era isso. 

 

Foi Fátima, a lisboeta, em uma conversa de fim de tarde, a sovar o pão, quem flagrou o sentimento da outra a solidificar-se. Assim, platônico, poderia perdurar por toda jornada. Porém, escapava a alegria do convívio, em especial os dias mais frios, em que a cama compartilhada é boa. Amor assim, guardado, era bom para poetas, e Jica escrevia mais quatro ou cinco palavras além do apelido. A prosa teve inicio quando Fátima perguntou de onde viera o Jica Lisberta. O pai lhe chamava desse jeito, um som que fazia rir o bebê, contavam as vizinhas. Um dia ele foi embora, deixando a menina em companhia da mãe muito doente. E foi dessa mãe, no último suspiro, que veio a absolvição tu estás lisberta, livre daquele sofrimento de cuidar de uma tísica.  Para não virar dedo em ferida, Fátima cantarolou algo que duetara com Jordano dois dias antes. Então Jica se atreveu a perguntar se a nova amiga tinha interesse no violonista. Fátima sorriu de orelha a orelha e contou dos seus mortos, o José, com quem vivera a mais linda história de carinho e o poeta dos obituários, uma tentativa de consolo na viuvez. A conversa não pode se estender por conta do velho Guairacã, que meteu seu nariz na porta, a perguntar se a janta saia, satisfeito com aquelas duas mulheres de boa prosa, fogão e companhia. 

 

Jordano Guerra, quanto mais perto da estação, mais desconfortável se sentia. Não havia percebido o quanto o Riacho enraizara nele ou o contrário. Naquele rincão, água a lavar toda mazela, lerdeza, distração, o homem encontrou sossego, desses que se dá a quem morre. É certo, sua profissão permitiria ao lugar viver mais tempo. Ele, mais os companheiros, poderia estudar as águas, o solo e proteger aquele biossistema com seu conhecimento, técnica e senso moral. Foi isso o que pôs, em palavras breves, no telegrama que enviou à intendência, da Estação Campina Grande, para que chegasse às mãos de Aurélio. Que lutaria por suporte na preservação e manutenção da pureza daquele sítio. A botina, o pé, uma metáfora da tese. 

 

Foi desse jeito insólito que o coração de Jordano se acalmou, ainda em trânsito. Letícia apareceu, em seu sono acalentado a dormentes, como anjo instrutor. Ela pedia que o pai de Carlos viesse até eles. Ainda teriam vinte e quatro horas antes do voo para o Rio Grande. Havia acentos disponíveis. Jordano pôs o pé na estrada e acionou alguns contatos, a popularidade dele permitia tais voos, mesmo sem a bolsa de pesquisa. Não demorou muito e um helicóptero desceu em um descampado próximo ao Riacho. Lá estavam Aurélio, Eurico e Chicão. 

 

Embora a presença de invasores perigosos, jacintos d’água a cobrir lagunas, temos confiança no manancial das histórias e seus entrelaçamentos. Nas migrações de circunstâncias. Em alguns instantes se encharcam as ideias, viram pasta no berço arqueológico. Então o sol brilha. E torna a escurecer. O medo nos alcança, de não podermos acessar as provas que atestariam a vida liberta, a Jica a esperar no iguape, Fatima no aguapé, Leticia no mururé, a menina morta no pavoá. A rainha-do-lago resolveu dar guarida a todos os seres, do Riacho até o Rio Grande. 

 

De última hora, pusemos seu Chicão, pai de Carlos, a ver nuvens que se podia tocar com a mão. Aparvalhado, aliviado, um cordão prateado o levava até seu filho. Chicão sabia que ainda haveria algum tempo para a cessação da dor de Caviúna, a mãe da morta. Dela entender que Carlos fora amigo fiel, até o fim. Se haveria perdão e libertação, difícil saber. Um pouco de espaço talvez pudesse clarear as almas envolvidas. E assim, com toda a vontade de resolver questões, sabemos que é bom, em alguns momentos, perder o controle, entregar a pena e esperar. Mês que vem, retornaremos. 

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