
*gralha azul
Conheci o Professor Inami Custodio Pinto no inicio de 1981. Eu era cantora do Coral do
Colégio Estadual do Paraná e na noite do concerto eu fazia o solo da
Gralha Azul. O Professor estava na plateia e, nos cumprimentos,
perguntou-me se eu gostaria de conhecer a Faculdade de Educação Musical
do Paraná, onde ele ministrava aulas de Folclore. Assim começou meu
contato com essa figura emblemática, que resignificou minha juventude e
encaminhou meu trabalho musical. As aulas do Inami eram simples na
forma. Inami contava-nos causos de suas andanças pelo litoral
paranaense, alertava sobre a perda de identidade dos povos pescadores,
ia nos cantando cantigas de índios, ensinando antigas danças e costumes,
incutindo em nos amor pela natureza, pelas celebrações, respeito as
diferenças e níveis de evolução. Vivemos com o Inami um momento de
transição entre aculturação e reconstituição do folclore litorâneo
paranaense. As casas de Fandango em Valadares andavam meio caladas na
década de 1980. Os jovens do local estavam a preferir ouvir a musica
eletrificada pelos sistem da época, aqueles "radiões " que os dançadores
de street dance usavam colados ao ouvido. Compreendemos, através dos
ensinamentos do Inami, que o folclore responde as necessidades do povo e
sobrevive de acordo com tais necessidades. Que pode ir e vir. Como as
fases da lua. Que as tradições são importantes ate o momento em que se
adequem ao cotidiano da comunidade. Que devem mover-se, tais tradições.
modificar-se, reinscrever-se em novos cotidianos. Que o folclore,
portanto, e dinâmico e renovável, funciona como o renascer das coisas
após uma tempestade. Que Curitiba sempre foi um porto de passagem, rota
de tropeiros, lugar de viajores, que essa natureza desenraizada da
cidade e sua gente e uma característica importante e fartamente
investigável do ponto de vista afetivo e científico. Ate hoje, baseada
no modo de ensinar do Inami, sei refazer as marcas do Fandango com meus
alunos. Sei cantar a Balainha, a Cana Verde, o Cua Fuba, sei fazer
Barreado e uma boa sopa de peixe. Sei dizer e musicar varias lendas
indígenas, a mais marcante a de Naipi e Taroba. Do universo litorâneo paranaense
apresentado pelo Inami veio o meu interesse pela musica do mundo. Ai
conheci o Terra Sonora, e então tem inicio outra historia. Obrigada, Inami, pela sua participação afetiva.