sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guairacã 14






14 Sandálias de Antônio 

 

O compêndio estava aberto sobre a escrivaninha. Jordano pôs  olhos demorados em um caco de cerâmica da ilha de Creta, onde se viam Esteno, Eiríale e Medusa. Por que o rapaz se demorava naquele enamoramento? Pois, se testemunhou aquelas roupas a cair da janela, direto no quarador. Depois de tal visão libertária, seu espírito passou a voejar pelas almas das noviças. Os sonhos dele nada tinham de eróticos, perturbadores, embora o fossem. O que o pesquisador viu foram cefalópodes, a sair das cabeças carecas daquelas mulheres tão jovens e cheias de dados a coletar, componentes genéticos extraordinários por escandir. Jordano desejou, a cada mergulho, passar a mão naquelas cabeças onde via o fundo do oceano. 

 

Simples, terra, Garnizé tinha se afastado das moças, por visões mais impudentes, por culpas de caráter religioso. Ambos, Jordano e o chefe de excursões pelo interior do rio impraticável, haveriam de provar estranhos sabores marinhos. Jordano ainda foi olhar as Moiras, no mesmo compêndio. Na cachoeira, ele sempre encontrava a pintora. Na cozinha, compartilhava fogão e música, caldeirões, gorduras, mulheres mágicas e canções pampeanas, do Minho. Por essas e outras, Jordano achou que era melhor ficar na Pousada do que partir, como queria Eurico. Aurélio, cismado, o peso mínimo de Adele a causar-lhe inconfessáveis comiches, ainda não decidira o que fazer.

 

Mitos distantes, eis o que eram aquelas mulheres da Pousada do Riacho, para se estudar em lugar luaroso. Eram necessários novos cálculos, novas premissas. Era quarto crescente. Bem fizeram os doutorandos em literatura, pegar o primeiro voo para a terra natal, Tuparendi. Que fossem em paz. Eurico, sentado na soleira da cozinha, recebeu a caneca morna das mãos de Fátima sem olhar, sem agradecer. Fechou seu caderno de anotações. Precisava amadurecer a hipótese. Como ela se apresentava, a pesquisa daria com burros n’água. Um sonho com as sandálias de Antônio o surpreendeu na madrugada. Eurico, materialista por opção. As sandálias, respingadas pela cachoeira, quedavam apoiadas sobre o parapeito, sem pés que as habitassem. Foi o suficiente, para o tirar do beliche, parte de baixo, e ir ver o sol nascer. Um cordel sobre aqueles assuntos dormiria em sua mente pueril, em espera. Só então olhou aquela mulher portuguesa e sentiu algo como afeto.

 

A comunidade do Riacho vivia basicamente da pesca, da caça e agricultura de subsistência. Posto de saúde, falassem com a Jica Lisberta. Abastecimento fluvial e saneamento era Seu Petrarca,  intendente da comarca, eleito por aclamação. Era com ele também a reciclagem e compostagem. Luz elétrica, tinham puxado, pelo sistema gato, de Pedra do Ingá. Por conta disso, a iluminação a querosene ainda dominava os inícios de noite. Havia a ferrovia do Ingá, que dava pras bandas de Itabaiana. Ônibus, uma linha precária que levava a Campina Grande. E todos os leitores podem sossegar, as localizações eram precárias, mesmo inexistentes nos mapas oficiais. 

 

Juanita, a noviça do aborto espontâneo, da vida reclusa, não havia de virar pitonisa. Mesmo porque seus pendores apontavam para corte e costura. Munida de uns tecidos festivos da Jica Lisberta, compôs túnicas para as irmãs de convento e também para Jica e Fátima, a lisboeta. Adele, cada dia mais humanizada, ao olhar as produções, perguntou se havia, na região, tecidos leves, de tom neutro, em que pudesse aplicar cor. Seu Guairacã mandou virem, os tecidos, pelo trem. Foi assim que nasceu uma fabriqueta de roupas simpáticas, que provocaram mocinhas, senhoras e até homens que desejassem ousar na rouparia. Um jeito delicado de mover o lugarejo, sem lhe roubar o equilíbrio. 

 

De há muito, Jica Lisberta fechara sua casa. A construção discreta era longe da pousada um quilômetro em linha reta. A pernada até lá era feita de paisagem ribeira, precioso passeio. Pelo caminho, havia o Chicão, plantador de rosas, Casemiro, vendeiro e rosmaninho. Joca, que alugava, reformava e vendia bicicletas. Passava-se também pelo carpinteiro, para onde Garnizé levara as poucas tralhas que possuía, mais o Repolhinho, cachorro enjeitado quando a menina Guerda faleceu. Essa, quem acudiu foi Magda, noviça da qual já falamos antes, os esquecimentos aqui são previstos. 

 

A jovem freira tinha mãos de paramédica, ou legista. Interessante ser ela a passar quando uma mulher rompeu o silêncio da manhã raiada, aos berros. Com cuidado e respeito ao lidar com a morta, Magda descobriu que alguém molestara e cortara Guerda por dentro, a canivete. A forte hemorragia foi todo um rio de desespero. Um acontecimento para a criminalística local, trataremos de levantar mais poeira sobre este caso e colocar Eiríale na história. 

 

A Pousada do Riacho ia ficando desdentada novamente, embora todo mundo aparecesse, religiosamente, para o almoço. Juvenal e Gaudério desceram para o sul então, precisavam qualificar a tese a quatro mãos. Foram, entre pesarosos e contentes, as pastas cheias de boas premissas. O ponto alto do material que exporiam era o cordel A história da menina Guerda e o fantasma do bicho solto. 

 

Do sinistro ao cordel o velho Guairacã fez-se de morto, sem uma palavra proferir. Cada vez que passava o Jorge, um arrepio subia-lhe os pelos da nuca. Para aquele leitor que não se afeiçoou, Jorge é o moço inocente do caso do arrastão no Farol. Podia ser cisma de velho, mas Guairacã, que já convivera com soldado, estrangeiro, desgarrado, pescador de narval, ficava ouriçado ao olhar aquele lenço espelhado no pescoço do rapaz, agora mais triste que toda história do mundo. 

 

Jorge nunca tirava do pescoço aquele mimo. Jamais foi flagrado o sinal suicida, agora um vão negro sobre a proeminência laríngea. Naquela manhã em que Magda embrulhou a menina em gaze, Jorge saiu a caminhar, chapéu batido na testa. Andou pros lados da bicicletaria. Dizem que rodou por toda parte em uma Caloi velha, falou com uns jagunços que se embrenharam na mata rala da vicinal, parou no portão da menina Guerda e ficou lá por um tempo, o sol rebrilhando o lenço. Caviúna, mãe da morta, aterrorizada com aquele intruso, feito fantasma à sua porta, passou por ele sem respirar e foi refugiar-se na cozinha da Jica, à cata de bartimão. 

 

A faz tudo da Pousada sorria em seu lar naquele  instante, lá longe. Tinha aberto portas, janelas, armários, para arejar, encher de ozônio e flor de Oxum o lugar. As minina ia morar mais Fátima naquele aconchego, no potirgimento da portuguesa. Era cois’ di Deus. 

 

Jica está cá na pousada não, explicou Fátima, e foi estreitando, sem pedir licença, a senhora em abraço tão suave. Caviúna derramou as primeiras lágrimas do luto. Para dar início ao consolo, a lisboeta contou que ia morar na casa da benzedeira, fazia arranjo de vida nova, as freiras junto dela. O aluguel em conta, os benefícios, dava gosto recomeçar a vida com tal madrinha. Segredou também que a Jica estava a deixar a luz entrar na casa há muito fechada. A poeira carecia sair, guardar-se o que era de guardar, tirar o que sobrava, abrir espaço, combinar o jeito das camas, dos poucos móveis, dos utensílios que havia, os que faltava aviar. Ela contava com a ajuda  preciosa do Garnizé e Seu Ademar. A tagarelice durou um pouco mais, com detalhes sem importância. Depois, a portuguesa fez silêncio reverente. Sem saber que uso fazer do bartimão, estendeu à desarvorada uma caneca de erva-cidreira. E então, sem mais aquelas, Fátima desejou a voz de Santo Antônio no coração daquela mãe destruída. 

 

O choro fez sintonia com a cachoeira, tão potente. Por estranho que possa parecer, a noviça Juanita não pode deixar de ouvir a lamentação, mesmo estando submersa como estava, a olhar com curiosidade um tronco, nele as feições de Esteno. O som daquele choro reportou de imediato ao sangue do próprio aborto. A amiga Magda não pudera saber disso de imediato, mas a retaliação que testemunhou no corpo da menina Guerda era o desejo de extirpar o embrião, um filho não desejado. Com tal violência a lâmina explorou o santuário, tudo indicava vingança de homem. Naquele rincão pacífico, o atentado poderia ter sido perpetrado por alguém de convívio, por um meliante familiar. O tronco suspirou a Juanita, lhe soprou. Fora a própria menina a dar cabo da cria, num acesso de desesperança. Talvez não tivesse a intenção de matar a si. Certa de que haveria muito vozerio, movimentação de estranhos no Riacho, a freirinha pediu apoio a Magda e seu Guairacã e foram, os três, ter com o intendente. 

 

A mente límpida de Juanita expôs as hipóteses de modo tão comovente, que os dois senhores logo chamaram Caviúna. A mãe fora surpreendida, na madrugada do sinistro, como se houvesse rádio ligado em programa de resgate. Eram tantas vozes, alarmas, que a mãe emudeceu, por pelo menos meia hora, diante da sangueira. Um índio muito branco, vestido de água, pediu que ela tivesse coragem e confiança, sentasse na cama da mocinha e lhe dissesse prece, para que o desligamento do cordão de prata pudesse ocorrer e a suicida homicida não fosse tragada por gênios perversos. Caviúna não soube como, fez o que lhe foi pedido e a menina Guerda morreu em seus braços. Ao sair do choque, a mãe alertou aos moradores mais próximos. Getúlio as encontrou às cinco da manhã, hora em que saia para a pesca. Ouviu o uivo lancinante de Caviúna, foi acudir.

 

O Jorge, na mira do dono da Pousada, diante do portão da menina Guerda, passado o alarme do sinistro, chorava por dentro. Uma irmã do moço, de nove anos, morreu de forma semelhante, cinco anos antes. No caso de Cidinha, o sangramento foi provocado por uma garrafa, usada por seu agressor. O rapaz tocou o lenço espelhado, vez ou outra, diante do portão de Caviúna, olhar fixo no nada, protegido da luz pela aba do chapéu. Ele contou para Jica Liberta, bem depois, que saber da arma, o canivete, o impediu de ação pior, de cometer injustiça. 

 

A história se complica e encomprida. Seu Chicão, o plantador de rosas, tinha um menino com Síndrome de Down. Carlito, doce como mel, ia fazer treze anos. Era redondo, lembrava pêssego. Difícil cuidar dele sem companheira, que fora embora o menino ainda no seio. Carlito, a paz em pessoa, cresceu ao lado da menina Guerda, esta mais esperta que ele, porém não mais esclarecida. Brincavam nus na cachoeira e ninguém pôs no jogo malícia. Até que o sacrilégio se deu. Ao contrário do esperado, um linchamento, expulsão de seu Chicão no rabecão, os moradores se desvelaram, cuidaram do dono das rosas, também da mãe sem sua menina anjo. Carlito. Para Carlito, veio em socorro a Letícia, a terceira noviça. 

 

Problema é que Caviúna não conseguia perdoar. Nem a si, nem ao marido morto, nem à filha e seu suicídio, nem ao rapazito do Chicão. No neto assassinado, nem pensava. Quando começou a ter ideias homicidas, Caviúna correu para Jica Lisberta, na esperança de um benzimento ou de furtar boa faca de cozinha. A Medusa precisava suprir de amor o irremediável. Foi aquele o dia em que chegou missiva de Juvenal para Letícia. Foi aquele o dia em que ela, por telegrama, pediu guarida para si e para Carlito, na cidade de Tuparendi. 

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Guairacã 13


                                   Paraíba-BR


Clarissas 

 

Guairacã tombou no cadeirão ao lado do fogo. Dizemos tombou, posto que sentiu um rumor de mil anos em seu coração. Fátima chegava naquele instante à cozinha e pode acudir. Para ela, foi dar à luz José, dileto marido morto. Soprou a boca do velho com tal destreza que ele logo se recompôs e confessou nunca fora beijado daquele jeito e que era isso que lhe faltava, um instante. O jaleco azul deu à senhora o distanciamento de que necessitava para olhar o entorno, o quintal. Fátima pediu licença e foi repousar perto do poço, onde a Jica Lisberta plantava lírios d’água. Uma deu com os olhos da outra. Era pura sintonia, ambas amparadas por mães invisíveis que as livravam de poucas e boas nessas curvas de aquífero. 

 

Fátima foi logo abrindo o peito, segredou seu poder de cuidar e que ressuscitara o velho porque era natural o fazer. Pediu ajuda a Jica, para que o bandeirante não confundisse caridade com outro sentir. Jica Lisberta foi logo dizendo eita Fatima, que nosso veinho é purtigido de Ogum, saberá si fortalicê. Ambas, pasmadas de pura ternura, olharam Adele, que entrou nesse momento por detrás da cortina plástica, pendurou a túnica para o lado de fora, acionou a bica e tiritou. Por um vão, as mulheres olharam a magreza da moça e ruminaram, as duas, qual poção lhe administrar, que não ferisse a melancolia porém, devolvesse um grau de calor àquela alma de artista. 

 

Aurélio apareceu na porta da cozinha, olheiras fundas. Sem cerimônia, perguntou se não lhe arrumavam alguma beberagem de dormir, sentia-se precisado. Fátima foi atender. Hortelã e abacaxi aninhariam qualquer ruminação. O mesmo fortificante, com uma rama de anis estrelado, a senhora lisboeta ofereceu a Guairacã que agradeceu, de humor leve. O velho bandeirante tomou dois goles e mergulhou em seu berçário de narval. Já Aurélio teve que dar com uma Adele de túnica colada ao corpo, cabelo pingando, parada à entrada da cozinha, onde o sol refletia sua nudez. Lembrava uma estatueta de jade da deusa Kuan Yin[1]. Ali ela ficou, tocada pelo calor do fogo. De cócoras, aceitou um naco de pão com gergelim que Fátima lhe estendeu sem palavras. Para a pintora, o licor de jenipapo seria mais acertado que hortelã. Com a desculpa de que o velho Guairacã dormia, ninguém falou. Aurélio aceitou um pedaço de bolo de fubá. Lá do poço, se escutava a doce voz de Jica Lisberta a evocar Nzambi[2]. Aurélio levantou-se, quase sem ser notado. Subiu cada degrau como se fossem vinte. Esperava. Logo, Adele quedou-se ao lado e lhe pegou a mão. E foram, os dois, até o mirante. Ninguém fique pensando mirabolices, que para tudo há tempo certo, também necessidade de autorização alfandegária. Ao entrarem no aposento, Adele o convidou ao leito e pediu, deito-me nua sobre ti e tu dormes, está bem assim? E foi isso, um fio de água a escorrer pelo pescoço, um quase nada de peso, um frescor, que os uniu nesse primeiro contato físico, duas horas de sono profundo e uma afeição para sempre.  

 

Juanita, depois de uma noite e meio dia na cascata, tomada por profundo silêncio, retornou à Pousada como se voasse. Também ela foi à cozinha. Fátima, que desfiava o bacalhau, pensou camomila. A noviça aceitou algum bago de uva como acompanhamento. Uma réstia de sol brandia o coração do velho Guairacã, que ressonava a miúdas. Não se tratava de embaraço, era tão íntimo que Fátima, cúmplice no olhar da freira,  saudosa daquela bela Helena que deixou em Lisboa, convidou a moça para o quintal, já que vinha chegando a Jica com as couves, as cebolas, os pimentões, os ovos e seguiria com a feitura da refeição. Aquele entra e sai dava mesmo um valsado, pensou o patrão a sorrir. Jica lhe sondou, estava bem o velhaco.

 

A jovem religiosa falou do filho morto. Fátima escutou e sentiu falta imensa dos gatos... sabia que a enfermeira Matilde cuidaria, mas eles logo achariam outros telhados... a escutatória floriu. Lá pelas tantas, aquela revelação da Clarissa de Francisco. Fátima foi sincera. Do que via naquela herdade, cada um tinha seu Jesus, sua Maria e seu José, confundidos a Lampião e Maria Bonita. Não parecia que precisassem de capela ou convento. Que a moça tivesse mais apreço pelos contatos que fazia. Sentisse o cantar da cachoeira, por ele só, sem Oxum, Santa Bárbara, sem fantasmas de nascituros ou conquistadores de barranca. Juanita precisava tomar a vida com as próprias mãos, isso sim. Não era questão de largar as irmãs ou a crença, mas cada uma achar seu plano de voo. Os rezos eram, mesmo, bem bonitos, serviam de unguento. Que elas seguissem a rezar. Que Juanita cuidasse, sobretudo, dos momentos de cair de joelhos. Atentasse, com quem é que falava, se santo ou sujeito à toa. De certa forma, os dois lhe privavam da própria luz, guardada sob o velador. Juanita foi ficando cada vez mais pálida enquanto era sabatinada. Quis assim, tomou. Fátima até pensou vai me execrar, ora pois... a freira, contudo, abriu largo sorriso, como se lhe desatassem o espartilho. 

 

Letícia e Magda puseram as caritas na janela, ainda com as cabeças descobertas de dormir. Juanita, delicada, decidida, desceu com cuidado o véu do hábito. Os cabelos, aparados até o couro, revelaram-se louros. Não se fez de rogada. Desamarrou com vagar o cordão da cintura. Ainda havia a roupa branca de baixo. Juanita parou. As meninas, lá de cima, parceiras, jogaram os tecidos cinza, os cordões, a roupa branca, em profunda reverência. As peças vieram assentar, comportadas, na tina de lavar. Quem gostaria de pintar aquele quadro seria a Adele.

 

Suave, bate o coração

Mesmo verso amarfanhado

Vou te guardar nesta canção 

Feito cravo desfolhado

 

Dorme, bom amigo

Que o novo dia já vem

 

 

 

 

 

 



[1] Deusa da misericórdia e compaixão, ouve os lamentos do mundo, ama incondicionalmente, protege, cura. OM MANI PADME HUM.

[2] A representação de Deus no Candomblé