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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cartas a minha professora de canto



Querida Sira.

Duas palavras ficam dançando sob a caneta antes que eu as anote neste começo de narrativa: monjolo e realejo. O que digo? Penso na função destes dois objetos.
Eu torno análogos, o trabalho delicado de cantar e o bater do monjolo. Lá vem a “voz”, vazando da calha, brotada da chuva. Ela faz erguer o madeirame. E pimba, soca-se a canção. Assim aprendo os temas que canto no Grupo Terra Sonora. Como se eu morasse na beira de um rio, generoso, a fornecer água em força suficiente para erigir a mó. A voz me vem, deslizante, frouxa, como riso, como brisa, sem resistência, num fluxo ritmado e fresco. E vou, e canto. Se não me dói a brutez, o rude trejeito de mulher das docas, saias puídas, nodoadas, a gritar o peixe e as frutas no cais? Se não me dói a lágrima engolida às pressas, do sofrer das mãos da roça, das mãos das fábricas? Dói, que às vezes quisera eu ser Aida ou Norma ou Manon, para agradar meu ego frágil. Eu não dissocio tais madonas de belas e fartas coxas, longilínea panturrilha e olhos imensos. Então esqueço, não tenho perfil.
Mais caprichoso, o repeteco do realejo é o dia a dia de preparação vocal. Vão pululando, um a um, exercícios já consagrados, inventados, vocalizados, murmurados. E formata-se a canção. Eu, moradora de cidade inconstante, urbe farta de variações climáticas, cheia de poluentes e pouco afeita ao canto, torno a repetir, diariamente, as sequências poderosas de mantras, arpejos, escalas, notas sustentadas, ostinatos, grupetos, para fortalecer o que canto, criando um amálgama longevo em torno do bruto estado das canções. Em geral, construo ideias novas de velhos enredos. É um não acabar de retalhos, o que me dá umas mil cantigas, de muitos povos e idades para rememorar, por horas.
Aprendi a simplicidade do povo rural, em especial o canto melancólico dos imigrantes italianos. Aprendi a gritaria das feiras. Aprendi no feio o que é belo, a sustentar no meio do peito o que de cabeça soa leve, porque o sentimento do povo exige peso, exige dor, exige pouca afinação, até rouquidão, canto bifônico. Aprendi a meditar murmurando. Fugi para mundos indescritíveis murmurando, lugares onde não se fotografa, pois se trata de mundos diáfanos, esquecidos por quem mora há tempos na Terra.
Ah, Sira, o soca soca do monjolo, ferindo os grãos de milho-canção. A geringonça esgasniçada do realejo, gemendo longe suas churumelas circenses.
Ficou guardado num canto o som mavioso das árias de Schubert e Donizetti. No máximo, pude ser gentil com Cavali, e ainda tomando papéis de castrati. E só. No mais, foi abraçar o braseiro das ilhas longínquas da Oceania, atravessar um osso entre os lábios e raspar a pele, até seu perfeito sangramento. E cantar estes cantos sagrados, com gosto de terra úmida. Eu me sinto grata por ter feito este caminho. Teu filho Plínio deu-me esta chancela. Tomei-a entre os dedos e fui pontuando de possibilidades os tantos shows realizados. Fiz rir, fiz chorar. Bonito de ver. Sempre caloroso conosco, o público balizou nossa tarefa e nos deu guarida. E o que dizer dos anos em que passamos ensinando a “ruideira” aos meninos, Bayaka, Omundô. Do primeiro ficou-nos Carla, do segundo Gabriela, duas lindas que deixam os rapazes contentes com seu riso e meninice. E quantos outros estão pelo mundo, Europa, fazendo sentir as influências de nossos ensinamentos na música que produzem.
Estou contente, Sira da minha alma, de partilhar contigo este encontro tão intenso de música, encontro que só acontece em portais, em plataformas interestelares. Foi aí que encontrei teu menino Plínio, esperando uma chuva num dia quente de 1996. Nós nos comunicamos em dolarxiano, fizemos trocas de especiarias, minérios desconhecidos no orbe terrestre (em forma de fitas K7). E, em poucos meses, eis-me com os primeiros temas para trabalhar, da Transilvânia o primeiro (eu que pensava que era lá que Drácula morava). Ixtana bixtana... alí também havia a Seresta do Sr. Gramani, trabalho de monjolo e realejo. O mais esquecido dos esquecimentos foi-me revelado. A experiência de cantar esses cascalhos de diamante que são os temas do Terra surtiram o efeito, para mim, das garrafadas e benzeções para feridas que eu julgava abertas e purulentas para sempre, a matar meu caráter mortiço. Com o Terra Sonora eu aprendi a dançar. E dancei, com meus braços e tronco, fazendo trejeitos engraçados, às vezes harmoniosos até. Eu pude divisar, certa tarde, lá numa igreja do Chile, uma legião de anjos azuis espreitando nosso trabalho, cochichando “que bonito este canto o que será que diz?” Eu vi o olhar molhado de Jesus acompanhando meu cantar humilde enquanto eu esquentava os músculos e dizia preces de gratidão, pela lindeza do Chile a meu dispor. Este milagre discreto proporcionou-me três oportunidades de ser mais do que diva, tornou-me parte de uma paisagem deslumbrante, tornou-me vibração pura a 1673m, no colo do Ozorno.
Tudo isso eu vivi, Sira. E somente porque você permitiu ao Plinio vir ao mundo.
E toda orientação que você me deixou de herança? Tenho aqui diante de mim o teu belo trabalho. Eu mexi nele, tornando-o apto para enfrentar o júdice dos atuais acadêmicos “pseudointelectuais” com quem convivo. Em 2015 ele fará parte do referencial teórico disponível a alunos de primeiro ano dos cursos de música e musicoterapia.
O meu corpo anda fraco. A cabeça nas nuvens. O coração, povoado de fé (sei lá de onde ela brotou, das leituras de Rohden e Chico Xavier).
Eu te escreverei todas as semanas. Aguardo palavras tuas. Estou sempre, sempre contigo. Você é meu mestre jedai, meu xogun. Sinta-se abraçada nas canções.
Somos feitos de espera e de bruma.
Todo o meu carinho e gratidão.
Liane